Ângela Bezerra de Castro e a Ética da Permanência

Ângela Bezerra de Castro e a Ética da Permanência

O prestígio pode ser conquistado rapidamente; a autoridade intelectual pertence a outra ordem de tempo.

Há uma diferença que a vida pública contemporânea parece ter esquecido: prestígio e autoridade não são sinônimos. O primeiro pode nascer da exposição contínua, da habilidade para ocupar o debate ou da capacidade de transformar opinião em presença. A segunda exige outra medida de tempo. Não depende da frequência com que alguém é visto, mas da confiança que inspira quando fala, ensina ou escreve. Prestígio acompanha o presente; autoridade atravessa o tempo.

Essa distinção ajuda a compreender por que certas figuras permanecem relevantes muito depois de cessado o ruído das circunstâncias que as cercaram. Elas não sobreviveram porque foram mais visíveis, mas porque construíram uma relação incomum entre pensamento e conduta. A cultura sempre dependeu menos de personalidades brilhantes do que de inteligências confiáveis. Quando essas inteligências se tornam raras, as instituições continuam existindo, os livros continuam sendo publicados e as universidades permanecem abertas, mas algo essencial começa a faltar: a capacidade de formar critérios.

É nesse horizonte que a trajetória de Ângela Bezerra de Castro adquire um significado que ultrapassa a homenagem biográfica. Sua contribuição não se resume à carreira acadêmica, à atuação institucional ou ao reconhecimento legitimamente conquistado. Ela interessa porque encarna uma concepção de vida intelectual fundada na coerência. Em um tempo que frequentemente recompensa a velocidade das respostas, sua obra recorda o valor da demora; diante da simplificação dos debates, reafirma a necessidade da complexidade; onde prevalece a afirmação categórica, preserva o espaço da escuta e da interpretação.

Essa postura não resulta de um temperamento reservado, mas de uma compreensão exigente do próprio conhecimento. Há quem trate a linguagem como instrumento de convencimento; outros a entendem como lugar de responsabilidade. A diferença entre essas duas atitudes define modos distintos de exercer a atividade intelectual. No primeiro caso, as palavras procuram vencer discussões. No segundo, procuram compreender a realidade antes de julgá-la. É essa segunda tradição que orienta o percurso de Ângela Bezerra de Castro.

Sua formação oferece uma chave importante para compreender essa disposição. Oriunda do interior paraibano, trouxe para sua experiência acadêmica uma percepção pouco comum da relação entre memória, território e cultura. Não se trata de transformar a origem em explicação biográfica, mas de reconhecer que determinados ambientes ensinam formas particulares de atenção ao mundo. Há lugares em que a história permanece inscrita nas pessoas, nos gestos e na linguagem cotidiana. Dessa convivência nasce uma sensibilidade que resiste às interpretações apressadas e prefere reconhecer a espessura da experiência humana.

Tal sensibilidade explica, em parte, a naturalidade com que Direito e Literatura se encontraram em sua trajetória. À primeira vista, pertencem a universos diferentes. Um organiza a convivência por meio da norma; a outra explora as zonas de incerteza que nenhuma norma consegue inteiramente abarcar. Para Ângela Bezerra de Castro, entretanto, ambos convergem na mesma pergunta: como compreender o ser humano sem empobrecer sua complexidade? Essa questão atravessa sua produção intelectual e confere unidade a um percurso que jamais aceitou a fragmentação entre as humanidades.

Talvez seja justamente aí que resida a atualidade de sua obra. Num ambiente intelectual frequentemente dividido entre especializações cada vez mais estreitas e opiniões cada vez mais rápidas, ela recorda uma verdade simples, embora exigente: pensar continua sendo um exercício de integração. Exige tempo, disciplina e disposição para aceitar que os problemas realmente importantes raramente cabem em respostas fáceis.

Essa compreensão alcança sua expressão mais nítida na maneira como Ângela Bezerra de Castro se aproximou da literatura, particularmente da obra de João Guimarães Rosa. Em uma tradição crítica muitas vezes inclinada a transformar grandes escritores em objetos de exibição erudita, sua leitura seguiu direção diversa. Ela nunca buscou domesticar a complexidade do texto nem o converter em demonstração de competência interpretativa. Preferiu reconhecer que certos livros permanecem vivos justamente porque resistem às interpretações definitivas. A crítica, nesse horizonte, deixa de ser um exercício de autoridade sobre a obra para tornar-se um diálogo disciplinado com ela.

Essa atitude revela uma concepção mais ampla da cultura. Ler não consiste apenas em decifrar significados; consiste em ampliar a própria capacidade de perceber o mundo. Por isso, o sertão de Guimarães Rosa não aparece, em sua reflexão, como um território regional ou uma paisagem literária excepcional. Surge como um espaço de investigação da condição humana, onde escolhas morais, linguagem e liberdade se entrelaçam de maneira inseparável. A literatura, assim compreendida, não oferece respostas prontas. Ela educa o julgamento.

O mesmo princípio orientou sua atuação como professora na Universidade Federal da Paraíba. Em uma época em que a educação superior é frequentemente pressionada por indicadores de desempenho, produtividade e resultados mensuráveis, sua prática docente preservou uma convicção que parece cada vez mais rara: formar uma inteligência é diferente de transmitir informação. Informação pode ser acumulada; inteligência precisa ser cultivada. Exige método, leitura, confronto de ideias e, sobretudo, tempo.

Essa diferença explica por que tantos ex-alunos recordam menos conteúdos específicos do que a experiência de terem sido levados intelectualmente a sério. Em suas aulas, a exigência nunca funcionou como mecanismo de seleção ou de prestígio. Era uma forma de respeito. Pressupunha que todo estudante podia alcançar um grau mais elevado de compreensão se fosse convidado a abandonar respostas automáticas e a enfrentar a dificuldade inerente ao pensamento rigoroso. Há uma dimensão ética nessa forma de ensinar: confiar na capacidade do outro de crescer.

Essa coerência entre pesquisa, ensino e conduta talvez constitua sua contribuição mais duradoura. Instituições acadêmicas sobrevivem por décadas ou séculos; o que lhes assegura vitalidade, entretanto, não são apenas regulamentos, edifícios ou títulos honoríficos. São pessoas capazes de transmitir uma determinada ideia de cultura. Ao participar da Universidade Federal da Paraíba e da Academia Paraibana de Letras, Ângela Bezerra de Castro jamais tratou essas instituições como lugares de distinção social. Entendeu-as como espaços de responsabilidade pública, onde o conhecimento deve ser preservado, interrogado e continuamente renovado.

Essa postura ilumina um problema que ultrapassa sua própria trajetória. A crise contemporânea da autoridade intelectual não decorre da falta de especialistas, nem da escassez de informação. Vivemos, ao contrário, uma época extraordinariamente rica em dados, opiniões e meios de comunicação. O que se tornou mais raro é encontrar figuras cuja credibilidade decorra menos da visibilidade do que da coerência. Autoridade intelectual não é um atributo concedido por algoritmos, premiações ou popularidade. Ela nasce quando uma comunidade reconhece que determinada voz merece confiança porque permaneceu fiel aos mesmos critérios de rigor, honestidade e responsabilidade ao longo do tempo.

É precisamente por isso que a expressão “ética da permanência” parece definir, com precisão, o legado de Ângela Bezerra de Castro. Permanecer não significa resistir às mudanças nem cultivar uma reverência estéril ao passado. Significa conservar vivos os princípios sem os quais nenhuma renovação produz verdadeiro progresso. Uma cultura se transforma continuamente, mas não pode abrir mão das qualidades que lhe permitem distinguir profundidade de superficialidade, reflexão de improviso, autoridade de mera notoriedade.

Ao final, talvez a pergunta mais importante não seja por que devemos homenagear Ângela Bezerra de Castro. A questão realmente decisiva é outra: que tipo de vida intelectual desejamos cultivar em um tempo que parece recompensar apenas o imediato? Sua trajetória oferece uma resposta discreta, porém firme. A relevância de um intelectual não se mede pela intensidade com que ocupa o presente, mas pela capacidade de continuar iluminando o futuro quando as circunstâncias que produziram sua notoriedade já desapareceram. É essa permanência — construída pela coerência entre pensamento, linguagem e vida — que transforma uma carreira respeitável em um legado público. E é dessa permanência que a cultura brasileira continua a necessitar.

Palmarí H. de Lucena