A Paraíba entre a permanência e a mudança

A Paraíba entre a permanência e a mudança

Toda eleição deixa uma paisagem diferente daquela que encontrou. Em alguns momentos, a mudança é ampla e imediatamente perceptível; em outros, as estruturas permanecem reconhecíveis, embora algumas posições se alterem e novos atores passem a ocupar espaços antes pertencentes a outros. O resultado das eleições de 2026 na Paraíba se aproxima mais dessa segunda situação. A maior parte dos nomes conhecidos permaneceu, mas a composição das bancadas, a distribuição partidária das cadeiras e a votação individual de diversos candidatos produziram alterações que merecem ser observadas com atenção.

Na Câmara dos Deputados, o dado mais evidente é a continuidade. Dos 12 parlamentares eleitos para a legislatura que terá início em 2027, nove já exerciam mandato federal. As mudanças ficaram concentradas em três cadeiras, ocupadas por Ricardo Coutinho, George Morais e Pollyanna. Em 2022, a bancada paraibana havia sido formada por Hugo Motta, Aguinaldo Ribeiro, Cabo Gilberto, Mersinho Lucena, Romero Rodrigues, Murilo Galdino, Wellington Roberto, Ruy Carneiro, Wilson Santiago, Gervásio Maia, Dr. Damião e Luiz Couto.

A comparação mostra, portanto, que não houve substituição generalizada da representação federal. Houve renovação pontual dentro de uma bancada que preservou a maior parte de seus integrantes. Isso, contudo, não significa que o cenário tenha permanecido exatamente igual, porque a votação individual de vários parlamentares apresentou mudanças expressivas.

Em 2022, Hugo Motta foi o deputado federal mais votado da Paraíba, com 158.171 votos, seguido por Aguinaldo Ribeiro, com 135.001, e Cabo Gilberto, com 126.876. Em 2026, Cabo Gilberto passou à primeira posição, com 267.142 votos; Aguinaldo Ribeiro alcançou 180.720; e Ricardo Coutinho obteve 163.277.

Esses números devem ser lidos dentro das características próprias do sistema proporcional brasileiro. A votação individual é apenas um dos elementos que participam da composição da Câmara, ao lado do desempenho partidário, das alianças eleitorais e dos critérios legais de distribuição das cadeiras. Ainda assim, a comparação entre as duas eleições registra objetivamente uma mudança na ordem das votações e na dimensão eleitoral alcançada por determinados candidatos.

Cabo Gilberto, por exemplo, mais que dobrou sua votação nominal em relação a 2022. Aguinaldo Ribeiro também apresentou crescimento, assim como Murilo Galdino, Wilson Santiago e Gervásio Maia. Hugo Motta, embora tenha renovado seu mandato, recebeu menos votos individuais do que na eleição anterior. Esses movimentos não permitem, isoladamente, estabelecer conclusões sobre influência política ou desempenho futuro, mas ajudam a compreender que a reeleição não representa necessariamente a repetição do mesmo resultado eleitoral.

Entre os três novos integrantes da bancada federal, Ricardo Coutinho chega com uma trajetória política construída em diferentes níveis da administração pública. Ex-prefeito de João Pessoa e ex-governador da Paraíba, retorna ao Congresso com uma votação de 163.277 votos. Sua presença acrescenta à representação federal uma experiência anterior no Executivo municipal e estadual, mas o significado político de seu novo mandato dependerá das posições que vier a adotar, das matérias que priorizar e das relações institucionais que estabelecer durante a legislatura.

George Morais e Pollyanna chegam à Câmara Federal por caminhos diferentes e também terão de construir, a partir da posse, suas respectivas atuações parlamentares. O resultado eleitoral registra a escolha do eleitorado; o mandato, por sua vez, permitirá avaliar como essa escolha será traduzida em atividade legislativa.

Na Assembleia Legislativa, a mudança de composição é mais perceptível. A nova legislatura apresenta uma distribuição partidária diferente daquela observada em 2022. Republicanos e União Progressista aparecem com oito cadeiras cada; o PL, com seis; o MDB, com quatro; o PSB, com três; União, PT e PV, com duas cada; e o PCdoB, com uma.

A comparação com a composição anterior precisa ser feita com alguma cautela, porque houve mudanças de legenda e reorganizações partidárias no intervalo entre as duas eleições. Mesmo assim, alguns movimentos são claros. O Republicanos preserva oito cadeiras; o grupo partidário correspondente ao atual União Progressista passa de quatro para oito; o PL amplia sua representação de três para seis; enquanto o PSB passa de seis para três cadeiras.

Esses números descrevem a composição do Legislativo, mas não determinam antecipadamente como os parlamentares votarão. A atuação de uma Assembleia envolve interesses partidários, posições individuais, compromissos eleitorais, demandas municipais e questões específicas de cada projeto. Por isso, uma determinada bancada pode formar maioria em uma matéria e adotar posição diferente em outra.

A relação entre Executivo e Legislativo será, nesse sentido, uma das dimensões importantes da próxima legislatura. Lucas Ribeiro foi reeleito governador no primeiro turno, com votação superior a 64%. O resultado estabelece uma nova etapa para o Executivo estadual, mas a condução das relações com a Assembleia dependerá das negociações e das decisões que forem tomadas durante o mandato.

Não é possível deduzir apenas da composição eleitoral como serão essas relações. A formação de maiorias legislativas é um processo dinâmico, sujeito à pauta de cada período e às posições assumidas pelos parlamentares. O que se pode afirmar, a partir dos resultados, é que o próximo governo encontrará uma Assembleia composta por diferentes partidos e trajetórias políticas, o que torna a articulação parlamentar parte relevante da administração estadual.

No Senado, o eleitorado paraibano escolheu João Azevêdo e Veneziano para as duas vagas em disputa. Nabor Wanderley terminou a eleição em terceiro lugar. A mudança possui uma consequência institucional específica: João Azevêdo deixa o governo estadual para assumir uma cadeira no Senado, enquanto Veneziano permanece no Congresso Nacional em novo mandato.

Esse movimento altera também a representação política da Paraíba em Brasília. A partir de 2027, o estado terá no Senado um ex-governador ao lado de um senador que já possui experiência parlamentar, enquanto a Câmara contará com nove deputados federais reeleitos e três novos integrantes. A configuração resultante reúne continuidade de experiência e renovação de nomes, sem que uma dessas características elimine a outra.

Talvez essa seja a melhor maneira de compreender a eleição de 2026. Não houve uma substituição completa das estruturas políticas existentes, mas também seria impreciso descrevê-la apenas como continuidade. O resultado combina permanência e mudança em diferentes proporções, conforme a instituição, o partido e o candidato observados.

Na Câmara Federal, a continuidade é predominante. Na Assembleia, a renovação é mais acentuada. No Senado, a eleição introduz uma nova composição, especialmente pela chegada de João Azevêdo. No Executivo estadual, a reeleição de Lucas Ribeiro mantém a mesma liderança à frente do governo.

O conjunto dessas informações não aponta, por si só, para uma única direção política. Ele descreve uma sociedade eleitoralmente diversificada, que distribuiu seus votos entre diferentes partidos, candidatos e projetos. Qualquer interpretação mais abrangente dependerá da observação do comportamento dos eleitos ao longo da legislatura.

É nesse ponto que começa a etapa mais importante.

O resultado eleitoral é uma fotografia. O mandato é um filme.

Durante os próximos quatro anos, será possível observar como cada parlamentar exercerá suas atribuições, quais projetos apresentará, como votará nas matérias relevantes, que posições assumirá nas comissões, como utilizará os instrumentos orçamentários disponíveis e de que maneira responderá às demandas de suas bases eleitorais.

Também será possível verificar se as posições apresentadas durante a campanha permanecerão constantes diante das circunstâncias concretas do exercício do mandato. Mudanças de posição podem ocorrer em qualquer legislatura, mas devem ser avaliadas a partir dos fatos, das votações e das justificativas apresentadas pelos próprios parlamentares.

Essa perspectiva é especialmente importante porque impede que a análise eleitoral se transforme prematuramente em julgamento sobre mandatos que ainda não começaram. Os votos permitem conhecer o resultado de uma disputa; não permitem antecipar, com segurança, o comportamento futuro de cada eleito.

A Paraíba que emerge das urnas em 2026 não pode ser definida apenas pela permanência dos nomes conhecidos nem pela chegada dos novos parlamentares. Ela deve ser compreendida como uma composição institucional em transformação, na qual diferentes experiências políticas terão de conviver dentro das mesmas estruturas democráticas.

O que acontecerá a partir daí dependerá menos das previsões feitas na noite da eleição e mais das decisões tomadas durante o mandato.

Aos eleitos caberá exercer as funções para as quais receberam os votos. Às instituições caberá assegurar o funcionamento regular do processo legislativo. E à sociedade caberá acompanhar, questionar e avaliar o desempenho daqueles que escolheu para representá-la.

É nesse intervalo entre a urna e o mandato que os números ganham significado. A eleição registra uma escolha coletiva em determinado momento; a atuação parlamentar revela, ao longo do tempo, como cada eleito responde à responsabilidade que recebeu.

No fim, talvez seja essa a única conclusão segura que uma eleição permite fazer antes de o novo ciclo começar: a Paraíba mudou o suficiente para produzir novas perguntas, mas preservou o suficiente para manter antigas questões em aberto.

As respostas, agora, pertencem ao exercício dos mandatos.

Palmarí H. de Lucena

*Imagem gerada por IA