As cavernas da fé

photo by Palmarí H. de Lucens
As cavernas da fé

Entramos em um anfiteatro natural, um vale cercado por formações rochosas bizarras, conhecido como o Museu ao Ar Livre de Göreme, na Capadócia. A paisagem, surpreendentemente estranha e fascinante, foi moldada pelos caprichos da natureza há milhões de anos. Erupções vulcânicas depositaram sobre a superfície uma espessa camada de lava macia, conhecida como “tufo”. Ao longo dos séculos, o vento, a chuva e os rios esculpiram essa matéria frágil, criando vales ladeados por penhascos escarpados, de curvas sinuosas e beleza singular, agradáveis aos olhos e desafiadores às pernas cansadas.

As formações apelidadas de “chaminés das fadas” — cones de tufo e cinza vulcânica, com seus topos precariamente cobertos por lajes de basalto — talvez sejam as criações mais atraentes e espetaculares da região. Rochas de diversos tipos e tonalidades completam o cenário, acrescentando verdes, azuis e ocres à paisagem árida e desolada, formando ondas bruxuleantes que mudam de cor conforme o ângulo do sol e a estação do ano.

Misteriosas cavernas abertas nas escarpas guardam marcas milenares da presença humana. Cidades subterrâneas, com mais de dez andares de profundidade, abrigaram comunidades primitivas que escavaram e moldaram a rocha para atender às necessidades do cotidiano, às inclinações artísticas e à fabricação de instrumentos de caça e defesa.

Escondidas no ventre das escarpas, igrejas e mosteiros construídos por cristãos e monges entre os séculos VII e XIII oferecem uma verdadeira crônica visual da arte e da arquitetura religiosa bizantina. Embora os períodos e estilos variem, esses lugares de oração e retiro permanecem como testemunhas milenares do poder incontestável da fé, que transformou as entranhas das montanhas da Capadócia em santuários de devoção e silêncio.

A própria Capadócia é citada nas Escrituras (Atos 2:9; 1 Pedro 1:1), testemunhando a antiguidade da fé cristã naquela região. Séculos depois, seus vales e cavernas se transformariam em templos silenciosos, lembrando os homens e mulheres “de quem o mundo não era digno”, que “andaram errantes pelos desertos e montes, pelas covas e cavernas da terra” (Hebreus 11:38), preservando a fé onde o mundo oferecia perseguição.

Essa experiência nos conduziu a uma reflexão profunda sobre a humanidade e sobre a permanência da fé em tempos de perseguição. Muitos daqueles cristãos sobreviveram a séculos de opressão, escondendo-se em cavernas e cidades subterrâneas para preservar sua crença. Hoje, mesmo desfrutando da liberdade de culto e de consciência em nossos países, frequentemente ignoramos a realidade opressora que ainda ameaça a sobrevivência de comunidades cristãs no Oriente Médio e em nações islâmicas intolerantes à diversidade religiosa. Eles já não têm cavernas para escondê-los.

A advertência bíblica permanece atual: “Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo” (Hebreus 13:3). A fé, que antes encontrou refúgio nas rochas da Capadócia, hoje clama por nossa memória, solidariedade e oração.

Por Palmarí H. de Lucena, 11 de abril de 2007