A reforma possível da ONU e o Brasil que ficou à porta

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A reforma possível da ONU e o Brasil que ficou à porta

A Organização das Nações Unidas nasceu de um daqueles raros instantes em que a história exige imaginação política. Em 1945, não se tratava apenas de reorganizar instituições, mas de transformar o trauma da guerra em regra, a força em contenção e a vitória em responsabilidade. A ONU foi concebida como gesto civilizatório antes de se tornar burocracia internacional.

O Brasil participou desse momento fundador com um ativo que poucos países podiam reivindicar: experiência concreta de guerra. A Força Expedicionária Brasileira combateu na Itália, e batalhas como a de Montese marcaram a transição do País da neutralidade prudente para o engajamento direto no esforço aliado. Ali, o Brasil deixou de ser observador periférico e passou a integrar o núcleo da experiência histórica que deu origem à ordem do pós-guerra.

Esse capital não era trivial. Um país continental, sem tradição expansionista, com participação efetiva no conflito e vocação diplomática para a mediação reunia credenciais compatíveis com o espírito do Conselho de Segurança. A hipótese de um assento permanente brasileiro não representava ambição hegemônica, mas coerência institucional: responsabilidade compartilhada por uma ordem que o País ajudara a construir.

O instante, no entanto, passou.

A ausência do Brasil no núcleo decisório da ONU não se explica por um gesto isolado, mas por uma trajetória de escolhas cautelosas, prioridades deslocadas e falta de continuidade estratégica. O prestígio diplomático foi preservado — e até ampliado —, mas não se converteu em projeto institucional duradouro. O Brasil tornou-se presença respeitada, candidato recorrente, mas estruturalmente periférico nas decisões centrais de segurança internacional.

O Conselho de Segurança, por sua vez, cristalizou a fotografia de 1945 como se a história tivesse cessado ali. O mundo mudou radicalmente; a distribuição formal do poder, não. Regiões que hoje concentram a maior parte da população mundial permanecem sub-representadas. Países que assumem encargos crescentes em operações de paz, financiamento ao desenvolvimento e agendas climáticas continuam afastados dos centros decisórios. O resultado é um sistema que cobra mais de quem decide menos — e, por isso mesmo, perde legitimidade.

É nesse ponto que a reforma da ONU deixa de ser retórica diplomática e se torna necessidade prática. A alteração formal da Carta permanece politicamente bloqueada, e insistir nela como condição prévia equivale a aceitar a paralisia. Isso não impede, contudo, reformas incrementais capazes de ampliar eficácia e credibilidade: maior responsabilização pública do uso do veto, fortalecimento da Assembleia Geral como instância de legitimidade, práticas de representação regional e maior transparência decisória.

O Brasil dispõe de atributos singulares para liderar esse caminho gradualista. Sua tradição de autonomia pela participação, sua credibilidade normativa no direito internacional e sua atuação consistente em missões de paz permitem defender mudanças pela prática, não pelo confronto. Recuperar Montese não como nostalgia militar, mas como memória política ativa, é parte desse esforço: lembrar que houve um momento em que o País esteve disposto a assumir riscos compatíveis com ambições institucionais.

A questão central já não é reivindicar um assento como fim em si mesmo, mas reposicionar o Brasil como articulador de legitimidade em um sistema em crise. Isso implica abandonar a lógica do pleito episódico e investir em estratégia persistente, coalizões funcionais e propostas institucionalmente viáveis — capazes de dialogar com parceiros do Sul Global, potências médias e setores reformistas do Norte.

A reforma da ONU não ocorrerá por gestos grandiosos, mas por acúmulos consistentes. O Brasil já esteve próximo do centro quando a ordem foi criada. A história abriu espaço — e exigiu coragem para ocupá-lo. Hoje, a oportunidade é mais estreita, mas ainda existe. O custo da inação, por outro lado, é conhecido: irrelevância crescente em um sistema que continua a decidir sem refletir plenamente o mundo que governa.

Por Palmarí H. de Lucena