Num momento em que o mundo se curva a incertezas e disputas comerciais intensificadas, é com perplexidade que setores expressivos da opinião pública americana observam a atuação de Eduardo Bolsonaro em território dos Estados Unidos. Para muitos, trata-se de um caso inédito: um deputado federal brasileiro, residente legal no país com green card, atuando como operador político em favor de interesses familiares — mesmo quando esses interesses colidem com a soberania e os direitos do seu próprio povo.
A incredulidade é ainda maior quando se observa que Eduardo, mesmo sem mandato ativo no Brasil, percorre gabinetes e instituições americanas pressionando por sanções contra magistrados brasileiros, incentivando tarifas comerciais que atingem diretamente o produtor nacional e participando de campanhas coordenadas de deslegitimação das instituições democráticas do Brasil. Sua atuação pública nos EUA, em nome do pai e do bolsonarismo, tem sido percebida mais como emissário pessoal de uma cruzada política do que como defensor de qualquer interesse legítimo do Estado brasileiro.
A imprensa americana tem acompanhado com espanto essa movimentação. Veículos como Político, Reuters, El País (edição internacional) e The Guardian relataram com clareza: Eduardo Bolsonaro articula sanções e barreiras comerciais contra o próprio país, ao mesmo tempo em que mobiliza apoio a seu pai, Jair Bolsonaro — ex-presidente hoje investigado por graves acusações no Brasil. Para analistas jurídicos e diplomáticos, trata-se de um exemplo extremo de conflito entre interesse público e conveniência familiar.
Mas há mais do que perplexidade moral: há também um dilema legal. Eduardo possui green card americano — ou seja, é residente permanente nos EUA. Esse status implica, do ponto de vista legal, o compromisso de viver, integrar-se e respeitar os valores institucionais do país anfitrião. No entanto, ao atuar nos Estados Unidos em nome de um governo estrangeiro (ou mesmo de um grupo político estrangeiro), ele poderia se enquadrar na Foreign Agents Registration Act (FARA) — legislação que exige o registro formal de qualquer agente atuando em nome de interesses externos junto ao governo ou à opinião pública americana.
O problema? Titulares de green card normalmente não podem se registrar como agentes estrangeiros, pois isso contradiz a premissa da residência permanente: não se pode, ao mesmo tempo, viver sob a proteção legal dos EUA e representar oficialmente interesses de outro Estado. A lei, nesse ponto, é clara: quem representa um país estrangeiro, especialmente em atividades de lobby político ou diplomático, deve se declarar como tal — sob risco de violação da FARA, com penalidades que incluem multas e até deportação. Ou seja, Eduardo está, juridicamente, em uma zona de alto risco legal e reputacional.
A comunidade americana, habituada à ideia de que sanções são instrumentos de defesa nacional, observa com espanto que essas mesmas ferramentas estejam sendo instrumentalizadas por um estrangeiro contra o seu próprio país. A perplexidade se intensifica ao perceber que essa atuação foi financiada, ao que tudo indica, com recursos da própria família Bolsonaro, numa operação sem transparência, sem mandato e com objetivos claramente partidários.
Mais grave ainda são os efeitos concretos. As tarifas comerciais incentivadas por esse lobby atingem diretamente exportações de café, carne e frutas brasileiras, prejudicam o produtor rural e comprometem cadeias produtivas binacionais. No fim, são os consumidores americanos que pagam mais caro, e os trabalhadores brasileiros que perdem renda e oportunidades. Tudo isso movido por uma agenda pessoal travestida de missão patriótica.
A atuação da família Bolsonaro — e especialmente de Eduardo — evidência não apenas a fragilidade institucional brasileira, mas também a capacidade corrosiva de projetos políticos que colocam a lealdade familiar acima da responsabilidade pública. Para muitos americanos, essa postura é não apenas antidemocrática, mas profundamente antiética: uma tentativa de manipular a política externa dos EUA para interferir em questões internas do Brasil, ao arrepio da soberania nacional e da legitimidade das instituições.
No fundo, o que se vê é um parlamentar sem mandato, mas com residência nos Estados Unidos, usando o território americano como plataforma de revanche política contra seu próprio país, flertando com violações legais e comprometendo relações bilaterais. Em vez de construir pontes entre nações, levantou muros entre o Brasil e seu povo. E esse é um gesto que nem mesmo os mais pragmáticos observadores americanos conseguem compreender — nem perdoar.