No Varadouro, como acontecia havia décadas, os mundos mais improváveis conviviam sem escândalo. Fiéis saíam das igrejas enquanto prostitutas ocupavam as calçadas ensolaradas do domingo. O bairro parecia sustentar uma trégua silenciosa entre devoção e pecado, entre a solenidade e a sobrevivência. Tudo coexistia sob a mesma luz intensa que descia sobre os velhos casarões do centro histórico.
Caminhávamos sem destino preciso quando paramos diante da antiga fábrica de refrigerantes Dore, na Rua da Areia. A paisagem não oferecia nada que um fotógrafo convencional considerasse atraente. Fios elétricos cruzavam o céu emaranhados. Casas antigas exibiam fachadas feridas pelo tempo. Automóveis estacionados interrompiam qualquer tentativa de composição harmoniosa.
Mas havia ali outra espécie de beleza.
A decadência social, cultural e patrimonial nos cercava por todos os lados. O bairro transformara-se num museu involuntário, uma exposição permanente sobre a ascensão e a queda de uma das áreas mais prestigiadas da cidade. Cada porta fechada, cada reboco desprendido, cada janela vazia parecia exibir uma peça desse acervo de abandono. Entrada franca para quem soubesse olhar.
Foi então que percebemos um objeto metálico de proporções incomuns na calçada de uma casa antiga. Estava parcialmente escondido entre móveis velhos e restos de construção. À distância, parecia apenas mais uma sucata destinada ao esquecimento. Levei a câmera aos olhos e aproximei a imagem pela teleobjetiva.
A forma surgiu lentamente.
Uma linotipo.
Fria. Enferrujada. Imóvel.
Durante alguns segundos, o bairro desapareceu. No lugar da rua silenciosa surgiu uma sucessão de imagens em preto e branco. O cheiro da tinta gráfica voltou à memória. O calor sufocante das oficinas. Os vapores metálicos. O ruído incessante das máquinas. Era como se aquela velha estrutura de ferro guardasse dentro de si vozes e sons que se recusavam a morrer.
Pouca gente que passava por ali saberia identificar a máquina. Menos gente ainda compreenderia sua importância. Para a maioria, tratava-se apenas de uma peça obsoleta, uma relíquia industrial sem utilidade num mundo dominado por telas luminosas e textos instantâneos.
Para mim, porém, ela era uma máquina de ressuscitar fantasmas.
Comecei minha vida profissional no Correio da Paraíba como office boy. Eu era um rapaz de Jaguaribe, e o jornal me parecia um universo inteiro condensado num único prédio. Passava os dias levando textos, entregando recados, servindo café e atendendo chamados que surgiam de todos os lados.
— Cafezinho!
— Mensageiro!
Sempre havia alguém precisando de alguma coisa.
Na redação trabalhava também Biu Ramos, contratado como datilógrafo. Sentado diante de uma Underwood, transformava em palavras os ditados dos repórteres. O som das teclas preenchia o ambiente como uma rajada contínua. Para meus ouvidos inexperientes, parecia uma metralhadora disparando frases.
Mas era na oficina das linotipos que a verdadeira magia acontecia.
Lembro-me da primeira vez que entrei naquele espaço. O impacto foi imediato. O calor era quase insuportável. Máquinas gigantescas ocupavam a sala.
Homens de camisas encharcadas de suor inclinavam-se sobre os teclados das linotipos. Alguns fumavam enquanto trabalhavam. Outros mantinham os olhos fixos nas matrizes que deslizavam pelos mecanismos com a precisão de um relógio. Eram operários especializados de uma era em que os jornais ainda tinham peso, temperatura e cheiro.
As linotipos pareciam criaturas vivas.
Engoliam caracteres e devolviam blocos inteiros de texto fundidos em metal quente. Linhas completas surgiam diante dos meus olhos como por encantamento. Era uma alquimia industrial. O chumbo líquido transformava-se em palavras; as palavras transformavam-se em jornais; os jornais transformavam-se em memória.
Eu passava horas observando aquele espetáculo.
Enquanto os redatores acreditavam produzir as notícias e os fotógrafos imaginavam capturar a realidade, eram aqueles homens anônimos, cercados de calor e ruído, que davam forma material às histórias. Sem eles, não haveria manchetes, editoriais, poemas ou crônicas. Não haveria registro.
Ficava hipnotizado.
Cada bloco de metal recém-fundido parecia carregar um pequeno pedaço do mundo. Notícias, anúncios, discursos, resultados de futebol, crônicas e obituários passavam por aquelas mãos antes de chegar aos leitores.
A oficina tinha seu próprio ritmo, sua própria linguagem, sua própria música. O estalar das matrizes, o deslocamento dos mecanismos, o murmúrio do metal e o impacto das peças compunham uma espécie de sinfonia industrial.
Foi ali que me apaixonei pela palavra impressa.
Naquela época eu não sonhava em ser escritor. Queria apenas permanecer naquele ambiente onde os acontecimentos do mundo chegavam pela porta da redação e saíam transformados em notícia. Sem perceber, aprendia que as palavras possuíam uma vida física. Eram datilografadas, revisadas, fundidas em chumbo, impressas em papel e distribuídas pela cidade antes de chegarem às mãos dos leitores.
Foi ali que aprendi, ainda sem saber, que escrever não era apenas produzir texto. Era participar de uma longa cadeia humana que ligava autores, operários, leitores e máquinas.
Por isso aquela linotipo abandonada na calçada me atingiu com tanta força.
Ela não era apenas uma máquina velha.
Era um vestígio de um tempo em que as palavras precisavam de máquinas, oficinas, operários e toneladas de chumbo para chegar aos leitores.
Quantos jornais passaram por seus mecanismos? Quantas notícias anunciaram guerras, eleições, mortes e nascimentos? Quantos poemas, contos e crônicas receberam sua forma definitiva graças ao seu trabalho silencioso?
Talvez nunca saiba.
Talvez nem sequer fosse a mesma linotipo diante da qual fiquei tantas vezes hipnotizado.
Mas a memória tem suas próprias regras. Ela guarda o que deseja guardar e apaga o resto.
Ao encontrar aquela máquina abandonada na calçada do Varadouro, não reencontrei apenas uma tecnologia desaparecida. Reencontrei uma parte de mim mesmo. O rapaz de Jaguaribe que corria pelos corredores do jornal continuava ali, escondido entre engrenagens enferrujadas e lembranças que o tempo não conseguiu apagar.
As máquinas silenciaram. Os linotipistas desapareceram. O chumbo foi substituído por impulsos eletrônicos e as oficinas ficaram para trás. Mas, de vez em quando, a memória encontra um modo de religar as máquinas. E quando isso acontece, ainda consigo ouvir, ao longe, a doce música mecânica de um tempo em que as palavras tinham peso.
Palmarí H. de Lucena