Certas instituições envelhecem sem perceber que envelheceram.
Renovam-se os estatutos, informatizam-se os procedimentos, multiplicam-se as palavras de ordem: transparência, participação, ética, modernização. As palavras chegam novas. Os hábitos, nem sempre. Alguns sobrevivem às reformas com a discrição das coisas que aprenderam a não chamar atenção.
O patrimonialismo talvez seja um desses hábitos.
Não costuma anunciar o próprio nome. Seria grosseiro demais. Prefere os gestos pequenos, quase sempre justificáveis: uma confiança antiga, um convite reservado, uma informação que circula entre os conhecidos antes de alcançar os demais. Um nome é lembrado porque já estava próximo; outro desaparece porque ninguém teve razões para lembrá-lo.
É assim que aquilo que pertence a todos começa, lentamente, a pertencer mais a alguns.
Quem recebe uma função pública ou coletiva deveria saber que está apenas de passagem. Mas o exercício prolongado de uma responsabilidade pode produzir uma curiosa ilusão de permanência. Administrar começa a parecer possuir; representar passa a autorizar preferências; o que é comum se torna, pouco a pouco, familiar demais.
Então os íntimos aparecem.
Não há nada de suspeito, por si só, na amizade ou no parentesco. Amigos podem ser competentes. Parentes podem ser excelentes servidores. O problema começa quando a proximidade deixa de ser uma circunstância e se transforma em vantagem. Quando o vínculo pessoal pesa mais do que o processo e a intimidade valem mais do que a possibilidade aberta de demonstrar competência.
As instituições raramente se confessam excludentes. A exclusão mais eficiente dispensa declarações.
Alguns sabem antes. Outros descobrem tarde. A concorrência não é proibida; apenas se torna inconveniente.
E toda competição verdadeira possui uma qualidade desconfortável: ela traz consigo a possibilidade do inesperado. Um desconhecido pode ser mais preparado. Alguém de fora pode ter uma ideia melhor. O melhor, afinal, pode não ser aquele que já estava previsto.
Talvez por isso seja tão frequente a preferência por uma disputa reduzida. Não é necessário impedir formalmente ninguém de concorrer. Basta tornar a participação mais difícil para quem não pertence aos círculos já estabelecidos. Ao final, tudo pode estar perfeitamente correto.
E, ainda assim, alguma coisa terá faltado.
Essa falta raramente aparece em ata. Nenhum documento informa quantas pessoas desistiram antes de tentar. Nenhuma urna recolhe os votos daqueles que nunca chegaram à disputa.
É nesse ponto que a confiança na pureza dos procedimentos pode se tornar uma espécie de inocência.
Pode-se construir uma votação impecável, cercá-la de regras e garantias, contar cada voto com absoluto rigor. Tudo isso é necessário. Mas existe uma parte da história que a urna não alcança.
A urna é justa apenas com aquilo que chega até ela.
Se a competição foi estreitada antes, se as oportunidades circularam entre os mesmos grupos, se possíveis concorrentes foram desencorajados para preservar uma ordem acomodada, a correção da contagem não basta para tornar justo o processo inteiro.
Nem sempre é preciso tocar no resultado para influenciá-lo.
Às vezes, basta cuidar do começo.
A democracia não nasce no instante em que alguém vota. Ela começa antes: na informação que alcança todos, na oportunidade que não depende de um sobrenome, na regra que não muda conforme quem se apresenta.
Começa quando ninguém precisa conhecer alguém para participar.
Enquanto uma amizade funcionar como atalho e um parentesco como proteção, alguma coisa ainda estará privada dentro do espaço público. E, quando uma comunidade se acostuma a isso, o favor passa a parecer mais útil do que o direito.
Talvez essa seja a maior habilidade do patrimonialismo: não destruir as instituições, mas habituá-las a pequenas deformações. Substituir o princípio pela confiança pessoal, o critério pelo costume, o direito pelo favor. Fazer com que o privilégio pareça gentileza e a exclusão, simples circunstância.
As pessoas passam. Passam dirigentes, conselheiros, voluntários, alianças e inimizades. O que permanece deveria ser maior do que aqueles que, por algum tempo, o administram.
Uma instituição talvez se pareça mais com um rio do que com uma propriedade. Ninguém possui a corrente que atravessa um tempo maior do que a própria vida. Pode-se cuidar de suas margens ou contaminá-las; respeitar seu curso ou tentar desviá-lo em benefício próprio.
Mas a água não pertence à mão que a toca.
O poder passa pelas mãos.
A coisa comum deve continuar correndo.
Palmarí H. de Lucena