A Onda que Ficou

A Onda que Ficou

A primeira vez que vi A Grande Onda de Kanagawa, de Hokusai, foi no Japão, no inverno de 1969. Não sei se ainda consigo lembrar exatamente de tudo. A memória, depois de tantos anos, parece uma casa antiga: algumas portas permanecem abertas, outras emperram, e há quartos inteiros que desaparecem sem aviso. Mas do frio eu me lembro.

Era um inverno severo em Gifu-Ken. Eu caminhava pelas ruas geladas, com os passos cuidadosos de quem aprende a respeitar o chão. O ar frio entrava pelos pulmões, as casas e as ruas pareciam recolhidas dentro daquele inverno japonês. E, no entanto, alguma coisa ardia dentro de mim: A Onda.

Não a onda verdadeira, dessas que chegam à praia e se desfazem diante dos nossos pés. Era a Onda, feita de tinta, papel, imaginação e tempo. Uma onda que vinha de longe, de outro século, e que, por alguma razão que nunca consegui explicar inteiramente, decidiu ficar comigo.

Talvez fosse a sua força. Talvez o movimento. Talvez aqueles pequenos barcos, tão frágeis diante da imensidão. Ou talvez fosse o Monte Fuji, lá ao fundo, quieto como quem sabe que todas as tempestades passam.

A onda parecia gritar.

A montanha não dizia nada.

Talvez a vida seja um pouco assim: fazemos muito barulho enquanto atravessamos os nossos dias e, ao longe, alguma coisa permanece em silêncio, esperando que entendamos.

Caminhei por muitas ruas desde então. Passei por cidades que talvez já não reconhecesse, conheci pessoas que chegaram para ficar e outras que permaneceram apenas o tempo suficiente para se tornarem saudade. Vi amizades nascerem, amores se transformarem, anos desaparecerem. A vida tem esse hábito curioso de passar enquanto a gente está ocupada vivendo.

Mas A Onda ficou.

Acompanhou-me pelos lugares por onde passei, como um marco permanente entre tantas memórias passageiras.

E, quando penso nisso, penso também em Michiko.

Minha filha nasceu em 1968. Quando estive no Japão, naquele inverno de 1969, ela ainda era muito pequena. Eu não poderia imaginar que, tantos anos depois, aquela onda japonesa e a lembrança de minha filha se encontrariam dentro de mim.

Michiko não viveu comigo. Digo isso com a simplicidade das coisas que, embora simples de dizer, carregam uma vida inteira dentro delas. Não compartilhamos o cotidiano. Não estive presente em todos os seus dias, não conheci cada manhã, cada descoberta, cada detalhe da vida que foi se formando enquanto o tempo seguia seu caminho.

Mas aprendi, com os anos, que a distância não é uma medida exata do amor.

Há pessoas que vivem ao nosso lado e passam despercebidas. E há outras que, mesmo distantes, ocupam um lugar que ninguém mais poderia ocupar.

Michiko chegou à minha vida.

E ficou.

De outra maneira.

Com outra presença.

Mas ficou.

Talvez seja por isso que hoje associo, em minha memória, Michiko e A Onda.

A onda veio até mim pela arte.

Michiko veio até mim pela vida.

Uma atravessou séculos.

A outra atravessou a minha existência.

A onda ficou guardada na memória. Michiko ficou guardada no coração. Ambas me ensinaram, cada uma à sua maneira, que algumas coisas não precisam estar diante dos nossos olhos para continuar existindo dentro de nós.

Hoje, quando volto a olhar para A Onda, vejo muito mais do que o Japão. Vejo o inverno de 1969, as ruas geladas de Gifu-Ken e um homem mais jovem caminhando pelo frio, sem saber quais imagens sobreviveriam aos anos. Vejo os lugares por onde passei, as pessoas que conheci, as perdas e os reencontros.

E vejo Michiko.

A vida, afinal, parece mesmo feita de ondas. Algumas chegam devagar. Outras nos surpreendem. Algumas nos derrubam. Outras passam sem deixar vestígios. Mas existem aquelas que chegam e, por alguma razão misteriosa, nunca mais vão embora.

A Onda ficou comigo.

E Michiko também.

Não da mesma maneira.

Não no mesmo espaço.

Não na mesma proximidade.

Mas nas regiões profundas onde a memória e o amor parecem falar a mesma língua.

Depois de tantos anos, ainda caminho, de vez em quando, pelas ruas geladas de GifuKen.

Caminho apenas pela memória.

E, ao meu lado, continua A Onda.

E, em algum lugar dentro dela, continua Michiko.

Algumas coisas passam.

Outras ficam.

Palmarí H. de Lucena, 29.08.2026