Imaginemos Paul Verlaine numa tarde enevoada de Paris, inclinado sobre um livro vindo de além-mar: A Casa e Seus Arredores, de Sergio de Castro Pinto. Ele não o abriria em busca de exotismos tropicais, mas de música. Sempre a música. Seus olhos cansados, habituados às brumas do Sena e às sombras do fim de século, reconheceriam quase de imediato uma escrita que prefere sugerir a afirmar, que trabalha com a respiração do verso em vez da sua musculatura.
Verlaine desconfiava do excesso de eloquência. Para ele, o poema não deveria ser um discurso, mas um sopro. Ao percorrer as páginas do poeta paraibano, encontraria uma dicção contida, econômica, feita de silêncios que pesam mais do que adjetivos. Há ali uma atenção ao detalhe mínimo — a casa, o entorno, o objeto cotidiano — que se transforma em atmosfera. O mundo não é descrito; é insinuado.
Talvez lhe agradasse essa recusa da grandiloquência. A poesia de Sergio de Castro Pinto não levanta a voz. Ela baixa o tom, aproxima o leitor, confia na inteligência sensível de quem lê. Nesse gesto, há algo profundamente verlainiano: a crença de que a verdade do poema reside na nuance, não na cor berrante; na vibração interna, não na proclamação.
As diferenças de tempo e espaço são evidentes. Verlaine escreve sob a tensão moral e estética da Paris fin-de-siècle; Sergio escreve sob o céu luminoso da Paraíba contemporânea. Mas a afinidade não depende da geografia. Depende da atitude diante da palavra. Ambos parecem saber que o poema é menos uma afirmação do mundo do que uma escuta.
Se tivesse de resumir sua impressão, Verlaine talvez o fizesse com parcimônia, quase num bilhete: há aqui música suficiente para que o silêncio faça sentido. E, fechando o livro, reconheceria que, entre França e Paraíba, a verdadeira ponte não é histórica nem literária — é sonora.
Por Palmarí H. de Lucena