A Tentação de Dobrar o Mundo: Quando a Justiça Vira Alvo e a Soberania um Obstáculo

A Tentação de Dobrar o Mundo: Quando a Justiça Vira Alvo e a Soberania um Obstáculo

Há algo de podre no novo teatro das relações internacionais: não se trata mais apenas de interesses geopolíticos ou disputas comerciais legítimas, mas de uma tentativa, cada vez mais explícita, de dobrar países soberanos pela chantagem e pelo grito. O recente episódio envolvendo Donald Trump e o julgamento de Jair Bolsonaro no Brasil escancara essa lógica perversa.

Trump, que já havia interferido ruidosamente no julgamento de Benjamin Netanyahu em Israel — e viu, de imediato, as audiências serem suspensas — agora volta sua retórica ameaçadora contra o Brasil. Insatisfeito com o processo judicial que investiga Bolsonaro por tentativa de golpe após as eleições de 2022, o ex-presidente americano lançou mão de uma ameaça tão desproporcional quanto indecorosa: impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros caso o julgamento não seja interrompido. Não há sutileza. É pura chantagem.

Essa postura revela um traço perigoso e recorrente do trumpismo: a imprevisibilidade combinada com arrogância. Trata-se de um modelo de liderança que ignora tratados, despreza instituições e rebaixa a diplomacia ao nível da barganha pessoal. Não há lugar para o diálogo construtivo — apenas a imposição, a ameaça e o cálculo eleitoral.

A resposta do presidente Lula foi dura e necessária: lembrou que o Brasil dispõe de instrumentos legais para reagir a ataques econômicos unilaterais e que a soberania nacional não se negocia, nem se intimida. E fez mais: reposicionou o Brasil como país que, apesar de suas turbulências internas, não aceita ser tratado como colônia ou extensão ideológica de potências em crise de identidade.

O episódio teve efeito colateral inesperado: mesmo adversários de Lula se viram obrigados a defender a autonomia das instituições brasileiras diante da tentativa de intromissão externa. Como resultado, o presidente brasileiro conseguiu reverter parte de sua baixa popularidade e unificar setores antes dispersos em torno de um valor comum: o respeito à ordem constitucional.

Mas o problema é mais amplo. Quando uma potência como os Estados Unidos permite que seu ex-presidente atue como sabotador da justiça em países aliados — não por convicção democrática, mas por conveniência ideológica —, ela mina os próprios alicerces da cooperação internacional. Como alertam estudiosos de relações exteriores, esse tipo de atitude inflaciona o chamado “risco América”, ou seja, torna instável qualquer parceria baseada em previsibilidade e confiança.

A lição que fica é clara: o trumpismo, mais do que um estilo político, representa um perigo real e presente para o convívio civilizado entre nações. Sua lógica de imposição ameaça deslegitimar instituições, solapar acordos históricos e colocar a força bruta acima do direito. Se deixarmos essa doutrina se consolidar como norma, abriremos caminho para um mundo menos justo, menos seguro e mais volátil — onde os mais fortes gritam e os demais se calam.

O Brasil, neste caso, fez bem em não se calar. Que sirva de exemplo — e de alerta.