Há algo de profundamente torpe na forma como parte da extrema direita brasileira se fantasia de patriotismo. Cobrem-se de verde e amarelo, empunham a bandeira nacional como se fosse escudo moral, mas agem como uma quinta-coluna — não em defesa do Brasil, e sim dos interesses que orbitam Washington.
O episódio recente envolvendo Marco Rubio, agora convertido em novo oráculo dos “patriotas” tropicais, é exemplar. O senador da Flórida, erigido por essa direita como grande defensor ideológico, é tratado quase como um embaixador dos seus sonhos autoritários. Rubio, que se apresenta como símbolo da moralidade conservadora e do combate ao “globalismo”, tornou-se o interlocutor preferencial de figuras como Eduardo Bolsonaro e seus companheiros de exílio dourado — todos empenhados em terceirizar a soberania nacional a qualquer político americano que repita suas palavras de ordem.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, foi rápido em elogiar a decisão de Donald Trump de colocar Rubio à frente das negociações com o Brasil. Chamou o gesto de “jogada de craque”, como se a humilhação diplomática fosse uma vitória. É esse o mesmo raciocínio invertido que confunde patriotismo com vassalagem e soberania com submissão. Para Sóstenes, tudo o que favorece o adversário interno parece digno de aplauso, mesmo que comprometa o próprio país que ele jurou representar. A servidão intelectual, nesses casos, é tão grave quanto a moral.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, segue o mesmo roteiro — um personagem que trocou o papel de deputado federal pelo de arauto do ressentimento nacional no exterior. Refugiado nos Estados Unidos, dedica-se a atacar as instituições brasileiras e a exaltar políticos estrangeiros que, na prática, jamais demonstraram qualquer apreço real pelo Brasil. Sua retórica, travestida de nacionalismo, é a negação do patriotismo: um projeto pessoal de vingança que transforma a pátria em palco de sua autofagia política.
E há ainda o coro grego de parlamentares medíocres que ecoa as lamentações do clã Bolsonaro. Um coro dissonante e calculadamente covarde, que clama pela anistia dos que atentaram contra as instituições democráticas — as mesmas que lhes garantiram o direito de se eleger, tomar posse e discursar em nome da liberdade. Esses falsos defensores da democracia são filhos da permissividade institucional e padrinhos da desordem que quase rasgou a Constituição. Usam a tribuna como púlpito de autoproteção e confundem imunidade parlamentar com impunidade moral. São os ventríloquos do autoritarismo, disfarçados de legalistas.
O irônico — e revelador — é que o próprio Donald Trump, o “chefe” supremo desse imaginário político, humilhou publicamente Rubio durante as primárias republicanas. Chamou-o de “palhaço”, “peso-leve” e “Senhor Descontrole”, zombando de seu nervosismo em debates e de sua falta de estatura política. Trump fez de Rubio um personagem menor no espetáculo da política americana — e agora esse mesmo Rubio é celebrado pelos discípulos brasileiros do trumpismo como farol ideológico.
Não há coerência, apenas servilismo. A admiração por Rubio, depois das humilhações que recebeu do próprio Trump, não é sinal de afinidade política, mas de submissão. É a prova de que uma parcela da extrema direita brasileira perdeu a bússola moral e intelectual: prefere ajoelhar-se diante de caricaturas estrangeiras a compreender a própria realidade nacional.
Enquanto o país tenta reconstruir relações econômicas e diplomáticas, os “patriotas” exilados comemoram sanções impostas ao Brasil e torcem para que o fracasso interno seja o triunfo deles — como se a ruína nacional fosse combustível para seus ressentimentos. Travestidos de salvadores, agem como opositores da pátria. O verdadeiro amor ao Brasil, porém, não se mede por slogans nem por bandeiras agitadas ao vento, mas por gestos éticos, pela defesa incondicional da soberania e pelo compromisso com a verdade. A pátria não precisa de aduladores de líderes estrangeiros nem de cúmplices do caos; precisa de cidadãos que saibam distinguir obediência de patriotismo e histeria ideológica de amor à nação.
Por Palmarí H. de Lucena