A nostalgia dos heróis

A nostalgia dos heróis

Há livros que sobrevivem porque contam boas histórias. Outros atravessam os séculos porque jamais deixam de suscitar perguntas. A Odisseia, de Homero, pertence a essa segunda categoria. Durante quase três milênios, leitores de épocas e culturas distintas retornaram às aventuras de Ulisses não para descobrir o desfecho de sua viagem — conhecido desde a Antiguidade —, mas para compreender melhor o mundo e, sobretudo, a si mesmos.

Cada época encontra um Ulisses diferente. Para os gregos, ele era a inteligência capaz de triunfar onde a força se revelava insuficiente. A Idade Média fez dele um símbolo da curiosidade humana; o Renascimento viu nele o explorador que desafia as fronteiras do desconhecido. Nós, porém, parecemos preferir outro personagem: um homem perseguido pela própria consciência, dividido entre aquilo que realizou e aquilo que acredita ter perdido ao longo do caminho.

Essa transformação diz menos sobre Homero do que sobre nós.

Durante séculos, o herói foi reconhecido por sua capacidade de decidir. Sua grandeza não residia na ausência de falhas, mas na clareza do propósito. Sabia que toda escolha produz perdas e, ainda assim, aceitava o risco de agir. A coragem consistia justamente nisso: assumir as consequências sem permitir que o arrependimento anulasse a ação.

Hoje, olhamos essa figura com evidente desconfiança. Personagens excessivamente seguros parecem artificiais; convicções firmes frequentemente são confundidas com autoritarismo. Em seu lugar, preferimos protagonistas inquietos, vulneráveis, marcados por conflitos interiores. Não basta derrotar monstros. É preciso enfrentar, antes de tudo, as próprias sombras.

Tal preferência explica por que tantas releituras dos clássicos transformam seus protagonistas em homens consumidos pela culpa. O guerreiro converte-se em sobrevivente; o estrategista, em penitente. A viagem deixa de ser apenas geográfica e torna-se uma travessia interior. O retorno ao lar transforma-se, antes de tudo, em um julgamento silencioso da própria consciência.

Entretanto, basta regressar ao poema de Homero para perceber outro horizonte. Ulisses não é um santo nem um filósofo. Mente, engana, hesita e sofre. Sua inteligência, contudo, nunca se afasta de um objetivo essencial: sobreviver, proteger sua família e restaurar a ordem desfeita pela guerra. Talvez seja precisamente essa simplicidade moral que hoje nos desconcerte.

Quando finalmente alcança Ítaca, Ulisses encontra algo mais grave do que um palácio ocupado. Descobre uma sociedade corroída pela ausência daqueles que deveriam educar pelo exemplo. Os pretendentes de Penélope não representam apenas uma ameaça ao trono; simbolizam uma geração que cresceu confundindo privilégio com mérito, poder com intimidação e liberdade com ausência de limites.

É difícil não reconhecer nessa imagem um espelho de diferentes épocas. Nenhuma sociedade permanece íntegra quando suas referências morais desaparecem. O vazio deixado pelas lideranças quase nunca permanece vazio por muito tempo. Ele costuma ser preenchido pela arrogância, pelo espetáculo e por formas cada vez mais sofisticadas de mediocridade.

Talvez a verdadeira questão da Odisseia nunca tenha sido o retorno de um homem, mas a reconstrução de uma casa. Afinal, uma civilização não se mede apenas por sua capacidade de vencer guerras, e sim pela habilidade de preservar lares, transmitir valores e preparar seus filhos para receber um mundo menos desordenado do que aquele que herdou.

Nesse aspecto, Homero continua surpreendentemente moderno. Seu poema sugere que destruir exige força; reconstruir exige caráter. A vitória decisiva não acontece diante das muralhas de Troia, mas no esforço paciente de restaurar aquilo que a violência tornou precário.

É curioso observar que, enquanto os antigos admiravam homens capazes de conciliar virtude e responsabilidade, nós frequentemente celebramos personagens definidos por suas fraturas emocionais. Como se a consciência da culpa pudesse substituir a coragem da ação. O herói contemporâneo tornou-se alguém que compreende profundamente seus erros, mas nem sempre encontra forças para agir com a mesma convicção.

Não se trata de defender figuras infalíveis — elas jamais existiram. O próprio Ulisses está longe da perfeição. O que o distingue não é a ausência de erros, mas a disposição de responder por eles sem transformar a culpa em identidade permanente nem o sofrimento em espetáculo moral.

Talvez seja essa a razão pela qual os clássicos permanecem inesgotáveis. Eles não oferecem respostas prontas; devolvem perguntas cada vez mais difíceis. A mais desconcertante delas talvez seja também a mais simples: deixamos de acreditar nos heróis porque eles desapareceram ou porque já não reconhecemos as virtudes que os definiam?

É possível que nossa época não sofra propriamente da falta de homens extraordinários. Talvez lhe falte algo mais elementar: a capacidade de distinguir fama de grandeza, influência de autoridade moral, sucesso de caráter.

Se for assim, a longa viagem de Ulisses ainda continua. Não pelos mares do Mediterrâneo, mas no interior das sociedades que precisam decidir quais exemplos desejam transmitir às gerações futuras. Porque, no fim, nenhuma civilização é salva apenas pela coragem de seus heróis. Ela sobrevive, sobretudo, pela qualidade das virtudes que escolhe preservar.

Palmarí H. de Lucena