A retórica da empatia e o silêncio das ruínas

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A retórica da empatia e o silêncio das ruínas

Na sede da Organização das Nações Unidas, em Nova York, a primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump, presidiu uma sessão do Conselho de Segurança e defendeu um princípio aparentemente irrefutável: “paz por meio da educação”. Em sua fala, evocou valores universais — empatia, tolerância e respeito à dignidade humana — como fundamentos indispensáveis para sociedades pacíficas.

A mensagem, em si, é irrepreensível. Poucos discordariam de que a educação constitui um dos caminhos mais seguros para a convivência civilizada entre os povos.

O contraste, porém, é inevitável.

Enquanto o discurso ecoava no salão diplomático das Nações Unidas, o Oriente Médio continuava a arder. No sul do Irã, um bombardeio atingiu uma escola e matou dezenas de estudantes. Mochilas, cadernos e carteiras escolares espalhados entre os escombros tornaram-se imagens dolorosas de uma guerra que não distingue inocentes de combatentes.

A tragédia iraniana não é um caso isolado.

Na Faixa de Gaza, onde a guerra devastou grande parte da infraestrutura civil, o sistema educacional praticamente colapsou. Escolas transformaram-se em abrigos improvisados para civis deslocados — e muitas vezes também em alvos de bombardeios. Estimativas de organismos internacionais indicam que mais de 9 mil estudantes palestinos morreram desde o início da guerra, enquanto dezenas de milhares de crianças foram mortas ou feridas. Cerca de 90% das instalações escolares sofreram danos ou foram destruídas.

O contraste entre retórica e realidade torna-se difícil de ignorar. Na tribuna internacional fala-se em empatia e inclusão; nos territórios devastados multiplicam-se funerais infantis. A promessa da educação como ponte para a paz colide com a destruição física das próprias escolas — instituições que deveriam simbolizar o futuro.

O paradoxo torna-se ainda mais evidente quando se observa o contexto político em Washington. O governo de Donald Trump, ao mesmo tempo em que projeta poder militar no Oriente Médio, promove cortes em programas educacionais e científicos dentro dos próprios Estados Unidos. O desmonte gradual do Departamento de Educação e as restrições a financiamentos universitários contrastam com a defesa retórica da educação como base da paz global.

A contradição aparece também na realidade doméstica da violência armada. Em 2025, o K-12 School Shooting Database registrou cerca de 233 incidentes envolvendo disparos de arma de fogo em escolas nos Estados Unidos. O levantamento inclui tiros sem vítimas, acidentes com armas, disputas fora do horário escolar e ocorrências em estacionamentos ou eventos ligados às escolas. Dentro desse conjunto, 18 ataques resultaram em vítimas e apenas dois foram classificados como “mass shootings”, isto é, ataques com múltiplas vítimas.

Esses números não relativizam as tragédias ocorridas em zonas de guerra. Mas mostram que a promessa da escola como espaço seguro enfrenta desafios que ultrapassam fronteiras geopolíticas.

Essa tensão revela uma característica recorrente da política internacional contemporânea: a distância crescente entre discurso moral e prática estratégica.

Mas o problema não se limita aos Estados Unidos. A própria estrutura do Conselho de Segurança da ONU parece cada vez mais incapaz de responder à escala das crises atuais. Criado após a Segunda Guerra Mundial para preservar a paz internacional, o órgão tornou-se frequentemente paralisado por vetos, rivalidades geopolíticas e disputas de influência.

Enquanto diplomatas debatem resoluções, civis continuam a morrer.

No caso das escolas atingidas pela guerra — seja no Irã ou em Gaza — a tragédia assume significado simbólico particularmente cruel. A destruição de uma escola não representa apenas a perda de vidas humanas. Representa também a interrupção de futuros possíveis: médicos que não serão formados, cientistas que jamais farão suas descobertas, professores que nunca ensinarão novas gerações.

Talvez seja essa a ironia mais amarga do momento.

Enquanto líderes mundiais proclamam a educação como caminho para a paz, as guerras contemporâneas continuam a destruir justamente os espaços onde essa paz poderia começar a ser construída. Entre as ruínas das escolas bombardeadas, a retórica da empatia corre o risco de soar não como promessa, mas como eco distante de um ideal que o mundo ainda não conseguiu proteger.

Por Palmarí H de Lucena