Está em curso no Brasil uma curiosa metamorfose do conceito de patriotismo. Emergiram, nos últimos anos, novos “patriotas” que, em vez de defenderem a soberania, a democracia e o interesse coletivo, optaram por se alinhar a agendas estrangeiras, difundir desinformação e sabotar o próprio país. Alguns deles foram eleitos para representar o povo brasileiro — mas abandonaram seus mandatos, cruzaram o oceano e hoje se encontram nos Estados Unidos, amparados por passaportes diplomáticos e uma retórica de exílio que nada mais é do que fuga em tempo de revelia.
Esses atores, enquanto ainda usufruem de benefícios estatais, incluindo imunidades e verbas públicas, atuam para denegrir a imagem do Brasil no exterior. Participam de encontros com setores ultraconservadores ligados ao trumpismo, pedem sanções contra a economia nacional e fomentam, desde fora, o que poderia se chamar de um “golpe branco”: um projeto de desestabilização interna movido por ressentimento eleitoral e interesse próprio.
Na prática, esse comportamento se aproxima da figura jurídica da infidelidade representativa e, em casos extremos, de crime contra a segurança nacional. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 4º, estabelece como fundamento da República a independência nacional e a prevalência dos interesses brasileiros nas relações internacionais. Utilizar a estrutura diplomática brasileira para conspirar contra o país é um escárnio — e deveria ser tratado como tal.
Ironicamente, esses mesmos personagens justificam sanções e retaliações americanas como se fossem fruto exclusivo de “provocações” do presidente Lula e do Partido dos Trabalhadores. Ignoram — ou fingem ignorar — que países como Alemanha, França, Canadá e México também enfrentaram medidas tarifárias e pressões políticas unilaterais por parte do governo Trump, sem jamais recorrerem à autoflagelação de sua soberania nacional. Seria então o México um “provocador”? A União Europeia também? Ou será que o problema está no modelo hegemônico e instável de Washington?
É grave — e triste — que figuras públicas brasileiras se regozijem com mentiras que empobrecem o povo, desde que atinjam seus adversários políticos. Apelam para “denúncias internacionais”, buscando constranger as instituições nacionais e deslegitimar o voto popular. Chamam-se de “patriotas”, mas defendem sanções econômicas contra o Brasil, aplaudem governos que deportam e vilificam opositores, e se calam quando jornalistas são perseguidos por regimes que admiravam — desde que fossem contra a esquerda.
A história nos mostra que o apelo ao estrangeiro contra os interesses nacionais não é novo. Desde a Confederação do Equador até os conchavos da ditadura militar com os Estados Unidos durante a Guerra Fria, o Brasil já viu elites pedirem intervenção externa para preservar seus privilégios. A diferença agora é o disfarce: fazem-se de vítimas para evitar responder à Justiça, enquanto atentam contra a democracia de longe, cercados de confortos e vistos diplomáticos.
Mas há um limite. O Brasil pode — e deve — revisar o uso abusivo de passaportes diplomáticos, cancelar regalias imerecidas e considerar, à luz da Lei 13.260/2016 (Lei Antiterrorismo), se as ações desses exilados voluntários não se enquadram em atos de sabotagem ou incitação à desordem institucional.
Por fim, vale lembrar: enquanto esses falsos patriotas conspiram de fora, o povo brasileiro segue enfrentando as dificuldades de sempre — com dignidade e esperança. E é esse povo, soberano nas urnas, que sustenta a República. Quem verdadeiramente ama o Brasil não trama contra ele, não vende sua imagem, e tampouco foge carregando o brasão no bolso, enquanto semeia a discórdia em nome de uma pátria que já renegou.