A visita de um pastor

A visita de um pastor

As fazendas costumam ser lembradas pelo rumor do vento nas árvores, pelo labor que principia antes do nascer do sol e pela discreta sucessão dos dias. A história, entretanto, ensina que, de quando em quando, até os lugares mais recolhidos recebem visitas que alteram o sentido do tempo. Não porque mudem a paisagem, mas porque iluminem aquilo que sempre esteve ali.

Foi o que aconteceu quando um sucessor dos Apóstolos transpôs o portão de uma fazenda.

À primeira vista, nada havia de extraordinário. Uma casa aberta, uma família à espera, o cumprimento respeitoso, a mesa preparada com esmero. Os olhos apressados talvez registrassem apenas uma cerimônia de hospitalidade. Os mais atentos perceberiam outra coisa: havia ali um encontro entre a simplicidade da vida rural e a longa tradição da Igreja, que atravessa os séculos sem perder o vigor da primeira manhã.

É curioso como a Providência parece preferir os lugares onde o mundo enxerga apenas rotina. As Escrituras, proclamadas naquele dia, recordavam as parábolas de Cristo, nas quais o Reino de Deus se oculta em sementes, fermentos e pequenos gestos. Não deixa de ser significativo que também uma visita episcopal revele sua grandeza sem necessidade de aparato. Os maiores sinais de Deus quase nunca fazem alarde.

Dom Francisco Gabriel caminhava entre os presentes com a serenidade própria de quem conhece o peso e, ao mesmo tempo, a leveza da missão recebida. A sucessão apostólica, tantas vezes compreendida apenas como um dado da história e da teologia, adquiria ali uma forma visível: um pastor sentado à mesa de uma família, repartindo palavras, bênçãos e esperança.

Foi então que um pequeno acontecimento pareceu condensar o espírito daquele encontro. Uma tia levantou-se para ler a mensagem de um sobrinho distante. A ausência, que ordinariamente pesa sobre as reuniões familiares, encontrou voz emprestada. Cada palavra lida fazia supor que a distância, afinal, é menos geográfica do que afetiva. O rapaz não atravessara estradas para chegar à fazenda; atravessara apenas os limites da saudade.

Mas a cena reservava uma ironia delicada, dessas que talvez agradassem aos antigos cronistas. Enquanto uma carta, forma tão antiga de comunicação, era lida em voz alta, outra invenção, filha da mais recente modernidade, cumpria silenciosamente o seu papel. A celebração era transmitida ao vivo, permitindo que familiares e amigos, espalhados por diferentes lugares, acompanhassem cada instante daquele dia.

Há quem veja na tecnologia uma força destinada apenas a distrair os homens ou a isolá-los em pequenas solidões luminosas. Contudo, ela não possui vontade própria; torna-se aquilo que o coração humano decide fazer dela. Naquela tarde, os fios invisíveis que percorrem o mundo serviram não para multiplicar ruídos, mas para transportar a Palavra de Deus. A mesma rede que tantas vezes difunde o efêmero fazia circular o eterno. O progresso, tão frequentemente acusado de enfraquecer os vínculos humanos, oferecia-se, naquele momento, como discreto servidor da comunhão.

Talvez alguém perguntasse por que uma visita assim desperta tamanha emoção. A resposta não estaria apenas no visitante, nem somente na casa que o acolhia. Estaria naquilo que ambos representavam. De um lado, a Igreja que continua enviando seus pastores; de outro, um lar disposto a abrir as portas não apenas por educação, mas por fé. Quando essas duas realidades se encontram, acontece algo que escapa às estatísticas e pertence exclusivamente ao domínio da graça.

Há quem procure Deus nos acontecimentos extraordinários, como se o céu tivesse obrigação de anunciar-se por clarins. No entanto, é possível que Ele prefira chegar por um caminho de terra, atravessar um terreiro silencioso e sentar-se à sombra de uma varanda. A Providência, ao contrário dos homens, nunca demonstrou apreço pelo espetáculo. Antes, parece encontrar especial prazer em revelar-se onde a simplicidade permanece intacta.

Também não passou despercebida a presença discreta daquela que sempre conduz os olhares para o Filho. Nossa Senhora parecia repetir, sem palavras, o gesto de Caná: permanecer em segundo plano para que Cristo ocupasse o centro. Talvez seja esse o segredo das grandes intervenções divinas: quanto mais profundas, menos ruidosas.

Quando a visita terminou, nada parecia diferente aos olhos de um viajante ocasional. A casa continuava a mesma; os caminhos, igualmente cobertos de poeira; os campos, entregues ao seu costumeiro silêncio. Mas há mudanças que não pertencem às coisas visíveis. Permanecem na memória dos que viveram o acontecimento e, sobretudo, na certeza de que Deus continua visitando os lares por meio daqueles que chamou para apascentar o seu povo.

Talvez seja por isso que certas datas resistam ao esquecimento. Não porque tenham sido grandiosas aos olhos do mundo, mas porque revelaram, por algumas horas, que a eternidade sabe encontrar morada na singeleza de uma fazenda. E, naquele dia, a tradição apostólica caminhou de mãos dadas com a hospitalidade do campo; a antiga voz da Igreja encontrou abrigo sob um telhado de fazenda; e a moderna tecnologia, tão frequentemente acusada de dispersar os homens, prestou um silencioso serviço ao Evangelho, levando a mesma bênção aos que estavam longe, como se a distância, por um instante, tivesse deixado de existir.

Palmarí H. de Lucena