Pequena pausa. Os instrumentos eram rearranjados no palco quando a luz repousou sobre Cy Manifold. No centro, ele iniciou a Ave Maria de Gounod — em latim, com a doçura grave de um cântico que parecia não vir da garganta, mas do próprio coração do Caribe.
Os tambores de aço do calipso ressoavam como cúpulas sonoras, refletindo a luz como se fossem espelhos do mar. Cada golpe de baqueta fazia o ar vibrar em ondas cintilantes — música que era ao mesmo tempo sagrada e pagã. Vozes dissonantes o acompanhavam, entre a alegria e a paz do instante. Tudo parou, até o vento. As garças, imóveis, dormiam sobre o espelho d’água da Lagoa.
Sancta Maria, Mater Dei,
Ora pro nobis peccatoribus,
Nunc et in hora mortis nostrae,
Amen…
Um suspiro coletivo se ergueu da plateia — o tipo de silêncio que só a música verdadeira é capaz de criar.
O concerto acontecia em frente ao antigo Cassino da Lagoa, sob a luz amena dos refletores e o murmúrio distante das árvores. Logo após a Ave Maria, um novo compasso se insinuou: um batuque leve, ancestral, abrindo espaço para o espírito do calipso.
Os músicos se entreolharam e, como um sopro de brisa tropical, surgiu a canção que atravessou mares e gerações:
Day-o, day-o,
Daylight come and me wan’ go home…
O público reagiu com palmas ritmadas. A melodia alegre e melancólica parecia unir todos — brasileiros e caribenhos — num mesmo compasso, uma prece e um convite à vida simples dos portos, das frutas e da esperança.
Dois bailarinos ergueram as barras paralelas: era a parafernália da dança do limbo. Então surgiu ela — uma mulher esguia, de movimentos líquidos, mãos voltadas para o céu.
Deslizava diante das barras com a graça de um pássaro que pousa sem perder o voo. Inclinava-se lentamente, o corpo dobrando-se em pura harmonia até as costas quase tocarem o chão. A plateia prendeu o fôlego: havia algo de divino na leveza daquela dança, como se a música a sustentasse no ar.
Quando atravessou o último arco, o público explodiu em aplausos. Era o grande finale.
Mais tarde, diante do Paraíba Palace Hotel, o glamour dissolveu-se em realidade prática: os músicos aguardavam seus cachês e o gerente exigia pagamento imediato. Chamaram-me para traduzir e, entre um verbo e outro, o impasse se resolveu. Convidamos a banda para um almoço típico em nossa casa. Comeram, riram, cantaram. Depois partiram para o próximo concerto, levando consigo o cheiro do nosso litoral e um pedaço de amizade improvisada.
Cy Manifold acabou ficando no Brasil. Nunca voltou à Guiana. Tornou-se uma das vozes mais conhecidas da noite carioca — dono de uma elegância antiga, desses artistas que cantam como se conversassem com o destino.
Anos depois, já no fim da década de noventa, o reencontrei numa boate do Rio. Relembramos João Pessoa, as luzes da Lagoa, os risos, o espelho d’água. Perguntei pela dançarina do limbo. Ele sorriu, olhou para o copo e, em tom baixo, cantarolou:
— Unforgettable, that’s what you are…
Imitação perfeita de Nat King Cole. Nunca respondeu à pergunta.
Quarenta anos depois, uma conferência das Nações Unidas me levou a Trinidad. Durante a recepção, o então primeiro-ministro Patrick Manning e sua esposa, gentis anfitriões, se interessaram por nossas lembranças brasileiras. Ao mencionar a banda de calipso e Marlene, a dançarina do limbo, o casal reagiu com entusiasmo.
Ela era, por coincidência, natural de San Fernando — o distrito eleitoral dele. Prometeram tentar reencontrá-la. Um DJ amigo iniciou a busca, cruzando arquivos, memórias e gravações antigas. Em vão.
A dançarina não existia mais.
Em 2007, Cy Manifold celebrou cinquenta anos de carreira no Teatro Ipanema, ao lado do filho Dover, no espetáculo Uma Viagem no Tempo. E foi exatamente isso que sua música sempre foi — uma viagem no tempo.
Para mim, cada nota ainda ecoa como naquela noite distante, em frente ao Cassino da Lagoa, quando até o vento parou para ouvir.
Port-of-Spain, Trinidad – Tobago 1995
Por Palmarí H. de Lucena