A cidade onde regressamos na Semana Santa

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A cidade onde regressamos na Semana Santa

Dizem que Antigua sobreviveu a tantos terremotos porque os vulcões que a cercam se recusam a deixá-la desaparecer.

Quando ouvi isso pela primeira vez, quarenta anos atrás, pensei tratar-se apenas de uma dessas histórias que os habitantes contam aos viajantes para que levem consigo algo além de fotografias.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Antigua repousa no vale como uma lembrança que ninguém teve coragem de apagar. Ao redor, três vulcões — Agua, Fuego e Acatenango — vigiam a cidade com a paciência de criaturas antigas que já viram séculos suficientes para saber que os homens passam depressa, mas certas cidades insistem em permanecer.

Caminhei por essas ruas pela primeira vez há quarenta anos. As pedras irregulares pareciam ter sido colocadas pelo próprio tempo, as paredes ocres guardavam a luz da tarde como um segredo antigo, e as fontes nos pátios coloniais murmuravam histórias que talvez tenham começado antes mesmo de alguém pensar em fundar uma cidade ali.

Agora regressamos.

E não regressamos em qualquer tempo.

Regressamos na Semana Santa.

Talvez porque seja nesse período que Antigua revela sua verdadeira natureza. Durante o resto do ano ela parece apenas uma bela cidade colonial adormecida entre vulcões. Mas quando chega a Semana Santa algo invisível começa a despertar nas ruas.

Primeiro aparecem as famílias.

Carregam sacos de serragem colorida, flores, frutas e folhas de pinheiro. Ajoelham-se sobre o pavimento como se estivessem cumprindo um ritual que aprenderam com os avós, que por sua vez o aprenderam com os seus próprios avós.

Assim nascem as alfombras.

Tapetes de cores intensas surgem sobre as pedras das ruas: azuis profundos, vermelhos ardentes, amarelos que parecem feitos de sol. Desenham cruzes, pássaros, anjos e símbolos da Paixão.

Trabalham durante horas.

Às vezes a noite inteira.

E todos sabem que aquelas obras desaparecerão em poucos minutos.

Porque as alfombras não são feitas para durar.

São feitas para esperar.

Esperam a procissão.

Quando o cortejo finalmente aparece na esquina da rua, o ar muda. O cheiro do incenso mistura-se ao perfume das flores e das bandas surge uma música lenta que parece vir de algum século esquecido.

Então surgem os andas.

Grandes plataformas de madeira carregadas sobre os ombros dos devotos. Dizem que pesam mais de uma tonelada, mas avançam com uma lentidão tão solene que parece que não são os homens que caminham — é a própria cidade que se move.

Os cucuruchos vestem túnicas roxas e caminham em silêncio.

E quando passam sobre os tapetes de serragem, os desenhos desaparecem.

Cruz após cruz.
Pássaro após pássaro.
Anjo após anjo.

Tudo se desfaz sob os passos da procissão.

A primeira vez que vi aquilo pensei tratar-se de destruição.

Hoje sei que não.

Naquela cidade, a beleza nasce com um destino diferente: o de ser oferecida. A arte ali não busca permanecer. Ela existe para ser entregue ao instante, como uma oração feita de cores.

Quando a procissão desaparece na curva da rua e o vento começa a levar embora a serragem colorida, as pedras reaparecem lentamente, como se a cidade retomasse sua respiração.

Mas quem esteve ali sabe que algo permanece.

Talvez seja por isso que voltamos.

Voltamos porque, em Antigua, a Semana Santa não é apenas uma celebração religiosa. É um momento em que a cidade inteira parece recordar sua própria alma — uma alma feita de fé, de memória e de uma silenciosa obstinação em permanecer.

E nós, que regressamos agora depois de tantos anos, compreendemos algo que certos lugares ensinam sem palavras:

há cidades que visitamos uma vez.

E há outras que nos chamam de volta.

Antigua é uma delas.

Porque, quando chega a Semana Santa e as procissões voltam a atravessar suas ruas de pedra, a cidade revela seu segredo mais antigo:

ali o tempo não passa.

Ele apenas caminha.

Devagar.

No mesmo passo das procissões.

Por Palmarí H. de Lucena