Há lembranças que regressam à nossa consciência não como fotografias, mas como vozes. O tempo pode apagar os rostos, confundir as datas e modificar a fisionomia dos lugares; uma voz, entretanto, pode atravessar décadas e permanecer inteira em nós. Assim me volta a lembrança do Liceu, nos anos de 1950, e da emoção de ouvir a poesia de Jansen Filho.
Não recordo aquele tempo como quem contempla um paraíso perdido. A juventude não foi perfeita apenas porque foi juventude, e o passado não merece indulgência simplesmente porque já não pode defender-se. Mas há experiências que, vistas à distância dos anos, revelam uma importância que não percebíamos quando aconteceram.
Foi assim com o poema.
É possível que eu não compreendesse então toda a sua gravidade. É provável que a força da recitação, a musicalidade dos versos e a presença do poeta me impressionassem antes mesmo que eu pudesse alcançar o sentido mais profundo das palavras. A juventude tem essa forma particular de inteligência: recebe primeiro aquilo que somente mais tarde será capaz de compreender.
E os versos ficaram.
Jovens de agora, cuidado!
Este mundo é um poema errado
Que o desengano compôs!
Nesta vida que caustica,
Há muita Renata rica
Que fica pobre depois!
Hoje, ao relê-los, percebo que não eram versos destinados apenas à juventude daquela época. A advertência atravessa o tempo porque fala de uma condição permanente da existência. O mundo, chamado pelo poeta de “poema errado”, não é o mundo harmonioso que a juventude costuma imaginar quando começa a desenhar os seus projetos. É o mundo corrigido pela experiência, desfeito pelas perdas e continuamente reescrito pelo desengano.
A imagem de Renata é particularmente poderosa. Não importa apenas a personagem ou o nome que a inspira. Renata transforma-se numa figura humana submetida à instabilidade da fortuna. Rica hoje, pobre amanhã; feliz talvez por um instante, vulnerável logo depois àquilo que a vida reserva a todos nós. Há nesses versos uma compreensão quase clássica da condição humana: nada é definitivamente nosso, nem a riqueza, nem a felicidade, nem mesmo as certezas com que começamos a vida.
Quando ouvi esse poema no Liceu, nos anos de 1950, talvez tenha percebido apenas a beleza dos versos. Hoje percebo também o pensamento que eles encerravam. E essa é uma das razões pelas quais a verdadeira poesia não envelhece. Nós envelhecemos, mudamos de opinião, acumulamos perdas e aprendizados; o poema, porém, permanece à nossa espera, oferecendo sentidos que antes não estávamos preparados para receber.
Recordo, então, o jovem que fui.
Recordo o ambiente do Liceu, os companheiros daquele tempo, a expectativa diante da poesia e a voz que fazia os versos chegarem até nós. Não imaginávamos que um dia a distância entre nós e aqueles momentos seria medida em tantas décadas. Não sabíamos que alguns rostos desapareceriam, que tantos caminhos se separariam e que a própria vida haveria de nos ensinar, por experiência direta, o significado do desengano.
Talvez por isso aqueles versos tenham adquirido outra força.
Jovens de agora, cuidado!
A advertência que um dia ouvi como poesia tornou-se, com os anos, uma reflexão sobre a própria existência. Cada geração acredita inaugurar o mundo; cada geração descobre, mais cedo ou mais tarde, que o mundo já estava cheio de promessas e desilusões antes de sua chegada.
Mas seria injusto concluir que Jansen Filho nos deixava apenas uma lição de pessimismo. O desengano, quando elevado pela poesia, não é simples amargura. É uma forma de lucidez. Saber que a riqueza pode desaparecer, que a felicidade não é propriedade permanente e que o mundo nem sempre corresponde aos nossos desejos talvez seja uma maneira mais adulta de viver.
Jansen Filho continua ligado, para mim, àquele momento do Liceu. Sua poesia pertence à literatura, naturalmente, mas pertence também à minha memória. Um poema que se ouve na juventude pode tornar-se parte da própria vida de quem o escutou.
E agora, tantos anos depois, ainda posso ouvir a advertência.
Não como uma voz perdida no passado, mas como uma palavra que continua interrogando o presente.
Porque o tempo passou.
Nós passamos.
Mas o poema ficou.
Palmarí H. de Lucena