Há uma pequena história sobre Tenente Lucena que talvez diga mais sobre ele do que algumas páginas de biografia. Aconteceu no Campo Escola dos escoteiros, quando um grupo de crianças perguntou se podia colher mangas das mangueiras. Lucena respondeu que sim, mas fez uma ressalva: que deixassem as melhores para os pássaros.
A lembrança sobrevive porque é simples. Não há nela uma grande decisão, nenhuma cerimônia, nenhum episódio que, à primeira vista, pareça merecer lugar na história. Há apenas crianças diante de uma árvore, frutos maduros e um adulto que, em vez de proibir ou simplesmente autorizar, introduz na situação uma terceira presença: os pássaros. As crianças podiam colher as mangas, mas não deveriam esquecer que a árvore alimentava outros seres.
É uma cena pequena, mas a memória costuma trabalhar assim. Os grandes acontecimentos explicam uma época; certas cenas aparentemente banais ajudam a explicar uma pessoa.
João Emídio de Lucena nasceu em 1912, no vilarejo de Campo Grande, então parte de Itabaiana, às margens do Rio Paraíba. Sua infância foi marcada pelo rio, pelo artesanato do couro, pelas feiras de gado e pelas manifestações populares que faziam parte da vida cotidiana. Não havia ainda, para aquele menino, a ideia de que esses elementos poderiam um dia ser chamados de patrimônio cultural. Eram simplesmente o mundo que estava ao seu redor.
Essa distinção é importante para compreender sua trajetória. Lucena não parece ter encontrado a cultura popular como quem descobre um objeto de pesquisa. Ele cresceu dentro dela. Mais tarde, quando passou a trabalhar pela preservação de tradições, estava de certa maneira tentando impedir que desaparecesse aquilo que havia aprendido a reconhecer desde cedo.
Em 1918, sua família mudou-se para São João do Sabugi, no Rio Grande do Norte. Aos dezesseis anos, contra a vontade do pai, ingressou na banda musical da cidade, dirigida pelo maestro Honório Maciel da Fonseca, conhecido como Maestro Capiba. Começou como corneteiro e depois tornou-se trombonista.
É tentador enxergar nesse episódio o começo de uma vocação, e provavelmente foi. Mas talvez a banda tenha lhe oferecido algo além da música. Uma banda é uma pequena sociedade organizada pelo ouvido: cada músico precisa saber quando tocar, quando esperar e como sua parte se relaciona com a dos outros. O resultado depende menos da importância individual de cada instrumento do que da capacidade de todos permanecerem atentos ao conjunto.
Essa ideia parece reaparecer, de formas diferentes, no restante da vida de Lucena.
Quando voltou à Paraíba, em 1933, tornou-se soldado voluntário na banda militar do Exército. A música poderia ter permanecido como profissão. Em vez disso, foi adquirindo outra dimensão. Lucena passou a trabalhar com crianças, grupos populares e pessoas que encontravam pouco espaço nas instituições culturais. Fundou corais infantis, abrigos para menores carentes e bandas para pessoas surdas; participou da fundação da Orquestra Sinfônica da Paraíba e idealizou a Banda 5 de Agosto, da Prefeitura de João Pessoa.
Vista retrospectivamente, essa variedade de iniciativas parece menos uma coleção de realizações do que uma mesma ideia aplicada a situações diferentes. A música não precisava permanecer confinada aos músicos. A cultura não precisava pertencer somente às instituições. E uma criança, independentemente de sua origem, podia encontrar nela uma forma de expressão e pertencimento.
Essa disposição também apareceu em sua atuação à frente da Ordem dos Músicos do Brasil, seção Paraíba. Lucena promoveu a inclusão de cantadores de viola, percussionistas e integrantes de conjuntos folclóricos. Criou ainda grupos voltados à preservação e à divulgação de manifestações populares, entre eles o Grupo Folclórico Tenente Lucena do SESC.
O que hoje pode parecer uma ideia natural — reconhecer diferentes expressões como parte de uma mesma cultura — nem sempre foi tratado dessa maneira. Havia distinções entre o que era considerado música legítima e aquilo que permanecia identificado apenas com a tradição popular. Lucena trabalhou justamente nessa fronteira, aproximando mundos que muitas vezes eram mantidos separados.
Sua preocupação com a cultura também esteve ligada a uma preocupação com pessoas. A biografia registra seu envolvimento com crianças pobres, pessoas com deficiência, prostitutas, meninos de rua e outros grupos que viviam à margem da sociedade. Seu propósito era contribuir para recuperar autoestima, dignidade e potencial.
Talvez seja nesse ponto que a história das mangas adquira outra dimensão, sem precisar se transformar numa parábola. Lucena não precisava explicar às crianças uma teoria sobre solidariedade. Bastava lembrar que havia outros seres dependendo daquela árvore. A lição estava na situação, não no discurso.
O escotismo ofereceu-lhe justamente um ambiente em que esse tipo de educação cotidiana podia acontecer. Pioneiro do movimento escoteiro, participou de sua expansão e do desenvolvimento do Campo Escola de João Pessoa.
É possível imaginar as crianças diante das mangueiras, talvez disputando os frutos mais bonitos, enquanto Lucena estabelecia aquele limite aparentemente insignificante. Não sabemos quantas mangas foram colhidas, nem se as crianças obedeceram exatamente à recomendação. Não sabemos sequer o que pensaram naquele momento. O que sabemos é que a lembrança permaneceu.
E talvez seja isso que torna a cena interessante. Ela não nos diz que Lucena era um homem bom; simplesmente mostra uma escolha que pode ser lida dessa maneira. Não afirma que ele tinha uma filosofia particular sobre a natureza; mostra que, naquela ocasião, considerou os pássaros na distribuição dos frutos. A memória é mais convincente quando não precisa explicar demais aquilo que uma cena já consegue mostrar.
A mesma cautela vale para sua relação com a preservação cultural.
O Núcleo de Pesquisa e Documentação Popular da Universidade Federal da Paraíba, o NUPPO, nasceu sob a inspiração de Lucena e de uma proposta do professor Iveraldo Lucena, com apoio do reitor Linaldo Cavalcanti e de Ariano Suassuna. O núcleo viria a contribuir para a pesquisa e a preservação da cultura popular paraibana.
Há algo de significativo nessa passagem da prática para a documentação. As manifestações culturais que Lucena conhecera como parte da vida cotidiana começavam a exigir também instrumentos de registro e pesquisa. Uma cultura pode parecer inesgotável enquanto está sendo praticada, mas torna-se vulnerável quando as pessoas que a conhecem envelhecem, quando os modos de fazer se modificam e quando uma geração deixa de transmitir aquilo que recebeu.
Preservar, nesse contexto, não significa congelar o passado. Significa permitir que ele continue disponível para o futuro.
Lucena também participou como ator de filmes paraibanos como O Salário da Morte, A Bagaceira, Fogo Morto e A Canga. A passagem pelo cinema é mais uma indicação de como sua trajetória atravessou diferentes formas de expressão. Música, folclore, escotismo, educação, ação social e cinema não precisam ser tratados como capítulos independentes. Em sua vida, eles se encontravam em torno de uma relação persistente com a cultura e com as pessoas que a produziam.
Com o tempo, vieram os reconhecimentos. São João do Sabugi concedeu-lhe o título de cidadão sabugiense e o declarou patrono da cultura popular do município. Em João Pessoa, foi criado o Centro Cultural Tenente Lucena, em Mangabeira, com o objetivo de perpetuar as atividades culturais associadas ao seu nome.
Mas uma vida não permanece apenas porque recebe homenagens. As instituições registram nomes; as pessoas guardam histórias. E as histórias que permanecem nem sempre são aquelas que parecem mais importantes no momento em que acontecem.
Por isso a cena das mangas é tão adequada à memória de Lucena. Ela não o mostra diante de uma multidão, nem inaugurando uma instituição, nem recebendo uma homenagem. Mostra-o diante de crianças e de uma árvore. Em vez de transformar o episódio em uma grande lição moral, talvez seja melhor deixá-lo conservar sua dimensão original: uma observação simples sobre quem mais tinha direito àqueles frutos.
Há, contudo, uma ideia que podemos extrair da cena sem violentá-la. Lucena parece ter entendido que aquilo que recebemos não precisa ser inteiramente consumido por nós. A cultura que uma geração recebe pode ser transmitida à seguinte; uma instituição pode existir para além de seus fundadores; uma música pode continuar sendo cantada depois que aquele que a ensinou já não estiver presente.
Nesse sentido, sua vida foi marcada por uma forma de continuidade. O menino que encontrou a música numa banda de São João do Sabugi tornou-se o homem que ajudou a criar espaços para que outras pessoas encontrassem a sua própria música. A experiência com as tradições populares da infância transformou-se em trabalho de preservação. O contato com crianças e jovens encontrou expressão no escotismo, na educação e nos corais.
Nada disso precisa ser transformado em destino. As pessoas raramente sabem, no início de uma vida, o que suas primeiras experiências significarão décadas depois. É somente olhando para trás que percebemos certas linhas de continuidade.
Lucena morreu em João Pessoa, em 9 de julho de 1985. A biografia registra que ele ouvia música naquele momento e usa uma imagem que dificilmente poderia ser mais adequada para um músico: seu “metrônomo biológico” havia parado.
Não sabemos qual música estava tocando. Talvez essa ausência seja conveniente. Uma memória não precisa responder a todas as perguntas. Às vezes, preservar também significa aceitar o espaço que ficou em branco.
O que permaneceu foi o conjunto de coisas que ele ajudou a colocar em movimento: pessoas, grupos, instituições, músicas, danças, lembranças. E permaneceram também as histórias menores, aquelas que não dependem de documentos para continuar circulando.
Como a história das mangas.
É possível que, para as crianças daquele dia, a recomendação tenha durado apenas alguns minutos. Para quem a ouviu depois, ela ganhou outra vida. A árvore tornou-se uma espécie de cenário; os frutos, uma medida de generosidade; os pássaros, a lembrança de que sempre existe alguém que não está presente quando fazemos nossas escolhas.
Essa talvez seja uma maneira razoável de pensar a memória de Tenente Lucena: não como um monumento acabado, mas como uma árvore que continua dando frutos e à sombra da qual diferentes gerações podem encontrar alguma coisa que não foi inteiramente levada.
O passado não pertence completamente a quem o viveu. Pertence também, em parte, a quem vem depois e precisa encontrar nele alguma coisa que faça sentido. Uma canção, uma dança, uma história, um modo de ensinar uma criança, uma instituição capaz de preservar aquilo que antes parecia destinado ao esquecimento.
Foi nesse movimento entre receber e transmitir que Lucena construiu sua trajetória.
E talvez seja por isso que a frase das mangas permaneça tão apropriada. Ela não pede que deixemos tudo. Também não pede que renunciemos ao que podemos desfrutar. Pede apenas que reconheçamos que não somos os únicos interessados no fruto.
As crianças colheram as mangas.
Os pássaros ficaram com as melhores.
E, muitos anos depois, o que permanece não é apenas a lembrança de uma árvore ou de um grupo de crianças. É a possibilidade de reconhecer, naquela pequena decisão, uma ideia que atravessa a vida de quem se dedicou à cultura: aquilo que recebemos ganha outro valor quando conseguimos entregá-lo adiante sem tê-lo esgotado.
Talvez seja essa a forma mais silenciosa de legado.
Não levar tudo.
Deixar alguma coisa na árvore.
Para quem chegar depois.