A Nova Economia da Guerra

A Nova Economia da Guerra

A inteligência artificial, os sistemas autônomos e a difusão tecnológica estão redefinindo a natureza do poder militar. Na nova economia da guerra, conhecimento, inovação e capacidade de adaptação tornam-se ativos estratégicos tão importantes quanto tanques, navios ou aeronaves.

A maior transformação da guerra contemporânea talvez não esteja nas armas, mas na economia que as produz.

Durante boa parte do século XX, o poder militar foi consequência direta da capacidade industrial. Quanto maior a economia, maior a indústria pesada; quanto maior a indústria, maior a capacidade de fabricar navios, aviões, tanques e mísseis. A força de uma nação podia ser estimada pela quantidade de aço que era capaz de transformar em poder militar.

Essa lógica começa a mudar.

Os conflitos das últimas décadas indicam que a superioridade estratégica já não depende exclusivamente da posse das plataformas mais sofisticadas, mas da capacidade de integrar inteligência artificial, sistemas autônomos, sensores distribuídos, computação avançada e informação em tempo real. A guerra continua sendo travada por soldados, aeronaves e navios, mas sua vantagem competitiva nasce, cada vez mais, da velocidade com que uma sociedade produz conhecimento e transforma inovação em capacidade operacional.

O que está mudando não é apenas a tecnologia da guerra. É sua economia.

Durante décadas, o principal desafio estratégico consistia em produzir equipamentos superiores aos do adversário. Hoje, a vantagem tende a favorecer quem consegue inovar mais rapidamente, adaptar tecnologias existentes e integrar soluções de baixo custo a sistemas complexos. A competição desloca-se gradualmente da manufatura pesada para a economia do conhecimento.

Essa mudança não representa apenas uma evolução tecnológica. Ela possui dimensão histórica.

A história da guerra pode ser compreendida como uma sucessão de revoluções na relação entre custo e poder. O arco longo vai do arco e flecha à pólvora; da máquina a vapor aos encouraçados; dos motores a combustão aos porta-aviões; da energia nuclear à inteligência artificial. Em cada uma dessas transições, a vantagem não permaneceu necessariamente com quem possuía mais recursos, mas com aqueles que compreenderam primeiro que as regras haviam mudado.

É exatamente isso que parece ocorrer agora.

Durante boa parte do século passado, a superioridade militar repousou sobre a escassez tecnológica. Apenas um pequeno grupo de países possuía capacidade científica, infraestrutura industrial e recursos financeiros suficientes para desenvolver armamentos de ponta.

Hoje, porém, a inovação circula de forma muito mais ampla.

Drones de baixo custo, inteligência artificial, sensores miniaturizados, satélites comerciais, softwares avançados e computação distribuída reduziram significativamente o custo da inovação militar. Tecnologias antes restritas aos maiores orçamentos de defesa passaram a ser desenvolvidas também em universidades, startups, empresas de base tecnológica e centros de pesquisa espalhados pelo mundo.

O resultado é uma alteração importante na relação entre investimento e poder.

Contestar uma potência militar continua sendo extremamente difícil. No entanto, tornou-se relativamente menos custoso impor perdas relevantes a sistemas militares de altíssimo valor econômico.

Isso não elimina a superioridade das grandes potências. O que parece desaparecer é a possibilidade de conservar uma superioridade tecnológica incontestável por longos períodos. O conhecimento circula rápido demais.

Essa transformação possui implicações relevantes para países de porte intermediário, como o Brasil.

Durante décadas, modernizar as Forças Armadas significou adquirir plataformas produzidas pelo complexo industrial das grandes potências. A nova economia da guerra sugere uma estratégia diferente.

Em vez de perseguir continuamente a aquisição de equipamentos cada vez mais caros, países com universidades consolidadas, capacidade industrial e massa crítica de pesquisadores podem investir prioritariamente na construção de um ecossistema nacional de inovação em defesa. Inteligência artificial, guerra eletrônica, drones autônomos, sensores avançados, sistemas espaciais, cibersegurança, semicondutores, computação de alto desempenho e integração digital tendem a produzir efeitos multiplicadores.

Essa estratégia dificilmente produzirá igualdade militar com as grandes potências, mas pode reduzir assimetrias relevantes, fortalecer a capacidade nacional de dissuasão e ampliar significativamente a autonomia estratégica.

Países que dominam inteligência artificial, microeletrônica, engenharia de software, tecnologias espaciais, materiais avançados e sistemas autônomos fortalecem simultaneamente sua produtividade, sua competitividade industrial, sua capacidade científica e sua segurança nacional. Na nova economia da guerra, política industrial, política científica e estratégia de defesa tornam-se diferentes dimensões de um mesmo projeto nacional.

Ao longo da Revolução Industrial, riqueza produziu poder. Durante a Guerra Fria, capacidade nuclear produziu dissuasão. No século XXI, conhecimento tende a produzir autonomia estratégica.

A verdadeira corrida armamentista do nosso tempo talvez não esteja acontecendo nas linhas de montagem de tanques, nos estaleiros navais ou nas fábricas de aeronaves. Ela acontece silenciosamente em laboratórios de inteligência artificial, universidades, centros de pesquisa, empresas de tecnologia e ecossistemas nacionais de inovação.

A nova economia da guerra não eliminou a importância do poder militar. Apenas deslocou sua origem. O poder continua decisivo. Mas, cada vez mais, ele nasce muito antes do campo de batalha. Nasce onde ciência, inovação, indústria e estratégia passam a formar a verdadeira infraestrutura da soberania nacional.

Palmarí H. de Lucena