A Trégua Manipulada: Quando a Paz se Torna Pretexto

A Trégua Manipulada: Quando a Paz se Torna Pretexto

A trégua em Gaza, celebrada como gesto de reconciliação, soa mais como uma manobra política do que um avanço real rumo à paz. Num cenário saturado de sofrimento civil e destruição, a diplomacia foi improvisada — conduzida à sombra de câmeras e interesses privados, onde familiares e aliados políticos de Donald Trump assumem papéis de mediadores sem qualquer mandato oficial. O resultado é uma trégua com aparência de vitória diplomática, mas sustentada sobre o silêncio das vítimas e a erosão do direito internacional.

Sob o pretexto de “salvar vidas” e “restabelecer estabilidade”, a iniciativa também funcionou como respiro político para Benjamin Netanyahu, pressionado por denúncias de violações humanitárias. Mas uma trégua que ignora as normas internacionais corre o risco de perpetuar o que deveria encerrar: a ocupação e a violência.

Desde 1979, o Conselho de Segurança da ONU vem reiterando — nas resoluções 446, 452, 476, 478 e, mais recentemente, 2334 (2016) — que os assentamentos israelenses em território palestino ocupado “não têm validade legal” e constituem violação grave da Quarta Convenção de Genebra. Mesmo assim, continuam a expandir-se. A ONU denuncia o aumento da violência de colonos armados e a destruição sistemática de lares palestinos — um processo de deslocamento silencioso, travestido de segurança.

Em 2024, a Corte Internacional de Justiça (ICJ) foi categórica: a ocupação prolongada e a anexação de fato dos territórios palestinos são ilegais. Determinou ainda que nenhum Estado pode reconhecer ou apoiar a situação criada por essa ocupação. Apesar disso, o fornecimento contínuo de armamentos — inclusive de fabricação norte-americana — contribui para ataques contra escolas, hospitais e abrigos, configurando possíveis crimes de guerra. A cada veto americano no Conselho de Segurança, morre um pouco da ideia de justiça universal.

A recente trégua omitiu o essencial: nenhuma palavra sobre retirada de assentamentos, restituição de terras ou autodeterminação. Preferiu-se negociar uma paz parcial, conveniente, que alivia tensões diplomáticas e preserva o status quo. Mas a paz verdadeira não se constrói com drones sobrevoando ruínas, nem com pombas voando entre escombros.

Enquanto a legalidade internacional for tratada como obstáculo — e não como fundamento — Gaza continuará sendo o espelho partido da hipocrisia diplomática: um território onde se negocia a paz com as mãos manchadas de pólvora.

Por Palmarí H. de Lucena