A República Federativa dos Players

A República Federativa dos Players

Existe um fenômeno curioso acontecendo na televisão brasileira. Sem aprovação do Congresso, sem decreto presidencial e sem consulta popular, o país parece ter aderido discretamente a uma nova língua oficial. Não é o inglês propriamente dito, o que ao menos teria a vantagem da coerência. Trata-se de um dialeto híbrido, uma mistura de português com jargão corporativo internacional, falado com especial entusiasmo por jornalistas, comentaristas políticos, consultores e especialistas em praticamente qualquer assunto.

O cidadão liga a televisão para entender por que o governo enfrenta dificuldades, por que determinada reforma não avança ou por que o preço dos alimentos continua subindo. Minutos depois, descobre que não está acompanhando um debate sobre a realidade nacional, mas participando involuntariamente de um seminário sobre governança, narrativas, estratégias, players, stakeholders e outros espécimes linguísticos importados.

No Brasil de antigamente havia políticos, partidos, empresários, sindicalistas, ministros, governadores e líderes. Hoje há apenas players. O Congresso abriga players. O Supremo tem seus players. O mercado financeiro possui players. O agronegócio também. A essa altura, é provável que o vendedor de água de coco na praia seja considerado um importante player do setor de bebidas refrescantes de consumo imediato.

A palavra tornou-se tão abrangente que já não descreve nada em particular. É uma espécie de chave inglesa semântica: serve para qualquer situação justamente porque não se ajusta perfeitamente a nenhuma.

Mas os players são apenas a porta de entrada para um universo mais vasto. Existe toda uma fauna de expressões que circula livremente pelos estúdios de televisão e pelos debates públicos. Já não se fala em vendas, mas em sales. Não há mais prestação de contas ou responsabilização; existe accountability. A velha conformidade com leis e regulamentos foi promovida a compliance. O orçamento virou budget. A meta virou target. O prazo transformou-se em deadline. E uma simples reunião, aparentemente envergonhada de sua origem portuguesa, reaparece com a identidade internacional de meeting ou call.

O mais interessante é que quase todas essas palavras chegam acompanhadas de uma aura de profundidade. O telespectador desavisado poderia imaginar que compliance designa um conceito jurídico tão sofisticado que exigiria anos de estudo em universidades estrangeiras. Na prática, frequentemente significa apenas cumprir regras. Accountability soa como uma descoberta intelectual revolucionária quando, muitas vezes, refere-se ao velho e saudável princípio de prestar contas pelos próprios atos.

É uma das mágicas favoritas da era contemporânea: pegar uma ideia perfeitamente compreensível, traduzi-la para o inglês e devolvê-la ao público com aparência de inovação.

O fenômeno não se limita ao vocabulário político e econômico. Uma revelação antecipada tornou-se spoiler. Uma amizade próxima converteu-se em bromance. O momento adequado virou timing. O desconhecido passou a ser um outsider. Se a tendência prosseguir, não está distante o dia em que um comentarista anunciará com absoluta seriedade que o principal player institucional perdeu o timing para administrar um spoiler provocado por seu círculo de bromance político, comprometendo sua percepção junto aos demais stakeholders.

Nesse instante, milhões de brasileiros olharão para a tela e se perguntarão se estão assistindo a um telejornal, a uma reunião de diretoria ou a uma convenção internacional de consultores.

Convém esclarecer: o problema não é a existência de estrangeirismos. As línguas sempre se alimentaram de empréstimos. O português absorveu palavras árabes, indígenas, africanas, francesas, italianas e inglesas ao longo de sua história. A própria Academia Brasileira de Letras reconhece que esse intercâmbio é parte natural da evolução linguística. Algumas palavras estrangeiras preenchem lacunas reais; outras acabam legitimamente incorporadas ao idioma.

O que merece reflexão é outro fenômeno: a substituição automática e desnecessária de palavras portuguesas por equivalentes estrangeiros apenas porque estes parecem mais modernos, mais elegantes ou mais prestigiosos.

Há nisso um curioso paradoxo. Nunca houve tantos profissionais da comunicação dedicados a comunicar. E, ao mesmo tempo, nunca pareceu haver tamanho esforço para transformar a linguagem em um exercício de distinção social. Em vez de aproximar o público da informação, cria-se uma espécie de pedágio vocabular. Quem domina o jargão atravessa sem dificuldades. Quem não domina fica observando a conversa do lado de fora.

Talvez a maior ironia seja que essa busca incessante por modernidade produza exatamente o efeito contrário. A boa comunicação sempre dependeu da clareza. As grandes obras do jornalismo, da literatura e do pensamento político não se tornaram memoráveis porque exibiam palavras difíceis, mas porque tornavam inteligíveis assuntos complexos.

Uma ideia não se torna mais inteligente porque atravessou o Atlântico. Um argumento não ganha profundidade por receber um sotaque importado. E uma análise política não se transforma em ciência avançada apenas porque substituiu “vendas” por sales, “responsabilidade” por accountability ou “cumprimento das normas” por compliance.

Suspeito que estamos apenas no começo. Em breve, algum comentarista anunciará que os principais players do cenário nacional precisam aprimorar sua accountability, fortalecer seu compliance, redefinir seus targets e alinhar suas estratégias de sales para enfrentar os desafios da nova conjuntura.

Quando esse dia chegar, talvez o telespectador brasileiro descubra que não precisava aprender ciência política para entender o noticiário. Precisava apenas de um dicionário bilíngue.

E assim seguirá a República Federativa do Brasil: um país que pensa em português, trabalha em português, vota em português, paga impostos em português e vive em português, mas cuja elite comunicacional parece cada vez mais convencida de que a realidade só adquire importância depois de ser traduzida para o inglês.

Palmarí H. de Lucena