Antes que a primavera se cale

Antes que a primavera se cale

Todas as manhãs, o velho ipê da praça assiste ao mesmo ritual. Os adolescentes atravessam a rua em direção à escola carregando mochilas que parecem leves demais para justificar o modo como alguns caminham. Há pesos que não obedecem à gravidade. Instalam-se no pensamento, escondem-se atrás de um sorriso breve e aprendem a morar onde ninguém consegue vê-los.

Os adultos costumam acreditar que a juventude é um território naturalmente iluminado. Confundem vigor com felicidade, energia com equilíbrio, riso com serenidade. Esquecem que a primavera também conhece tempestades e que certas flores murcham enquanto ainda aprendem a desabrochar.

Há mais de dois séculos, Goethe apresentou ao mundo o jovem Werther. Muitos se recordam do desfecho de sua história; poucos se detêm no longo caminho de solidão que o antecede. Werther não foi vencido apenas por um amor impossível. Foi, sobretudo, um jovem que deixou de encontrar lugar entre os outros. A literatura, desde então, continua fazendo a mesma pergunta: quanto sofrimento pode permanecer invisível antes que alguém decida enxergá-lo?

Mais tarde, Durkheim deslocou essa pergunta para a sociedade. Em Le Suicide, observou que nenhuma existência é construída em absoluto isolamento. A família, a escola, os amigos, a comunidade e os vínculos cotidianos oferecem mais do que companhia: oferecem sentido. Quando esses laços se enfraquecem, a solidão deixa de ser apenas ausência de pessoas e transforma-se na dolorosa impressão de não pertencer ao mundo.

Talvez nunca essa reflexão tenha sido tão atual.

Vivemos cercados por telas que aproximam distâncias geográficas enquanto ampliam desertos afetivos. Os adolescentes conhecem centenas de rostos, acompanham milhares de imagens e, ainda assim, nem sempre encontram um único olhar onde possam repousar suas inquietações. Aprendem cedo a editar fotografias, ocultar inseguranças e transformar tristeza em silêncio. As redes sociais exibem vitrines; a vida, porém, continua acontecendo nos bastidores.

A lógica do desempenho invade quase tudo. Há notas para medir inteligência, algoritmos para calcular popularidade, estatísticas para avaliar sucesso e expectativas capazes de transformar qualquer fracasso em condenação íntima. Pouco a pouco instala-se a ilusão de que existir depende de corresponder. E aquilo que deveria ser apenas uma etapa da formação converte-se numa permanente prova de valor.

A psiquiatria contemporânea recorda aquilo que a boa literatura sempre pressentiu: nenhuma dor humana nasce de uma única causa. O sofrimento de um adolescente raramente possui uma explicação simples. Vulnerabilidades emocionais, transtornos mentais tratáveis, bullying, violência, preconceito, conflitos familiares, perdas, isolamento e desesperança entrelaçam-se de maneira singular em cada história. Por isso, também não existe uma resposta única. O cuidado começa na escuta, fortalece-se nos vínculos e se completa quando encontra acolhimento, responsabilidade coletiva e acesso ao tratamento adequado.

Talvez o maior equívoco dos adultos seja imaginar que crescer consiste apenas em aprender respostas. A adolescência, no entanto, é feita principalmente de perguntas. Perguntas sobre identidade, pertencimento, futuro, fracasso, amor e sentido. Algumas são pronunciadas em voz alta; outras permanecem escondidas atrás de um “está tudo bem”, repetido tantas vezes que acaba parecendo verdade.

Há silêncios que pedem ajuda sem conhecer as palavras necessárias. Há mudanças confundidas com rebeldia. Há cansaços interpretados como preguiça. Há lágrimas que escorrem para dentro.

Corremos tanto para preparar os jovens para o amanhã que, por vezes, deixamos de acompanhá-los no hoje. Ensinamos idiomas, fórmulas, competências e estratégias para vencer. Falamos pouco sobre a delicada arte de suportar perdas, aceitar imperfeições, lidar com a frustração e compreender que pedir ajuda não diminui ninguém. Talvez porque nós mesmos ainda estejamos aprendendo.

No fim da tarde, o ipê continua ali. Amanhã verá outros adolescentes atravessando a rua. Alguns rirão alto, outros caminharão olhando para o chão, outros parecerão distraídos com a luz das telas. Para quem observa de longe, serão apenas mais jovens voltando para casa.

Talvez seja essa a maior ilusão do nosso tempo: acreditar que aquilo que não se revela aos olhos simplesmente não existe.

Quando a praça esvazia e o vento espalha as primeiras flores amarelas sobre a calçada, fica a impressão de que as árvores sabem guardar segredos que nós desaprendemos a escutar. Talvez por isso continuem florescendo todos os anos: para lembrar, em silêncio, que toda primavera é uma promessa delicada demais para ser atravessada na pressa.

Palmarí H. de Lucena