Em julho deste ano, o The New York Times publicou um obituário de Garrincha. A notícia seria banal, não fosse um detalhe: Garrincha morreu em 1983.
O texto faz parte da série Overlooked No More, criada para reparar omissões históricas do jornal. Ao reconhecer que ignorou, durante décadas, personagens de enorme relevância, a publicação presta um serviço raro em tempos de infalibilidade proclamada. Admitir um erro de memória talvez seja uma das formas mais honestas de fazer jornalismo.
Mas a história não termina aí.
O atraso do jornal americano acabou revelando um constrangimento brasileiro. Bastou que um dos maiores diários do mundo voltasse os olhos para Garrincha para que nós também voltássemos a falar dele. Durante alguns dias, reapareceram vídeos de seus dribles, reportagens sobre sua trajetória e comentários sobre o jogador que muitos consideram o maior ponta-direita da história do futebol.
A pergunta inevitável não é por que o The New York Times demorou quarenta e três anos para publicar esse obituário. A pergunta é outra: por que precisamos que alguém de fora nos lembre da dimensão dos nossos próprios personagens?
A memória de um país não se organiza sozinha. Ela resulta de escolhas. Museus escolhem o que expor. Escolas escolhem o que ensinar. Jornais escolhem o que registrar. Arquivos, longe de serem depósitos neutros, refletem prioridades, valores e também pontos cegos. O esquecimento quase nunca é obra do acaso.
Foi justamente isso que o jornal americano reconheceu ao criar a série Overlooked No More. Durante décadas, seus obituários privilegiaram determinadas trajetórias e deixaram outras à margem. Ao revisitar seus arquivos, o The New York Times não reescreve a história; apenas admite que ela foi contada de maneira incompleta.
Esse gesto oferece ao Brasil um espelho incômodo.
Garrincha ocupa um lugar singular na cultura brasileira. Não apenas pelos títulos conquistados ou pelos dribles que desafiaram a lógica, mas porque simbolizou um modo de jogar que parecia sintetizar a criatividade, a improvisação e a irreverência que gostamos de associar à nossa identidade. Em 1962, com Pelé lesionado, foi ele quem conduziu a seleção ao bicampeonato mundial, em uma das maiores atuações individuais já vistas em uma Copa do Mundo.
Mesmo assim, sua lembrança foi se tornando episódica. Surge em aniversários, listas dos maiores jogadores ou documentários esportivos. Raramente aparece como parte de uma conversa mais ampla sobre cultura, sociedade ou memória nacional.
Há uma explicação confortável para isso: o tempo passa, novas gerações surgem, outros ídolos ocupam o espaço. Tudo isso é verdade. Mas não explica completamente o fenômeno. Países que cultivam sua memória não mantêm vivos apenas seus vencedores; preservam também as narrativas que ajudam a compreender quem são.
Talvez seja esse o ponto mais relevante do episódio.
O The New York Times publicou um obituário atrasado porque decidiu revisar os próprios critérios editoriais. Nós continuamos, muitas vezes, esperando que o reconhecimento venha de fora para recuperar personagens que jamais deveriam ter saído do centro da nossa história. Não acontece apenas no esporte. O mesmo movimento pode ser observado na literatura, nas artes, na ciência e até na política. A legitimação externa ainda exerce, entre nós, um fascínio desproporcional.
Não há motivo para transformar o gesto do jornal americano em motivo de ufanismo ou ressentimento. Ele fez o que uma boa instituição faz: reconheceu uma falha e procurou corrigi-la.
A questão que permanece é outra.
Quem se responsabiliza pela memória brasileira?
Essa tarefa não pertence apenas aos jornais, às universidades ou aos museus. Pertence também à sociedade, que escolhe quais histórias continua contando às novas gerações. Um país não perde sua identidade de uma vez. Ela se desgasta lentamente, quando personagens fundamentais deixam de ser referências e passam a ser apenas nomes conhecidos.
Garrincha não precisava de um novo obituário.
O Brasil, talvez, precisasse.
Palmarí H. de Lucena