Há uma fazenda, em algum lugar entre a indignação e o hábito, onde os animais aprenderam a reconhecer uns aos outros pelo modo como se tratam. Uns chamam os outros de gado; os outros respondem chamando os primeiros de jumentos. A discussão é antiga, mas ganhou uma intensidade curiosa nos últimos tempos, como se a principal tarefa dos moradores da fazenda tivesse deixado de ser cuidar dela para se transformar em descobrir quem é o culpado por ela não funcionar como deveria. Enquanto isso, o milho continua precisando ser plantado, o celeiro continua precisando de reparos, a estrada continua esburacada e os bebedouros continuam esperando manutenção. A vida, porém, parece ter adquirido importância secundária diante da necessidade de vencer a discussão.
A comparação com George Orwell é inevitável, embora deva ser feita com alguma cautela. Em A Revolução dos Bichos, os animais se rebelam contra uma ordem que consideram injusta e imaginam que a mudança de seus governantes produzirá uma sociedade mais livre e igualitária. O que descobrem, entretanto, é que a derrubada de uma estrutura de poder não impede que outra surja em seu lugar. A história não é apenas sobre uma revolução, mas sobre a dificuldade de impedir que aqueles que conquistam o poder sejam seduzidos pelas mesmas vantagens que antes condenavam.
A experiência brasileira não reproduz a narrativa de Orwell, e seria exagerado tratar a literatura como uma espécie de manual para explicar o país. Ainda assim, a metáfora ajuda a observar uma característica recorrente de nossa vida política: a esperança de que a simples substituição de governantes seja suficiente para resolver problemas que são muito mais antigos e complexos. A cada eleição, uma parte da sociedade acredita estar diante da oportunidade de corrigir tudo de uma vez, enquanto outra parte teme que aquela mesma mudança represente o começo de um desastre. Entre uma expectativa e outra, o debate público vai ficando cada vez mais emocional, e os problemas concretos acabam disputando espaço com uma sucessão interminável de acusações.
Nesse ambiente, a política deixa de ser apenas uma disputa entre propostas e passa a funcionar como uma disputa entre identidades. Para alguns, o adversário representa uma ameaça à democracia, às instituições ou às liberdades. Para outros, representa uma ameaça à economia, à segurança, aos costumes ou à própria ideia de país. Em ambos os casos, existe o risco de transformar uma divergência política em uma espécie de julgamento moral permanente, no qual o outro lado deixa de ser apenas um adversário com ideias diferentes e passa a ser considerado incapaz de possuir qualquer boa intenção. Quando isso acontece, torna-se muito difícil reconhecer um acerto do outro lado sem que isso seja interpretado como uma deserção.
A consequência é uma curiosa inversão de prioridades. O cidadão pode estar preocupado com inflação, emprego, segurança, saúde, educação, impostos ou qualidade dos serviços públicos, mas encontra no debate político uma sucessão de assuntos que parecem exigir uma reação imediata, embora nem sempre tenham relação direta com sua vida cotidiana. Uma declaração de um político pode provocar milhares de comentários; uma decisão administrativa importante pode passar quase despercebida. Um escândalo envolvendo o adversário é tratado como prova de uma característica de todo o grupo, enquanto um escândalo envolvendo aliados recebe explicações, ressalvas e circunstâncias atenuantes. O problema não é exclusivo de uma corrente política. É uma fraqueza humana que a política sabe utilizar muito bem.
Talvez seja por isso que a polarização seja tão eficiente. Ela simplifica um mundo complicado. Em vez de acompanhar políticas públicas, resultados, números e consequências, o cidadão recebe uma narrativa mais fácil: existem os bons e existem os maus, e a função de cada grupo é impedir que o outro vença. A lógica produz pertencimento, mas cobra um preço alto. Quando a política passa a ser tratada como uma guerra permanente, qualquer concessão parece fraqueza, qualquer crítica interna parece traição e qualquer reconhecimento de mérito do adversário parece uma ameaça à própria identidade.
A história política, entretanto, costuma ser menos organizada do que as torcidas gostariam. Governos acertam em algumas áreas e erram em outras. Instituições podem cometer erros e, ainda assim, continuar sendo necessárias. Políticos podem defender uma boa medida por razões discutíveis, e adversários podem rejeitá-la por razões legítimas. Uma mesma decisão pode beneficiar algumas pessoas e prejudicar outras. A realidade raramente oferece o conforto de uma explicação única, e talvez seja justamente essa complexidade que torne a política democrática tão difícil.
É nesse ponto que a lição de Orwell continua sendo útil. O problema não está simplesmente em saber quem ocupará o poder, mas em compreender que todo poder precisa de limites, fiscalização e responsabilidade, independentemente de quem esteja exercendo-o. Uma sociedade que exige transparência apenas dos adversários e tolera abusos quando praticados pelos aliados não está defendendo princípios; está defendendo posições. Da mesma forma, quem acredita que suas próprias intenções são suficientes para justificar qualquer método corre o risco de descobrir tarde demais que boas intenções não constituem uma garantia contra maus resultados.
Talvez a verdadeira “revolução dos bichos” brasileira não precise acontecer nas ruas, nem depender de uma ruptura extraordinária. Ela poderia começar de maneira bem menos dramática, quando o cidadão deixasse de avaliar a política exclusivamente pela pergunta “quem venceu?” e passasse a perguntar “o que foi feito, qual foi o resultado e quem pagou a conta?”. Essa mudança parece pequena, mas altera completamente a relação entre eleitor e poder. Obriga governos a apresentar resultados, oposição a oferecer alternativas e cidadãos a abandonar a confortável posição de torcedores.
No fundo, a fazenda não precisa de animais mais ferozes. Precisa de animais mais atentos. Precisa de cidadãos capazes de desconfiar do poder quando ele está nas mãos dos adversários, mas também quando está nas mãos daqueles em quem confiam. Precisa de pessoas que consigam criticar sem odiar, discordar sem desumanizar e reconhecer um acerto sem sentir que abandonaram suas próprias convicções. Isso não elimina a disputa política, e talvez nem deva eliminá-la. Uma democracia saudável precisa de conflito; o que não precisa é transformar todo conflito em guerra.
Enquanto os animais continuarem chamando uns aos outros de gado e jumentos, a fazenda provavelmente continuará dividida entre aqueles que acreditam estar salvando o país e aqueles que acreditam estar impedindo que ele seja destruído. Talvez ambos tenham razões para suas preocupações. O que nenhum dos dois deveria esquecer é que, depois de cada eleição, depois de cada mudança de governo e depois de cada grande promessa de renovação, a fazenda continua pertencendo aos seus habitantes. E são eles, no fim das contas, que terão de viver com as consequências das escolhas feitas em seu nome.
Talvez seja essa a parte mais importante da história de Orwell: não basta trocar quem segura a chave do celeiro. É preciso continuar perguntando o que essa pessoa pretende fazer com ela, quais limites aceitará e quem terá coragem de fiscalizá-la quando a chave estiver finalmente em suas mãos. A democracia não se protege escolhendo eternamente o animal certo para governar a fazenda. Protege-se construindo uma fazenda na qual nenhum animal, por mais popular, virtuoso ou bem-intencionado que pareça, seja considerado dono dela.
Palmarí H. de Lucena