A morte prematura da esquerda: diagnóstico apressado ou alerta legítimo?

A morte prematura da esquerda: diagnóstico apressado ou alerta legítimo?

Falar em “morte prematura da esquerda” tornou-se, nos últimos meses, um lugar-comum confortável — especialmente entre analistas que leem a política como placar esportivo. Resultados eleitorais adversos nos Estados Unidos, o avanço de forças conservadoras na Europa e a reorganização da direita no Brasil alimentam a tese de que a esquerda estaria condenada por exaustão. Mas talvez o erro esteja menos no prognóstico e mais na pressa do atestado de óbito.

O que parece em crise não é a esquerda como tradição política, mas um modo específico de fazer campanha, governar e se comunicar. Confundir isso com morte é, no mínimo, precipitado. Ideias políticas raramente desaparecem; elas mudam de forma, linguagem e alianças. Quando perdem força, não é porque “acabaram”, mas porque deixaram de responder, com eficácia, às ansiedades do seu tempo.

É inegável que o discurso do medo — a narrativa de que a direita representa um apocalipse democrático iminente — perdeu poder mobilizador. Repetido à exaustão, tornou-se previsível. Para muitos eleitores, soou mais como autoproteção do establishment do que como alerta legítimo. Quando o cotidiano pesa, quando o custo de vida sobe, quando serviços públicos falham, o eleitor tende a cobrar solução antes de aceitar sermão.

Mas daí a decretar a morte da esquerda há um salto lógico perigoso. A história política mostra que campos ideológicos não morrem por desgaste retórico. Morrem, quando morrem, por incapacidade prolongada de se reinventar — e mesmo assim costumam ressurgir sob novas formas. A social-democracia europeia já foi dada como morta mais de uma vez; o mesmo ocorreu com o liberalismo, o conservadorismo e até com o Estado nacional. Nenhum deles desapareceu.

O avanço da direita no Ocidente também não é homogêneo nem definitivo. Em muitos casos, ele expressa mais um voto de punição do que uma adesão ideológica profunda. É o voto do “chega”, não necessariamente o voto do “creio”. Esse tipo de movimento é volátil: pode se consolidar, mas também pode se desfazer com a mesma rapidez com que surgiu, caso a promessa de eficiência não se converta em entrega concreta.

No Brasil, o risco de uma derrota da esquerda em 2026 é real — mas não inevitável. Ele cresce quando o governo falha em transformar narrativa em resultados perceptíveis e quando trata o eleitor como alguém que precisa ser convencido do perigo, e não atendido em suas necessidades. Cresce também quando a política se fecha em círculos autorreferentes, mais preocupados em preservar identidade do que em ampliar diálogo.

Ainda assim, falar em morte prematura ignora um dado central: a esquerda continua sendo a linguagem política de demandas que não desapareceram. Desigualdade, mobilidade social, acesso a serviços públicos, proteção social e regulação do Estado seguem no centro da vida real. Enquanto esses temas existirem — e eles não dão sinais de desaparecer — haverá espaço político para uma esquerda que saiba traduzi-los em propostas críveis.

O verdadeiro risco não é a morte da esquerda, mas sua acomodação diante do próprio diagnóstico. Aceitar o rótulo de “morta” pode servir de álibi para não mudar. Questioná-lo, ao contrário, obriga a revisão de métodos, prioridades e linguagem. Não se trata de abandonar valores, mas de recuperar a capacidade de entrega e de escuta.

A esquerda pode perder eleições. Pode atravessar ciclos de baixa. Pode ver seu discurso envelhecer. Tudo isso faz parte da dinâmica democrática. O que ela ainda não fez — e talvez precise fazer com urgência — é provar que sabe viver sem o apocalipse como muleta. Porque, em política, não sobrevive quem grita mais alto sobre o fim do mundo, mas quem consegue melhorar, ainda que um pouco, o mundo real.

Por Palmarí H. de Lucena