A chamada Madman Theory, associada ao presidente americano Richard Nixon, consistia em parecer imprevisível para intimidar adversários e arrancar concessões diplomáticas. Não era descontrole real, mas encenação estratégica. Um teatro político cuidadosamente ensaiado para produzir medo e, com isso, negociação. Décadas depois, Donald Trump e Jair Bolsonaro reapresentaram a lógica sob outra forma: não como expediente ocasional, mas como identidade política permanente.
Nixon usava a imprevisibilidade como instrumento cirúrgico de política externa. Trump e Bolsonaro a transformaram em estilo cotidiano de governo. Onde o americano da Guerra Fria escondia seu blefe nos bastidores da diplomacia, seus dois herdeiros ideológicos operaram diante das câmeras, nas redes sociais, em lives e discursos improvisados. A política virou espetáculo. A instabilidade, linguagem oficial.
Trump converteu a “teoria do louco” em performance midiática. Suas ameaças comerciais, seus ataques a chefes de Estado aliados e suas decisões abruptas não eram apenas parte de uma estratégia diplomática, mas sobretudo produção de choque interno. Escandalizar virou método de mobilização. Maior do que governar, passou a ser dominar o ciclo de notícias.
Bolsonaro, em versão tropical, usou lógica semelhante. O susto virou ferramenta de agenda. A crise permanente manteve sua base mobilizada e seus adversários em constante reação. A instabilidade não era acidente. Era combustível político.
Há, no entanto, diferenças importantes entre os três. Nixon simulava loucura com controle absoluto dos bastidores. Trump e Bolsonaro frequentemente pareceram perder o controle do próprio enredo. Nixon sabia quando parar o espetáculo. Trump e Bolsonaro raramente desligavam a câmera.
Outra distinção crucial está no alvo. Nixon queria assustar o mundo. Trump quis assustar aliados e inimigos ao mesmo tempo. Bolsonaro escolheu tensionar as próprias instituições. A Madman Theory original era externa; suas versões modernas tornaram-se domésticas.
Trump tratou imprensa, Justiça e Congresso como obstáculos permanentes. Bolsonaro flertou repetidamente com o descrédito institucional. Ambos tensionaram o pacto democrático não como desvio, mas como estilo. A imprevisibilidade passou a minar a confiança onde antes havia estabilidade.
O resultado foi semelhante nos dois países: polarização extrema, exaustão cívica e degradação do debate público. O adversário deixou de ser opositor e passou a ser inimigo. A divergência tornou-se suspeita. O contraditório virou ataque pessoal.
Nixon praticava teatro com roteiro. Trump e Bolsonaro improvisaram diante do público. Um representava o “insano estratégico”. Os outros passaram a representar a si mesmos.
A pedagogia do caos se espalhou. Uma nova geração de políticos passou a acreditar que gritar é governar, atacar é liderar e provocar é administrar. A política virou arena emocional. Dados perderam para slogans. Instituições perderam para personalismos.
A Madman Theory, em sua versão original, envolvia cálculo racional. Em suas versões contemporâneas, virou culto ao descontrole. Quando o imprevisível deixa de ser tática e se torna identidade, o Estado perde racionalidade.
No final, o efeito é o mesmo: governos instáveis produzem sociedades instáveis. Instituições frágeis geram lideranças cada vez mais radicais. A política vira refém do espetáculo.
Nixon usou a loucura como máscara. Trump e Bolsonaro fizeram dela personagem principal.
Mas personagens não governam países.
Governam crises.
Por Palmarí H. de Lucena