A Paraíba entre o presente e a parentela

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A Paraíba entre o presente e a parentela

Ler a política paraibana de hoje à luz de Política e Parentela na Paraíba é constatar que, apesar das mudanças de cenário, a engrenagem central do poder segue surpreendentemente familiar. Trocaram-se os discursos, multiplicaram-se os partidos e modernizaram-se as ferramentas de comunicação, mas a lógica profunda que organiza o mando permanece ancorada em vínculos pessoais, alianças familiares e pactos de conveniência.

José Américo descreveu um sistema no qual o poder não se estruturava a partir de programas ou ideias, mas de redes de pertencimento. Na Paraíba contemporânea, essa lógica raramente se apresenta de forma explícita. Ela reaparece diluída, travestida de pragmatismo político ou de “articulação institucional”, mas segue operando com a mesma eficácia. O sobrenome continua sendo um ativo eleitoral e administrativo, ainda que hoje venha acompanhado de marketing profissional e linguagem tecnocrática.

A fragmentação partidária, frequentemente celebrada como sinal de pluralismo, pouco alterou esse quadro. Ao contrário, contribuiu para um fenômeno recorrente: a dispersão formal do poder encobre sua concentração real. As siglas se multiplicam, as coligações se ampliam, mas as decisões estratégicas continuam orbitando poucos núcleos, capazes de transitar entre governos e discursos sem grande custo político. O resultado é uma estabilidade aparente, construída mais sobre acordos internos do que sobre debate público consistente.

Outra herança persistente é o uso do Estado como instrumento de pacificação entre grupos aliados. Secretarias, autarquias e cargos intermediários funcionam como moeda política, não como estruturas orientadas por eficiência ou projeto. A governabilidade se faz pela acomodação, não pela escolha. Isso gera administrações pesadas, pouco transparentes e frequentemente incapazes de produzir políticas públicas de longo alcance.

No campo institucional, a assimetria também chama atenção. A lei é formalmente a mesma para todos, mas sua aplicação segue marcada por seletividade. Grupos tradicionais contam com redes de proteção informal, enquanto atores periféricos enfrentam maior exposição e rigor. O fenômeno, que hoje se traduz em judicialização desigual, já estava presente na descrição clássica da parentela: a norma existe, mas se curva à hierarquia social.

Nos municípios, essa lógica se revela de modo ainda mais cru. Prefeituras continuam funcionando como extensões familiares, dependentes de transferências e presas à política do favor. A ausência de autonomia financeira e a fragilidade institucional perpetuam um ciclo em que a sobrevivência imediata se impõe sobre qualquer planejamento estrutural. O eleitor, por sua vez, permanece refém de relações pessoais que substituem direitos por concessões.

É verdade que há novidades. As redes sociais ampliaram a vigilância pública, novos atores emergiram e a retórica da transparência ganhou espaço. Mas a principal complicação da política paraibana atual está no fato de que essas mudanças não romperam a arquitetura do poder. Apenas aceleraram seus movimentos e sofisticaram sua aparência.

A leitura de Política e Parentela na Paraíba continua, portanto, menos um exercício histórico do que um instrumento de diagnóstico. Ela ajuda a explicar por que tantas crises políticas no Estado resultam não em rupturas, mas em rearranjos internos. A Paraíba mudou, mas sua política ainda fala, em grande medida, a língua do passado. Enquanto essa gramática não for superada, o futuro seguirá sendo administrado com métodos antigos — e resultados previsíveis.

Por Palmarí H. de Lucena