Aos Oitenta e Cinco Anos

Aos Oitenta e Cinco Anos

Os primeiros raios de sol, ou o gotejar delicado da chuva sobre as plantas, anunciam o início de um novo dia. Antes de qualquer compromisso, gosto de adentrar o jardim do terraço. Ao atravessar aquele pequeno espaço, tenho a impressão de deixar para trás o ruído do mundo. Caminho sem pressa entre as flores, observo as que amanheceram abertas, acompanho o voo dos primeiros pássaros e respiro o perfume da terra ainda úmida. Nunca encontro o mesmo jardim. A luz desenha novas sombras, as flores mudam discretamente e até o silêncio parece diferente. Sem dizer uma palavra, a natureza recorda que viver é renovar-se.

Volto então para dentro. A mesa do café já está posta, e gosto de tomá-lo lentamente, como quem prolonga a conversa iniciada entre as flores. Enquanto a manhã encontra o seu próprio ritmo, deixo que o pensamento desperte sem exigências. Há ideias que precisam de silêncio, assim como as sementes precisam de tempo. Só depois me sento diante do computador.

A tela iluminada nunca substituiu o jardim. Tornou-se sua continuação. Se o terraço desperta os sentidos, o computador abre outra paisagem, feita de livros, pesquisas, fotografias, mapas, artigos científicos e autores separados por séculos, mas reunidos pela mesma curiosidade. Uma palavra conduz a outra, uma leitura desperta uma lembrança, uma pergunta leva naturalmente à seguinte. Muitas vezes começo procurando uma informação e termino percorrendo um caminho que não imaginava existir.

Foi apenas com o passar dos anos que compreendi o significado desse hábito. Durante muito tempo pensei que pesquisava para aprender. Hoje percebo que continuo aprendendo porque nunca deixei de fazer perguntas. Talvez essa tenha sido, desde sempre, a verdadeira bússola da minha vida.

Chegar aos oitenta e cinco anos modifica o olhar. O passado deixa de ser uma sequência de datas e transforma-se numa conversa silenciosa. As lembranças regressam não para alimentar a nostalgia, mas para iluminar o presente. Descobri que a memória também se parece com o jardim do terraço. Algumas recordações permanecem adormecidas durante anos, até que uma leitura, uma música, uma fotografia ou o perfume de uma flor lhes devolvam a vida. Outras florescem inesperadamente, revelando sentidos que ainda não estavam maduros quando foram vividos.

Talvez por isso escrever tenha se tornado inseparável dos meus dias.

Nunca escrevi apenas para registrar acontecimentos. Escrevo para compreender melhor aquilo que vivi. Muitas vezes começo um texto acreditando conhecer o seu destino e termino encontrando uma ideia que eu mesmo desconhecia. A escrita aproxima experiências distantes, organiza pensamentos dispersos e revela relações que permaneciam ocultas. Não raro, descubro que as palavras chegaram antes da consciência.

Com o tempo aprendi também a confiar nas pequenas coisas. Uma frase ouvida por acaso, a nota de rodapé de um livro, uma observação durante uma caminhada, a pergunta feita por uma criança ou uma informação aparentemente insignificante encontrada durante uma pesquisa podem permanecer silenciosas por muito tempo. Um dia encontram outra ideia, e desse encontro nasce uma reflexão. Talvez a criatividade não seja um clarão repentino, mas a paciente aproximação entre pensamentos que esperavam o momento de se reconhecer.

Ao longo da vida acompanhei mudanças que, em diferentes épocas, pareciam anunciar um novo mundo. Recordo o fascínio provocado pelo fax, capaz de fazer uma folha atravessar continentes em poucos minutos. Depois veio o walkman, transformando cada caminhada numa experiência íntima. O som firme da máquina de escrever acompanhou boa parte da minha vida até ser substituído pelo silêncio do computador. Vieram a internet, os telefones inteligentes e uma biblioteca praticamente infinita passou a caber sobre a mesa onde hoje escrevo.

Mais recentemente chegaram os drones. Confesso que despertaram em mim um encantamento quase infantil. Pela primeira vez pude acompanhar o curso de um rio, descobrir a geometria de uma floresta ou contemplar uma cidade a partir de uma perspectiva antes reservada aos pássaros. Permanecia com os pés no chão, mas o olhar aprendia a voar. Compreendi então que aprender também significa mudar de perspectiva. Muitas vezes a realidade permanece a mesma; muda apenas o lugar de onde a observamos.

Hoje convivo diariamente com outra presença marcante do nosso tempo: a inteligência artificial. Recebo-a com o mesmo interesse com que acolhi todas as grandes transformações tecnológicas que testemunhei ao longo da vida. Ela amplia minha capacidade de pesquisar, aproxima conhecimentos dispersos e abre caminhos que talvez eu levasse muito mais tempo para percorrer sozinho.

Jamais a vi como uma ameaça. Vejo-a como mais uma expressão da criatividade humana. Antes de qualquer algoritmo existiu uma pergunta. Antes de qualquer inovação houve alguém disposto a imaginar o que ainda não existia. As máquinas podem organizar informações, sugerir caminhos e acelerar descobertas; continuam sendo, porém, a inteligência humana, a sensibilidade e a consciência que transformam informação em conhecimento, conhecimento em sabedoria e sabedoria em responsabilidade.

Quando olho para trás, percebo que minha vida foi menos conduzida pelas respostas que encontrei do que pelas perguntas que nunca abandonei. Foram elas que me levaram aos livros, às viagens, às pesquisas, às novas tecnologias e, curiosamente, de volta ao jardim do terraço, onde cada manhã recomeça de maneira discretamente diferente.

Talvez esse seja o maior presente da maturidade. Descobrir que o tempo não nos pede pressa, mas presença; que o conhecimento não é um lugar de chegada, mas um caminho; e que envelhecer não significa afastar-se da vida, mas aproximar-se de sua essência. A juventude talvez pertença menos ao corpo do que à capacidade de conservar vivo o espanto diante do mundo.

Amanhã os primeiros raios de sol — ou talvez o delicado gotejar da chuva — voltarão a anunciar um novo dia. Entrarei novamente no jardim do terraço, caminharei entre as flores, voltarei para a mesa do café, já posta, e o tomarei lentamente. Depois me sentarei diante da tela do computador. Alguma pergunta, ainda desconhecida, começará a procurar suas primeiras palavras.

Palmarí H. de Lucena