A Nova Era da Desinformação: Trump e a Verdade Distorcida

A Nova Era da Desinformação: Trump e a Verdade Distorcida

No dia de sua posse, Donald Trump fez um discurso inaugural com poucas afirmações factualmente erradas, limitando-se a retórica vaga, promessas subjetivas e declarações impossíveis de verificar. No entanto, logo depois, iniciou uma onda de desinformação.

Em um discurso improvisado para apoiadores no Capitólio, seguido por outra fala na Capital One Arena e por declarações a jornalistas no Salão Oval, Trump espalhou falsas alegações sobre eleições, imigração e a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, entre outros temas. Aqui estão algumas das principais afirmações incorretas proferidas por ele e os fatos que as desmentem.

Economia e Comércio

Trump repetiu a alegação falsa de que os EUA arrecadaram “centenas de bilhões de dólares da China” através das tarifas impostas durante seu primeiro mandato. Na realidade, são os importadores americanos que pagam essas tarifas, e estudos mostraram que os consumidores nos EUA foram os principais prejudicados pelos custos adicionais. Além disso, Trump alegou que nenhum presidente antes dele havia imposto tarifas sobre produtos chineses, o que é factualmente incorreto. Os EUA impõem tarifas sobre importações chinesas desde 1789, e Barack Obama, seu antecessor, também implementou tarifas adicionais.

Trump também mentiu ao afirmar que a União Europeia “não aceita quase nada” dos EUA. Em 2023, os EUA exportaram mais de 639 bilhões de dólares em bens e serviços para a UE, incluindo 12,3 bilhões em produtos agrícolas. Além disso, a União Europeia é o segundo maior mercado para exportação de veículos americanos, totalizando quase 9 bilhões de euros em 2022.

Imigração e Fronteira

Trump afirmou repetidamente que migrantes estão vindo de prisões e instituições psiquiátricas estrangeiras, alegando que governos de outros países “esvaziaram” essas instalações e enviaram seus ocupantes aos EUA. No entanto, não há evidências que corroborem essa alegação. O número total de prisioneiros no mundo aumentou entre 2021 e 2024, e especialistas em políticas criminais afirmam que não há indícios de que nações estejam deliberadamente enviando presos aos EUA.

Ele também alegou que a Venezuela teria “removido criminosos das ruas” e os enviado para os EUA, o que não tem qualquer sustentação em dados oficiais ou análises independentes. Outra afirmação enganosa foi a de que ele construiu “571 milhas de muro” na fronteira sul durante seu primeiro mandato. O número real, segundo registros governamentais, é de 458 milhas, a maioria delas substituindo barreiras já existentes.

Eleições e o Ataque ao Capitólio

Trump reafirmou a mentira de que a eleição de 2020 foi “totalmente fraudada”. Recontagens, auditorias e investigações independentes confirmaram que a eleição foi livre e justa. Além disso, ele alegou que a ex-presidente da Câmara, Nancy Pelosi, teria recusado sua oferta de enviar 10 mil soldados da Guarda Nacional para proteger o Capitólio no dia 6 de janeiro de 2021. Essa afirmação é falsa. A responsabilidade pela Guarda Nacional de Washington D.C. cabe ao presidente, não ao Congresso, e não há registros de que essa oferta tenha sido feita.

Ele também repetiu a narrativa infundada de que os manifestantes que invadiram o Capitólio eram “agitadores externos” e não apoiadores dele. No entanto, mais de 1.500 pessoas foram presas pelo ataque, e quase todas eram fervorosos apoiadores de Trump, conforme evidenciado por suas próprias declarações e postagens nas redes sociais.

Política Externa e China

Trump alegou que a China “controla o Canal do Panamá” e prometeu retomá-lo para os EUA. A realidade é que o canal é administrado pelo governo panamenho desde 1999, e a maior parte de seus funcionários são cidadãos do Panamá. Embora empresas chinesas operem portos próximos ao canal, a China não tem controle sobre sua administração.

Ele também disse que durante seu mandato conseguiu impedir a China de comprar petróleo do Irã. Embora as importações chinesas de petróleo iraniano tenham diminuído brevemente em 2019, nunca cessaram completamente, e voltaram a subir ainda durante sua presidência.

Conclusão

Trump retornou à presidência mantendo sua prática de distorcer fatos para moldar uma narrativa conveniente. A disseminação sistemática de desinformação tem sido uma marca registrada de seu discurso político, reforçando um cenário onde a verdade se torna secundária em relação à retórica populista. Com a elite econômica e tecnológica se alinhando ao novo governo, resta saber até onde essa dinâmica influenciará as políticas dos próximos anos.

Palmari H. de Lucena