A Mulher Que Salvou uma Queda d’Água

Photo by Palmarí H. de Lucena
A Mulher Que Salvou uma Queda d’Água

Da Islândia à Paraíba, a eterna disputa: o valor da paisagem diante da ambição humana
Há histórias que permanecem vivas porque anunciam o futuro.
Sigríður í Brattholti, uma mulher de origem simples nascida na Islândia no final do século XIX, tornou-se símbolo de resistência ao impedir que a catarata de Gullfoss fosse transformada em usina.
Enquanto engenheiros e empresários viam ali uma oportunidade de energia e lucro, Sigríður enxergava um patrimônio espiritual.
Caminhou sozinha até Reykjavík para protestar, enfrentando o frio e o descaso.
Prometeu lançar-se no abismo antes de ver o rio aprisionado por turbinas.
E venceu.
Gullfoss permanece livre até hoje — monumento à teimosia de uma mulher que, sem imaginar, inaugurou o ambientalismo islandês.

Mais de um século depois, o embate ressurge sob outro clima e sotaque.
Na orla de João Pessoa, trava-se uma disputa menos épica, mas igualmente simbólica.
A Paraíba foi pioneira na proteção de seu litoral ao estabelecer, desde 1970, limites de altura para construções próximas à praia — regra depois consagrada na Constituição Estadual de 1989, tornando-se o único Estado litorâneo a conter a especulação imobiliária.
Essa conquista histórica preservou a paisagem e a biodiversidade da capital, garantindo à cidade o raro privilégio de um horizonte ainda desobstruído.

No entanto, o poder público, em vez de fortalecer esse legado, tenta agora enfraquecê-lo.
Sob o argumento do “desenvolvimento”, surgem propostas de flexibilizar o gabarito e permitir espigões à beira-mar.
A promessa é de progresso; o resultado previsível é a descaracterização de uma das orlas mais belas e humanas do país.
O que se apresenta como modernização é, na verdade, a capitulação diante da pressão do capital imobiliário — uma aliança espúria entre prefeitos e construtoras, em que o interesse público é a primeira vítima.

A invasão dos espaços coletivos segue o mesmo roteiro: quiosques ampliados sem critério, calçadas tomadas por mesas e carros, áreas verdes transformadas em canteiros de concreto — tudo sob o olhar complacente, quando não cúmplice, da Prefeitura.
Em nome do turismo e da “geração de empregos”, destrói-se o que justamente sustenta o turismo e a qualidade de vida: a paisagem, o equilíbrio ambiental e o direito de usufruto comum.
O espaço público, que deveria ser o ponto de encontro da cidadania, é privatizado aos poucos, com o aval de quem deveria defendê-lo.

A Mata do Altiplano, devastada em nome de “empreendimentos sustentáveis”, tornou-se símbolo desse falso progresso.
O desmatamento não é apenas uma ferida ecológica — é um atentado moral e político, sustentado por um pacto silencioso entre poder e negócio.
A destruição do verde compromete o equilíbrio climático, reduz a permeabilidade do solo e agrava o calor urbano. Mas, sobretudo, corrompe o espírito coletivo: aquele sentimento de pertencimento que transforma uma cidade em comunidade.

Sigríður í Brattholti lutou sozinha para proteger uma queda d’água.
Nós, tantas vezes, assistimos calados à queda de nossos valores.
A Islândia ergueu monumentos à mulher que disse “não” à destruição; nós erguemos espigões que dizem “sim” a tudo — até ao irreversível.

Proteger a orla de João Pessoa é proteger um modo de existir.
O verdadeiro progresso não se mede pela altura dos edifícios, mas pela capacidade de preservar horizontes, rios, árvores e ventos.
Quando o poder público se torna sócio da devastação, cabe à sociedade civil resistir — com voz, mobilização e vigilância.
É dela, e apenas dela, que pode brotar a força moral capaz de deter a privatização disfarçada de modernidade e resgatar o sentido coletivo da palavra “cidade”.

Como Sigríður, precisamos reaprender a dizer não — antes que o mar, a mata e a dignidade virem lembrança.

Por Palmarí H. de Lucena