A história se repete, mas nunca da mesma forma. O embate comercial entre Estados Unidos e China reacende um jogo de forças que pode representar oportunidades estratégicas para o Brasil, mas também incertezas. Com o recente aumento de tarifas entre as duas potências, o país volta a assumir um papel de destaque no fornecimento de soja para o gigante asiático. No entanto, a experiência ensina que vantagens aparentes nem sempre se traduzem em benefícios sustentáveis.
O Brasil já viveu situação semelhante quando, em meio às disputas comerciais do governo Trump, a China elevou as barreiras contra os grãos americanos e se voltou para o mercado brasileiro. O resultado foi um aumento nos prêmios pagos pela soja nacional. Agora, com novas taxações — os EUA aplicando 25% sobre produtos chineses e a China retaliando com 10% sobre a soja americana —, a expectativa é de ganhos moderados. O cenário atual, porém, difere de 2018, quando a pressão tarifária era mais intensa e impulsionou um crescimento acelerado das exportações brasileiras.
No campo, a cautela prevalece. Em Sorriso (MT), cidade-símbolo do agronegócio, os produtores reconhecem os efeitos imediatos dessas medidas, mas evitam euforia. O custo de produção contínua alto, a volatilidade cambial preocupa e a concorrência da Argentina, que reduziu temporariamente impostos sobre exportação, exige atenção redobrada. A soja brasileira pode, sim, ganhar mercado, mas sem as mesmas garantias do passado.
A postura da China também mudou. Diferente de 2018, quando agiu de forma agressiva, agora Pequim adota um posicionamento mais estratégico, impondo tarifas menores para evitar grandes oscilações nos preços globais da commodity. O objetivo parece claro: reduzir a dependência dos grãos americanos sem inflacionar a soja brasileira.
Mesmo com previsões indicando um aumento nas exportações nacionais para a China — estimado em US$ 491 milhões —, a recomendação dos especialistas é prudência. O diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Cereais (Anec), Sérgio Mendes, alerta para a necessidade de acompanhar os desdobramentos com parcimônia. Já Maurício Buffon, presidente da Aprosoja Brasil, reforça que oscilações de mercado podem criar ilusões de lucro que, no médio prazo, não se sustentam.
Para os produtores de soja dos Estados Unidos, o cenário é desafiador. A soja, principal cultura de exportação do país, sofre impactos diretos das tensões comerciais, especialmente em relação à China, seu maior comprador. “As interrupções no fluxo de comércio afetam diretamente os produtores, que lidam com frustrações acumuladas desde as últimas disputas tarifárias”, afirmou Caleb Ragland, presidente da American Soybean Association (ASA). Ele também destacou que os agricultores americanos não veem as tarifas como uma estratégia eficiente de negociação e são contrários ao seu uso contínuo.
Além da China, México e Canadá figuram entre os principais compradores da soja americana. O México, em particular, é o segundo maior importador de grãos, farelo e óleo de soja dos EUA, enquanto o Canadá ocupa a quarta posição na aquisição de farelo. A interdependência comercial, porém, vai além da soja: os EUA importam do Canadá grande parte de seus insumos agrícolas essenciais, como potássio e equipamentos.
Diante desse contexto, a ASA pediu à administração americana que reavalie as tarifas e busque alternativas mais eficientes para resolver os impasses comerciais. No entanto, o segundo mandato de Trump trouxe uma nova onda de sanções. Recentemente, foram anunciadas tarifas de 25% sobre importações do México e do Canadá, além de uma taxa adicional de 10% sobre produtos chineses. Em resposta, o Canadá pretende tarifar US$ 100 bilhões em produtos americanos, enquanto a China anunciou sanções de 10% sobre a soja dos EUA e novas restrições ao mercado. O México também sinalizou represálias, cujos detalhes ainda não foram divulgados.
Na tentativa de conter os impactos dessa escalada, o governo americano adiou por um mês a aplicação de tarifas de 25% sobre veículos importados do Canadá e do México e postergou até 2 de abril a taxação de outros produtos contemplados no Acordo EUA-México-Canadá (USMCA). Entretanto, as tarifas impostas à China continuam em vigor, aumentando as incertezas no setor agrícola.
O Brasil colhe nesta safra um volume recorde de 166 milhões de toneladas, um número que, em teoria, favorece as exportações para a China. Mas o mercado global não se define apenas pelo volume disponível. A concorrência internacional e as decisões políticas são fatores cruciais nesse jogo. Para o produtor brasileiro, o momento exige mais do que otimismo: é preciso estratégia para transformar as oportunidades de hoje em ganhos sustentáveis no futuro.
Palmarí H. de Lucena