Já me vejo lá,
mesmo estando aqui.
Os pés ainda pisam no chão de casa,
mas a alma já passeia pelas pedras de Tallinn,
já ouve o coro invisível de Riga,
já repousa nas torres de Vilnius,
onde a fé e o sonho caminham lado a lado.
Não vou atrás de postais.
Quero o não dito,
o olhar tímido que atravessa a rua,
o silêncio educado dos estonianos,
a melancolia que a Letônia canta em coral,
a rebeldia poética que dorme sob a neve lituana.
Espero aprender com eles
o que aqui desaprendemos:
a escutar sem interromper,
a viver sem gritar,
a lembrar sem ódio.
Eles, que foram ocupados, apagados,
mas não se deixaram esquecer.
De Tallinn, espero o frio gentil,
um café com especiarias e ternura,
o som de passos sobre a história.
Quero ver onde a tecnologia não mata a memória,
mas a veste com novas roupas.
Riga me chama com suas fachadas que dançam,
com seu rio calmo e sua coragem em canto.
Quero me perder ali —
não para ser achado,
mas para me dissolver um pouco
e voltar menos duro.
E Vilnius…
ah, Vilnius é promessa de comoção.
Quero andar sem mapa,
chegar a Uupis como quem encontra um recado esquecido
num livro de infância.
Quero ver o Monte das Cruzes
e apenas silenciar.
Não para rezar, talvez —
mas para me curvar diante daquilo
que só a dor e a esperança sabem construir juntas.
Levo pouco.
Um caderno, uma curiosidade limpa,
e uma fome antiga de humanidade.
Não quero colecionar lugares —
quero habitar momentos.
Ver como se sorri num idioma que não entendo,
como se atravessa a rua,
como se segura o frio com as duas mãos
e ainda assim se planta flores nas varandas.
É isso que procuro:
gente.
Gente que resiste,
que canta,
que escreve constituições para pequenos bairros
e declara que todo mundo tem direito
de descansar, de amar e de não saber.
Talvez eu volte outro.
Talvez mais leve.
Ou mais denso.
Mas, com certeza,
voltarei com o coração carregado de brumas,
vozes suaves
e a certeza de que mesmo os cantos mais esquecidos do mapa
sabem muito sobre o que é ser inteiro.
Por Palmarí H. de Lucena