Nos fiordes da memória
erguem-se três ventos —
Estônia, Letônia, Lituânia —
filhas do frio e da coragem,
nascidas sob o signo da aurora
e do aço que corta o silêncio.
Do leste vem o rugido,
um trovão de aço e sombra.
Chamam-no Moscou,
senhor das chamas e das neves,
que testa os deuses do Ocidente
com lanças invisíveis,
com aves de ferro rasgando o ar,
com vozes mentirosas sussurrando nas redes.
As três terras, pequenas no mapa,
grandes na lembrança dos mortos,
ergueram muralhas de pedra e código,
pois sabem que a guerra não chega apenas
com tanques ou relâmpagos —
mas também com o sopro do engano,
com o veneno que adormece as almas.
Erguem-se torres de fogo digital,
linhas de defesa cavadas no gelo.
Homens e mulheres marcham em uníssono:
não por glória,
mas por dever antigo —
proteger o chão onde o vento fala em língua livre.
Ao sul, a brecha de Suwalki
é uma cicatriz na terra.
Os bardos a chamam de garganta da dúvida:
estreita, frágil,
por onde passará o destino das nações
se o dragão oriental cruzar o limiar.
Mas o Oeste jurou:
um ataque a um é ataque a todos.
E sob esse juramento,
os filhos de Riga, Vilnius e Tallinn
erguem suas espadas e servidores,
suas canções e promessas,
sabendo que o silêncio
é o primeiro inimigo da liberdade.
Os velhos cantam junto aos jovens:
— “Defenderemos cada palmo de terra,
cada byte de verdade,
cada chama que o frio tenta apagar.” —
E ao longe,
no espelho das águas geladas,
reflete-se Kiev — irmã ferida,
mas ainda de pé,
com o mesmo olhar de quem enfrentou impérios
e jamais se ajoelhou.
Os três ventos do norte sopram,
e sua canção ecoa pelas planícies:
não há paz sem vigília,
nem liberdade sem lembrança.
E assim termina o cântico:
quando as fronteiras forem apenas ecos,
e os povos se chamarem irmãos,
o gelo se abrirá
— não em guerra,
mas em luz.
Por Palmarí H. de Lucena