Deitado no chão quente do quintal, eu olhava para o céu, onde enormes fortalezas voadoras riscavam as nuvens, partindo em direção a um mundo desconhecido. Eram os aviões americanos, grandes como castelos flutuantes, que faziam minha imaginação voar junto com eles. Será que dentro deles havia crianças como eu, olhando para baixo, curiosas para saber quem morava nessa terra de sol e vento?
Nossa casa era simples, com uma calçada alta e dois quartos apertadinhos, mas cheios de vida. Morávamos perto da Base do Cocorote, numa rua de barro chamada Major Facundo. No inverno, quando as chuvas chegavam, a rua se transformava num rio de lama e pequenas ilhas de terra. Eu e meus irmãos, Piragibe e Potengi, fazíamos barquinhos de papel e víamos quem conseguia chegar mais longe sem naufragar.
Éramos três navegadores de sonhos. Potengi, o mais novo, chegou ao Ceará ainda muito doente. Dizem que, durante a longa viagem de trem e ônibus de João Pessoa até Fortaleza, meu pai, num gesto de desespero e esperança, mergulhou o pequeno nas águas do Rio Jaguaribe. Talvez o rio tenha levado a febre embora, talvez tenha lhe dado forças para crescer. Mas Potengi ficou, por um tempo, frágil como uma pipa ao vento.
Nosso quintal era pequeno, mas nele cabia um mundo inteiro. Foi ali que provei pela primeira vez a cajuína, dourada como o sol da tarde, e a ciriguela, que explodia na boca entre o doce e o azedinho. A vida era difícil, muitas coisas nos faltavam, mas havia sempre um jeito de seguir em frente. De longe, lá da Paraíba, meu avô mandava bicos de mamadeira para ajudar minha mãe, que cuidava de nós como uma capitã experiente conduzindo seu barco em mares bravios.
Nossas vizinhas eram diferentes das outras pessoas da rua. Eram costureiras e muito religiosas, o que era raro por ali. Quando minha mãe adoeceu de angina, foram elas que ajudaram. Entre linhas e panos, também remendavam nossos dias, cozinhando, cuidando e nos dando carinho como se fôssemos parte da família.
Minha melhor amiga era Rita. Diziam que um dia nós nos casaríamos, mas para nós isso não fazia sentido. O que importava era correr pelo quintal, inventar histórias de mundos distantes e brincar de ser tudo o que quiséssemos ser.
Meu passeio favorito era para a Praia de Iracema. O mar rugia como um leão velho, e nós brincávamos entre os escombros dos prédios que o tempo e as ondas tinham engolido. O cinema Diogo era outro refúgio, cheio de risadas, vozes e histórias maiores que a própria vida.
Meu pai era músico. Tocava na base americana, onde os estrangeiros nos davam barras gigantes de chocolate e garrafas verdes de Coca-Cola. Mas ele também tinha outro palco: um circo. Ali, tocava em uma orquestra dentro de uma jaula, vestido como prisioneiro. Os músicos tocavam entre as grades enquanto o palhaço zombava deles. O público ria, mas para nós, crianças, era estranho e um pouco assustador ver nosso pai “preso” naquela cena.
O mundo ao nosso redor não era fácil. Mas também era cheio de encantos, de pequenos tesouros escondidos no dia a dia. O céu, com suas fortalezas voadoras, nos lembrava de que havia muito mais além da nossa rua de barro. E enquanto sonhávamos com esse futuro misterioso, encontrávamos felicidade nas pequenas coisas: nas ciriguelas colhidas no quintal, nas tardes douradas de cajuína, nas histórias do circo e nos sonhos compartilhados com Rita.
Porque, no fim das contas, éramos apenas crianças navegando num mar de imaginação, seguindo o vento dos nossos próprios sonhos.
Palmarí H. de Lucena