A República da Desconfiança

A República da Desconfiança

Durante grande parte do século XX, as democracias preocuparam-se em limitar o poder dos governantes. Constituições, tribunais independentes, eleições periódicas e uma imprensa livre foram concebidos para impedir a concentração arbitrária do poder. No século XXI, entretanto, o desafio parece ter mudado. A questão já não é apenas conter o abuso de autoridade, mas convencer parcelas crescentes da sociedade de que as próprias instituições ainda são capazes de arbitrar conflitos de maneira legítima. A crise deixou de ser apenas do poder; tornou-se uma crise de confiança.

Os acontecimentos que sucederam as eleições presidenciais norte-americanas de 2020 tornaram essa transformação particularmente visível. A narrativa de fraude sobreviveu às auditorias, às recontagens, às decisões judiciais e à ausência de evidências de uma conspiração eleitoral em larga escala. Mais do que isso, produziu um fenômeno político novo: cidadãos que construíram sua atuação pública questionando a legitimidade do sistema eleitoral passaram a ocupar cargos responsáveis por administrá-lo. Na Geórgia, a disputa deixou de ocorrer apenas entre candidatos; passou a envolver a própria autoridade das instituições encarregadas de organizar as eleições.

Seria um erro, contudo, interpretar esse episódio como uma singularidade americana. Ele revela uma tendência mais ampla, presente em diversas democracias contemporâneas: a transformação da desconfiança em identidade política. A dúvida, elemento essencial de qualquer sociedade aberta, deixa de servir à investigação e converte-se em ponto de chegada. Já não se procura verificar os fatos; procura-se confirmar convicções previamente estabelecidas.

O Brasil acompanha esse processo de uma posição distinta, moldada por uma trajetória histórica própria. Nossa experiência democrática foi construída sobre sucessivas rupturas institucionais, períodos autoritários, crises econômicas e recorrentes escândalos de corrupção. A baixa confiança nas instituições antecede em muito a era das plataformas digitais. Ela integra a própria formação do Estado brasileiro.

Desde Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda observava a dificuldade de consolidar instituições impessoais em uma sociedade marcada pelo peso das relações pessoais. Décadas mais tarde, Raymundo Faoro demonstraria como a formação do Estado brasileiro produziu uma cultura política frequentemente percebida como distante da sociedade. José Murilo de Carvalho lembraria que a cidadania no Brasil foi construída de maneira incompleta. Essas interpretações ajudam a compreender por que a confiança institucional sempre encontrou terreno instável no país.

Nesse contexto, o debate brasileiro sobre o sistema eleitoral adquiriu um significado que ultrapassa a tecnologia das urnas eletrônicas. A questão deixou de ser exclusivamente técnica para tornar-se simbólica. A pergunta passou a ser outra: quem merece confiança para arbitrar os conflitos políticos do país?

Instituições democráticas não sobrevivem apenas porque estão previstas na Constituição. Elas dependem de um patrimônio menos visível: a existência de uma confiança mínima entre cidadãos, governantes e órgãos públicos. Não se trata de confiança cega. A fiscalização, a crítica e a transparência constituem elementos indispensáveis do regime democrático. Entretanto, existe uma diferença decisiva entre exercer vigilância sobre o poder e assumir que toda instituição opera, por definição, de má-fé.

Quando essa distinção desaparece, instala-se aquilo que poderíamos chamar de política da desconfiança.

Nesse ambiente, nenhuma resposta é suficiente, porque toda explicação passa a ser interpretada como parte daquilo que pretende explicar. A ausência de provas deixa de enfraquecer uma hipótese e converte-se, paradoxalmente, em indício de que alguém conseguiu ocultá-las. O debate público deixa de ser organizado pela demonstração dos fatos e passa a ser estruturado pela intensidade das crenças.

As redes sociais não criaram essa crise; aceleraram-na. A arquitetura das plataformas digitais favorece conteúdos emocionalmente mobilizadores, reduz o peso das mediações tradicionais e aproxima cidadãos de comunidades que reforçam continuamente suas próprias interpretações da realidade. Nesse ambiente, narrativas simples competem com vantagem sobre explicações complexas.

A comparação entre Brasil e Estados Unidos deve ser conduzida com cautela. Apesar das diferenças institucionais, ambos enfrentam um desafio semelhante: preservar a legitimidade das regras em sociedades que passaram a desconfiar dos próprios árbitros do jogo democrático.

O futuro da democracia brasileira dependerá menos da capacidade de responder a cada nova teoria conspiratória do que da reconstrução gradual da confiança pública. Essa tarefa exigirá educação cívica, alfabetização digital, transparência institucional, responsabilidade das lideranças políticas e uma esfera pública comprometida com informação verificável.

Ao longo de quase quatro décadas da Constituição de 1988, o Brasil consolidou mecanismos importantes de alternância de poder, fortaleceu instituições de controle e ampliou direitos fundamentais. Esses avanços permanecem incompletos, mas constituem uma conquista histórica.

A história demonstra que democracias raramente deixam de existir em um único momento dramático. Mais frequentemente, tornam-se incapazes de produzir consensos mínimos sobre a realidade compartilhada. Quando isso acontece, toda eleição passa a ser percebida como fraude potencial, toda decisão judicial como perseguição política e toda instituição como expressão de interesses ocultos.

Talvez esse seja o maior desafio brasileiro nas próximas décadas. Não apenas aperfeiçoar instituições, mas reconstruir as condições sociais que tornam possível confiar nelas sem abdicar do espírito crítico. Democracias sobrevivem ao conflito e ao dissenso. O que dificilmente suportam é a perda de um mundo comum, no qual adversários políticos ainda aceitam discutir os mesmos fatos, respeitar as mesmas regras e reconhecer a legitimidade das instituições que organizam a vida pública.

Quando esse terreno desaparece, a política deixa de ser uma disputa sobre projetos de país. Passa a ser uma disputa sobre a própria realidade.

Palmarí H. de Lucena