A ordem mundial e o fim dos maestros

A ordem mundial e o fim dos maestros

Durante décadas, o mundo pareceu uma orquestra com maestro fixo. Washington marcava o compasso e distribuía as partituras; quando necessário, lembrava que a harmonia dependia de sua regência. Nem todos apreciavam a música, mas poucos podiam ignorar quem ocupava o centro do palco. A ordem criada após a Segunda Guerra Mundial ofereceu estabilidade e previsibilidade, embora refletisse a desigualdade entre quem definia as regras e quem precisava adaptar-se a elas.

Agora, o maestro parece menos disposto a conduzir toda a apresentação. Os Estados Unidos continuam a reunir força militar, universidades de excelência, capacidade de inovação e talento internacional. Suas escolhas políticas, porém, abalam a confiança dos parceiros e põem em dúvida a continuidade de compromissos globais. Isso não significa o desaparecimento do poder americano. Seu declínio, se assim podemos chamá-lo, é relativo: a potência permanece forte, mas já não organiza o sistema sem contestação.

A China, por sua vez, passou a tocar sua própria música. A capacidade industrial, os investimentos em infraestrutura e sua presença comercial ampliaram as opções de países antes dependentes de relações assimétricas com o Ocidente. Ferrovias, metrôs e grandes obras simbolizam um modelo que desafia a ideia de um único caminho para o desenvolvimento. Mas oferecer uma alternativa não significa ser superior em tudo. Pequim também age segundo seus interesses; não há motivo para presumir que uma potência emergente será mais generosa que a estabelecida.

A questão, portanto, não é apenas quem ocupará o lugar de Washington. Trocar um maestro por outro não garante voz aos músicos. A rivalidade sino-americana pode abrir oportunidades, mas também transformar outros países em peças de uma disputa alheia: mercados, portos, minerais e votos. Uma ordem reduzida à competição entre duas potências ignoraria sociedades que precisam de financiamento climático, alimentos, vacinas, acesso a mercados e regras comerciais previsíveis.

É nesse cenário que ganha relevância a expressão Sul Global. Ela reúne países com ideologias e interesses distintos, que procuram maior margem de decisão. Governos africanos, asiáticos e latino-americanos não seguem automaticamente Washington ou Pequim. Diversificar parceiros pode ampliar o poder de negociação e reduzir dependências antigas. Mas autonomia não é trocar de patrono: quem exporta matérias-primas, importa tecnologia e investe pouco em conhecimento continua vulnerável, mesmo com muitos compradores e financiadores.

O Brasil conhece essa contradição. Tem recursos naturais, produção de alimentos, energia, mercado interno expressivo e tradição diplomática. Nada disso, porém, se converte automaticamente em influência. Para negociar melhor, precisa agregar valor à produção, fortalecer ciência e educação, ampliar a capacidade industrial, integrar-se à região e manter instituições confiáveis. Não basta ser cortejado pelas grandes potências; é preciso saber o que negociar, em quais condições e em benefício de quem.

Também é um erro medir a eficiência de um governo apenas pela velocidade com que constrói obras. Uma estação moderna ou uma ferrovia veloz demonstra capacidade de execução, mas não responde a questões sobre liberdade de expressão, fiscalização do poder, independência da Justiça e proteção de minorias. Da mesma forma, eleições regulares não bastam quando faltam escola, saúde, segurança, transporte e dignidade. A escolha não precisa ser entre democracia e eficiência: o desafio é fazer a democracia entregar resultados, com planejamento, metas transparentes e prestação de contas.

A insatisfação com instituições lentas, corruptas ou incapazes de responder às necessidades sociais alimenta líderes que prometem atalhos. O populismo transforma frustrações legítimas em ressentimento contra adversários, minorias ou mecanismos de controle. A autoridade que decide sem obstáculos pode parecer sedutora quando a política tradicional decepciona. Mas o autoritarismo não garante desenvolvimento nem honestidade. Ao concentrar decisões e enfraquecer a fiscalização, dificulta corrigir erros, denunciar abusos e substituir governantes incompetentes.

O tipo de regime, isoladamente, não explica o êxito ou o fracasso de uma sociedade. Importam a capacidade do Estado, a qualidade administrativa, a competência técnica e instituições que prestem contas. A democracia deve ser mais que um procedimento eleitoral: precisa assegurar participação, justiça e distribuição razoável dos benefícios do desenvolvimento. E eficiência deve significar mais que velocidade: importa o que se constrói, o que se protege e quem fica de fora.

Há uma contradição persistente na política internacional. Potências que defendem democracia e direitos humanos nem sempre aplicam os mesmos critérios quando entram em jogo interesses estratégicos. Essa seletividade corrói a credibilidade das regras e alimenta a desconfiança de países aconselhados a seguir princípios que os mais fortes se permitem flexibilizar. Reconhecer a hipocrisia, contudo, não exige idealizar os rivais. A crítica deve valer para todos: denunciar a incoerência alheia não torna ninguém justo.

A crise também é um problema de responsabilidades globais. Quando a potência que sustentava parte da ordem deixa de fornecer bens públicos — estabilidade, regras e condições de cooperação — e a emergente não quer ou não consegue assumir esse papel, abre-se um vazio. A China ampliou sua atuação em infraestrutura, indústria e financiamento, mas não demonstra disposição para assumir todas as responsabilidades internacionais. Os Estados Unidos, por sua vez, resistem a que Pequim ocupe o espaço deixado. O resultado pode ser uma ordem fragmentada, com soluções parciais e pouca coordenação.

Seria possível distribuir essas responsabilidades de forma mais plural: instituições europeias contribuindo para normas e regulação, a China ampliando sua atuação industrial e em infraestrutura, e outros países assumindo tarefas compatíveis com sua capacidade e legitimidade. Mas essa divisão não surgirá espontaneamente. Exige diálogo, compromissos verificáveis e cooperação. Sem isso, a multipolaridade poderá significar apenas mais centros de poder em disputa, não uma influência distribuída com mais justiça.

Por isso, o direito internacional importa. Não existe uma polícia mundial com autoridade incontestável, e sua eficácia depende em grande parte do compromisso dos Estados. Essa fragilidade não o torna inútil; torna-o necessário. Sem regras comuns, prevalece a lei do mais forte — de quem dispõe de exércitos, recursos financeiros, tecnologia ou matérias-primas essenciais. O fim de uma hegemonia não garante paz: a competição entre grandes potências também pode produzir guerras e conflitos indiretos.

Defender regras internacionais começa dentro de cada país. Governos que desprezam tribunais, intimidam a imprensa, corroem órgãos de controle ou tratam adversários como inimigos absolutos enfraquecem a ideia de que o poder deve ter limites. Não se pode exigir respeito à lei no exterior enquanto se celebra a exceção em casa. Para países médios como o Brasil, um sistema previsível não é abstração moral: ajuda a proteger interesses, negociar acordos, desenvolver ciência e cooperar sem depender apenas da força.

Canadá e países europeus procuram ampliar sua margem de ação diante das incertezas da política americana e da influência chinesa. Até parceiros tradicionais dos Estados Unidos reconhecem o risco de depender de um único centro de decisão. As potências médias querem negociar com os grandes atores, mas também participar das decisões que as afetam. Não querem que Washington e Pequim administrem o mundo a dois, como se os demais fossem espectadores de um acordo fechado.

O Brasil pode contribuir para uma ordem mais equilibrada se transformar sua posição em ação consistente. Isso exige diversificar relações sem alinhamentos automáticos, fortalecer coalizões, defender instituições multilaterais e investir nas capacidades que dão substância à soberania. A autonomia não se mede pelo número de discursos sobre independência, mas pela possibilidade real de escolher, suportar pressões e sustentar decisões com recursos, conhecimento e legitimidade.

Talvez o mundo não precise de um novo maestro, mas de uma orquestra capaz de tocar sem obedecer cegamente a um único homem. A liberdade de cada músico, sem regras compartilhadas, pode produzir apenas ruído. A multipolaridade será promissora se ampliar participação e responsabilidade; será perigosa se apenas multiplicar centros de coerção. O que está em disputa não é somente a posição dos Estados Unidos ou a ascensão da China, mas a possibilidade de uma ordem em que nenhum país possa fechar a porta aos demais.

A pergunta decisiva não é quem ocupará o trono deixado pela antiga hegemonia, nem se o mundo terá um ou dois donos. É se os países conseguirão limitar o poder, preservar espaço para a diversidade e tratar a cooperação como necessidade, não como favor. Para o Brasil, isso significa menos deslumbramento com as potências e mais investimento na própria capacidade de agir. O mundo mudou; resta saber se a política transformará essa mudança em oportunidade compartilhada, em vez de apenas trocar os protagonistas de uma disputa antiga.

Palmarí H. de Lucena