A Nova Linguagem do Poder

A Nova Linguagem do Poder

Durante grande parte do século XX, as nações mediam sua influência pelo tamanho de seus exércitos, pela extensão de seus territórios ou pela capacidade de projetar força além de suas fronteiras. No século XXI, entretanto, a linguagem do poder mudou. Ela passou a ser escrita em tarifas, regulamentações, sanções financeiras, classificações de risco e controles sobre fluxos econômicos globais.

A recente proposta do governo Donald Trump de impor tarifas de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros é um exemplo dessa transformação. Formalmente, trata-se de uma disputa comercial. Politicamente, porém, ela revela algo maior: a crescente fusão entre economia, segurança e influência geopolítica.

A medida foi apresentada como resposta a preocupações relacionadas à propriedade intelectual, corrupção, acesso a mercados e questões ambientais. Essas justificativas seguem instrumentos legais previstos na legislação americana e fazem parte de uma tendência observada em diversas economias avançadas. Ainda assim, seria difícil ignorar o contexto político em que a decisão foi anunciada.

As relações entre Brasil e Estados Unidos atravessam um período de redefinição. A afinidade política que marcou a relação entre Donald Trump e Jair Bolsonaro criou uma conexão que ultrapassou a diplomacia tradicional e passou a integrar um fenômeno mais amplo: a formação de redes ideológicas transnacionais capazes de influenciar o debate público em diferentes países simultaneamente.

É importante distinguir percepção de evidência. Até o momento, não existem informações públicas que demonstrem participação direta do ex-presidente Bolsonaro, de integrantes de sua família ou de seus aliados na formulação das medidas tarifárias anunciadas por Washington. Contudo, na política internacional, os fatos raramente operam isoladamente. Eles convivem com narrativas, interpretações e simbolismos que moldam a forma como decisões são recebidas e compreendidas.

A pergunta relevante talvez não seja se as tarifas possuem motivação exclusivamente econômica ou exclusivamente política. O mundo contemporâneo tornou essa distinção cada vez mais difícil. O comércio tornou-se uma extensão da política externa. A segurança nacional tornou-se uma variável econômica. E a reputação institucional passou a influenciar mercados tanto quanto indicadores fiscais ou monetários.

Nesse ambiente, outro debate vem ganhando importância: a crescente associação entre crime organizado transnacional e segurança econômica.

Discussões sobre a eventual classificação de organizações criminosas latino-americanas como entidades terroristas ilustram essa mudança de paradigma. Embora qualquer decisão dessa natureza dependa de processos legais específicos e de avaliações soberanas por parte dos governos envolvidos, especialistas em regulação financeira observam que medidas desse tipo podem produzir efeitos que vão muito além do combate ao crime.

O impacto mais significativo frequentemente não ocorre no campo policial, mas na arquitetura invisível que sustenta a economia global. Bancos ampliam mecanismos de monitoramento. Instituições financeiras revisam protocolos de conformidade. Investidores reavaliam exposições. Seguradoras recalculam riscos. Operadores logísticos adaptam procedimentos.

Nenhum desses movimentos representa, por si só, uma condenação econômica. Tampouco estabelece qualquer vínculo entre atividades criminosas e a economia formal de um país. Ainda assim, eles influenciam a percepção internacional de risco — e, no sistema financeiro contemporâneo, percepção é um fator econômico de primeira ordem.

A globalização criou uma realidade peculiar. As fronteiras permanecem visíveis nos mapas, mas os riscos se tornaram transnacionais. Uma decisão regulatória tomada em Washington pode alterar custos operacionais em São Paulo. Uma classificação jurídica emitida em outra jurisdição pode repercutir em fluxos de investimento, contratos de financiamento ou exigências de compliance em múltiplos continentes.

O Brasil encontra-se precisamente nesse ponto de interseção.

A questão não se resume às tarifas atualmente em discussão. Tampouco se limita ao debate sobre segurança pública ou crime organizado. O desafio consiste em compreender que a competição internacional passou a ocorrer simultaneamente em diversos planos: econômico, regulatório, tecnológico, financeiro e institucional.

Em um cenário global caracterizado por incertezas crescentes, países não competem apenas por mercados. Competem por confiança.

Confiança de investidores. Confiança de parceiros comerciais. Confiança de instituições multilaterais. Confiança de sistemas financeiros que operam com base na avaliação permanente de riscos.

Essa talvez seja a principal lição do momento atual. As grandes disputas internacionais do século XXI raramente serão travadas por meio de confrontos diretos. Elas ocorrerão através de mecanismos mais sofisticados e frequentemente menos visíveis: barreiras regulatórias, critérios de segurança, avaliações reputacionais, restrições financeiras e instrumentos comerciais.

O poder contemporâneo raramente chega sob a forma de ultimatos. Ele costuma se apresentar como norma técnica, relatório de risco, investigação regulatória ou ajuste tarifário.

E é justamente por isso que seus efeitos podem ser tão profundos.

As manchetes de hoje discutem percentuais de tarifas e disputas diplomáticas. Mas a história mais importante talvez esteja acontecendo em outro lugar. Ela diz respeito à forma como a economia global está sendo reorganizada em torno de novos conceitos de segurança, influência e governança.

Quando o comércio passa a funcionar como instrumento de poder, a questão deixa de ser apenas quem vende ou quem compra. A questão passa a ser quem define as regras.

E, em última análise, quem possui a capacidade de transformar essas regras em influência duradoura.

Palmarí H. de Lucena