Há riquezas que se veem de longe. Outras passam despercebidas porque estão escondidas debaixo da terra. Durante muito tempo, o Brasil aprendeu a reconhecer seu valor quando elas já estavam sendo retiradas, embarcadas e transformadas em produtos mais sofisticados em outros lugares. A nova corrida pelos minerais essenciais à economia do futuro oferece ao país uma oportunidade de fazer diferente — mas também o risco de repetir uma velha história com uma nova roupagem.
Terras raras, lítio, grafite, níquel, cobre e outros minerais estão presentes em produtos que já fazem parte da nossa vida e em tecnologias que ganharão cada vez mais espaço: carros elétricos, baterias, turbinas de energia, celulares, computadores, equipamentos médicos e sistemas de defesa. Quem controla essas riquezas e sabe transformá-las em produtos de maior valor não controla apenas minas. Ganha também indústria, conhecimento e influência.
É aí que o Brasil entra numa disputa que vai muito além da mineração. Temos recursos que o mundo precisa, energia, mercado e relações com diferentes países. Temos, portanto, poder de negociação. Mas há uma escolha diante de nós: “continuar exportando o que está debaixo da terra ou começar a produzir, aqui, o que o mundo quer comprar?”
A diferença está no que acontece depois que o minério sai da mina. Retirar a riqueza do solo é apenas o começo. O valor aumenta quando ela é separada, refinada, transformada e incorporada a produtos. É nesse caminho que surgem empregos mais qualificados, empresas, conhecimento e novas tecnologias. Um país que vende apenas a matéria-prima participa da cadeia. Um país que aprende a transformá-la começa a ter voz sobre os rumos dela.
A experiência brasileira com as commodities deveria servir de alerta. Já fizemos isso com diferentes produtos ao longo da nossa história. Exportamos riquezas importantes e, muitas vezes, compramos de volta bens que incorporam mais tecnologia e valor. Não há nada de errado em vender recursos naturais. O problema aparece quando essa continua sendo, quase sempre, a parte mais importante da nossa participação na cadeia produtiva.
É justamente nesse ponto que a nova disputa pelos minerais considerados estratégicos ganha dimensão internacional. A China construiu uma posição muito forte em partes importantes desse mercado, especialmente nas etapas de transformação. Outras grandes economias passaram a procurar fornecedores alternativos e a reduzir riscos de dependência. A corrida, portanto, não é apenas pelas minas. É também por contratos, investimentos, tecnologia, mercados e influência.
Os Estados Unidos estão no centro desse movimento. Para Washington, minerais críticos deixaram de ser apenas uma questão comercial e passaram a ser tratados também como assunto de segurança econômica e estratégica. A busca por fornecedores confiáveis e por cadeias menos dependentes da China abre oportunidades para países como o Brasil, mas também impõe uma questão que não pode ser ignorada: até que ponto uma parceria econômica pode se transformar em dependência estratégica?
Cooperar com os Estados Unidos não é o problema. O problema seria permitir que uma estratégia desenhada para atender às necessidades norte-americanas acabasse, sem uma reflexão própria, se tornando a política mineral brasileira ou mais um instrumento de influência sobre a América Latina. Os interesses de Washington são legítimos do ponto de vista de sua própria estratégia. Os interesses brasileiros também precisam ser. Cabe ao Brasil decidir onde quer processar seus minerais, quanto valor pretende acrescentar, que tecnologias deseja desenvolver e com quais parceiros pretende trabalhar. É nesse espaço entre interesses diferentes que a diplomacia brasileira precisa preservar sua liberdade de ação.
O caso da Serra Verde ajuda a entender a dimensão desse desafio. A presença de empresas estrangeiras e a construção de cadeias que conectam Brasil, Estados Unidos e outros países não significam, por si só, que haja algo errado. Investimentos, tecnologia e acesso a mercados podem ser importantes para desenvolver um setor complexo. A questão é outra: saber se esses acordos ajudam a criar uma indústria mais forte dentro do Brasil ou se apenas colocam nossos recursos em uma cadeia cujo maior valor continuará sendo produzido em outros lugares.
Essa diferença será decisiva. Seria irônico descobrir que, depois de séculos exportando produtos primários, o Brasil entrou na economia do futuro apenas para continuar fazendo o mesmo — agora com minerais que alimentam carros elétricos, computadores, turbinas e tecnologias avançadas. Seria “a velha história com uma embalagem tecnológica”.
O caminho não passa por fechar as portas ao capital estrangeiro nem por trocar uma dependência por outra. O Brasil precisa de parceiros, investimentos e mercados. Estados Unidos, China, Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia e outros países têm interesses que podem ser combinados com os nossos. Quanto mais diversificados forem os parceiros, maior será a capacidade brasileira de negociar. E quanto maior a capacidade industrial construída no país, maior será também a liberdade para escolher.
Porque diplomacia sem indústria tem alcance limitado.
É por isso que uma política para minerais estratégicos precisa estabelecer objetivos concretos. Não basta aumentar a produção. É preciso definir quais etapas o Brasil quer dominar e em quanto tempo. Beneficiamento, separação e refino precisam ganhar escala no país. É necessário desenvolver a produção de materiais derivados das terras raras, ampliar a fabricação de componentes para baterias e, quando houver viabilidade econômica, avançar para produtos de maior valor, como os ímãs usados em motores elétricos e equipamentos de alta tecnologia.
Isso exige também gente preparada. Engenheiros, pesquisadores, técnicos e trabalhadores qualificados não aparecem por decreto. É preciso investir em universidades, institutos de pesquisa, formação profissional e empresas capazes de transformar conhecimento em produtos. Da mesma forma, investimentos públicos e privados precisam estar ligados a resultados: pesquisa, inovação, transferência de tecnologia e criação de capacidade produtiva no Brasil.
Não significa obrigar toda mina a produzir, dentro do país, tudo o que dela possa resultar. Seria pouco realista. Significa estabelecer prioridades e negociar a participação brasileira nas etapas que realmente fazem diferença. Em projetos estratégicos, transferência de tecnologia, formação de profissionais, pesquisa e desenvolvimento e algum grau de transformação local podem ser tão importantes quanto o volume exportado.
O objetivo é simples: não apenas retirar mais minério, mas fazer com que uma parcela cada vez maior do conhecimento e do valor gerados por ele permaneça no Brasil.
Há ainda uma questão que não pode ficar em segundo plano: o meio ambiente. Boa parte das riquezas minerais está em regiões ambientalmente sensíveis. A urgência econômica não pode servir de desculpa para enfraquecer regras, assim como a preocupação ambiental não pode significar que nenhum recurso possa ser aproveitado. O desafio é encontrar um equilíbrio responsável, com fiscalização, ciência, tecnologia, recuperação das áreas afetadas e compromisso das empresas. Desenvolvimento e preservação não precisam ser inimigos, mas ambos exigem Estado presente e responsabilidade.
No fundo, a disputa pelos minerais estratégicos é também uma disputa sobre o lugar que o Brasil pretende ocupar no mundo. Podemos continuar sendo importantes porque temos aquilo que os outros precisam ou podemos usar essa riqueza para construir aquilo de que nós mesmos precisamos: indústria, tecnologia, conhecimento e capacidade de negociação.
O mundo precisa dos minerais brasileiros, e essa demanda dá ao país uma margem de negociação que não deveria ser desperdiçada. As grandes potências já sabem o que procuram. Cabe ao Brasil decidir o que quer fazer com aquilo que tem.
Isso exige metas, prazos e cobrança de resultados: mais beneficiamento e refino no país, pesquisa e inovação, formação de profissionais, desenvolvimento de materiais e componentes de maior valor e parcerias que tragam tecnologia e capacidade produtiva, não apenas capital para retirar e exportar minério.
A questão não é escolher entre Washington, Pequim ou qualquer outro centro de poder. É ter força para negociar com todos sem deixar que nenhum deles defina nossas prioridades. E essa força não nasce apenas da diplomacia. Nasce de fábricas, laboratórios, engenheiros, empresas competitivas e domínio tecnológico.
A riqueza está debaixo dos nossos pés. O que está em jogo é quem terá o poder de transformá-la em riqueza, tecnologia e influência. Se o Brasil continuar exportando o minério e importando o conhecimento, a nova corrida mineral será apenas mais um capítulo da velha dependência. Se transformar seus recursos em indústria e tecnologia, poderá convertê-los em soberania.
Ter o minério é uma vantagem. Saber o que fazer com ele é poder.
Palmarí H. de Lucena