As portas que ninguém vê abrir

As portas que ninguém vê abrir

Há portas que nunca ouvimos abrir.

Não porque sejam silenciosas, mas porque nos acostumamos ao ruído. O extraordinário quase nunca invade a casa aos gritos; prefere entrar descalço, ocupar um canto da sala e esperar que sua presença deixe de causar estranhamento. Quando percebemos, já o chamamos de rotina.

É assim que as maiores transformações acontecem.

Não de uma vez, mas em pequenas concessões.

Primeiro, aceita-se uma restrição em nome da segurança. Depois, um silêncio em troca da tranquilidade. Mais adiante, alguém considera exagero defender um direito que ainda não lhe foi retirado. E, quando a perda finalmente alcança a todos, já não há memória suficiente para recordar onde começou a renúncia.

A história das mulheres conhece esse percurso com uma intimidade dolorosa.

Durante séculos, ensinaram que nascer mulher significava habitar um espaço delimitado por outras mãos. O corpo não lhe pertencia por inteiro. A palavra precisava de autorização. O conhecimento era privilégio de poucos. A autonomia era confundida com desobediência.

Quantas vidas foram empurradas para as margens da história apenas por desafiarem o papel que lhes havia sido reservado?

Curandeiras tornaram-se bruxas porque dominavam saberes que inspiravam medo. Parteiras, estudiosas e mulheres que ousaram viver além dos limites impostos foram perseguidas, silenciadas ou apagadas da memória coletiva. Filhas obedeceram sem escolha. Esposas viveram sob a autoridade dos maridos. Gerações inteiras aprenderam a existir dentro de fronteiras desenhadas por outros.

Quando o mundo passou a proclamar liberdade, igualdade e direitos, essas promessas demoraram a alcançar as mulheres.

O voto chegou.

A universidade abriu suas portas.

Vieram o direito ao patrimônio, ao trabalho, ao divórcio, à proteção contra a violência e à possibilidade de decidir os rumos da própria vida.

Mas nenhuma dessas conquistas foi um presente da história. Cada uma nasceu da resistência de mulheres que enfrentaram leis, costumes e preconceitos. Direitos não florescem espontaneamente; são construídos, preservados e, quando necessário, reconquistados.

Talvez por isso a memória seja uma das formas mais poderosas de liberdade.

Esquecer nunca é um gesto inocente. É no esquecimento que o autoritarismo encontra terreno fértil para reaparecer com novas roupas e antigos discursos.

Foi essa percepção que Margaret Atwood transformou em literatura ao escrever O Conto da Aia. Muitos chamam a obra de distopia, talvez porque seja mais confortável acreditar que certas experiências pertencem apenas à ficção.

Mas a própria autora afirmou que não criou nenhuma das violências presentes no romance. Cada mecanismo de controle, cada restrição de direitos e cada forma de opressão narrados em Gilead já existiram, em algum tempo e lugar, na história de mulheres reais.

E não é preciso atravessar oceanos para encontrar esses ecos.

Na Paraíba, as ruínas da Fazenda Tanques, no município de Remígio, guardam uma memória que ainda incomoda. Ali, mulheres escravizadas eram submetidas a uma lógica que transformava a maternidade em instrumento da escravidão. Seus corpos deixavam de lhes pertencer para servir aos interesses de um sistema que convertia vidas humanas em patrimônio. Não se trata da mesma realidade retratada por Atwood. São contextos históricos profundamente diferentes. Mas ambos revelam um mecanismo semelhante: quando o poder reivindica para si o controle sobre o corpo feminino, a dignidade deixa de ser um direito para tornar-se uma concessão.

Gilead não irrompe como um raio. Ela se infiltra como a umidade nas paredes: quase imperceptível no início, até que, um dia, percebemos que toda a casa foi tomada. Não é construída apenas por leis, mas também por silêncios, por concessões sucessivas e pela confortável ilusão de que certos direitos são permanentes e, justamente por isso, jamais precisarão ser defendidos.

Talvez essa seja a maior advertência de O Conto da Aia: não a de um futuro inevitável, mas a de um passado que insiste em reaparecer sempre que a memória cede lugar à indiferença.

A literatura não existe para prever o amanhã. Existe para iluminar o presente com a luz da experiência humana. Seus romances não são mapas do futuro; são espelhos voltados para aquilo que preferimos não enxergar.

Porque a liberdade raramente desaparece de repente. Ela costuma se despedir em voz baixa, enquanto nos convence de que abrir mão de um pouco não fará diferença.

Até que faz.

E, quando faz, talvez já seja tarde para recordar que nenhum direito é definitivo. Todos dependem da coragem de quem os reivindicou, da responsabilidade de quem os preserva e da memória de quem se recusa a aceitar o esquecimento.

As distopias mais inquietantes não são aquelas que imaginam mundos impossíveis. São as que nos obrigam a reconhecer, no reflexo da ficção, fragmentos da nossa própria história. Afinal, a democracia, a liberdade e a dignidade humana não sobrevivem por inércia. Sobrevivem porque cada geração decide, todos os dias, que certas portas jamais voltarão a ser abertas.

Palmarí H. de Lucena