Escrevo-vos não para encerrar um percurso, mas para partilhar um exame — sereno, mas exigente — do caminho que tenho trilhado na literatura. Esta carta nasce do mesmo impulso que orienta minha obra: a convicção de que escrever é um ato de responsabilidade e de diálogo, nunca de complacência. Ao dirigir-me a vós, reconheço a comunidade intelectual que me lê, me interpela e, sobretudo, me obriga à autocrítica. O que segue não é defesa nem celebração, mas um esforço de clareza sobre escolhas, limites e insistências que moldam minha escrita — e que permanecem abertas à conversa franca entre pares.
Ao reler minha própria obra com algum distanciamento, percebo que ela nasce menos de um projeto estético fechado e mais de um desconforto persistente. Escrevo porque desconfio do silêncio quando ele se torna acomodação, e porque não acredito na literatura como ornamento. Essa opção, assumida desde o início, é também uma limitação: a urgência ética que me move nem sempre convive harmonicamente com o rigor formal que persigo. Há momentos em que o impulso de dizer tensiona o acabamento do texto — e reconheço isso como um ponto de permanente vigilância.
A memória ocupa o centro da minha escrita, e aqui reside uma ambiguidade que não tento ocultar. Lembrar, para mim, é um gesto crítico, sobretudo num país que naturaliza o esquecimento. No entanto, sei que a insistência memorial pode resvalar para a autorreferência ou para um peso excessivo do passado sobre o presente do texto. Meu esforço é fazer da memória método, não refúgio; confronto, não nostalgia. Nem sempre consigo o equilíbrio desejado, e essa falha também compõe minha autocrítica.
Busco uma linguagem que concilie erudição e oralidade, clareza e densidade. Quando acerto, o texto convida; quando erro, pode exigir mais do leitor do que deveria ou, ao contrário, perder tensão intelectual. Tenho consciência de que escrevo a partir de um repertório que nem sempre é compartilhado integralmente por quem lê. Essa assimetria me acompanha e me obriga a constantes ajustes de tom e ritmo.
As viagens e deslocamentos estruturam parte significativa da minha obra. Nunca as entendi como turismo literário, mas como método de leitura do mundo. Ainda assim, reconheço o limite do olhar de quem passa. O viajante observa, interpreta e segue adiante; há sempre um ponto cego nessa posição. Tento compensá-lo com escuta e contextualização, sabendo que o risco da assimetria nunca desaparece por completo.
No campo do debate público, recuso o panfleto e a estridência. Prefiro a complexidade, a ironia contida, a analogia histórica. Essa escolha, consciente, tem seu custo: em certos momentos, a recusa do tom inflamado pode soar como distanciamento excessivo diante de situações que exigem contundência. Aceito essa tensão como parte da minha ética de escrita — mas não deixo de interrogá-la.
É nesse contexto que a literatura epistolar, especialmente na forma da carta apócrifa, se impôs como escolha central. A carta pressupõe destinatário; nasce da relação, não do monólogo. Ao escrever cartas, mesmo imaginárias, sou obrigado a considerar o outro — alguém que lê, responde, contesta. Em tempos de escrita performática e autorreferente, a carta recoloca a palavra em estado de diálogo.
A carta apócrifa acrescenta um distanciamento fundamental. Ao falar por vozes que não são literalmente minhas — figuras históricas, personagens simbólicos, consciências imaginadas — afasto-me do narcisismo da primeira pessoa direta. O apócrifo não é falsificação, mas mediação. Ele relativiza certezas, introduz ambiguidade e impede que o texto se apresente como portador de uma autoridade absoluta. Dizer por meio do outro é, para mim, uma forma de dizer com mais responsabilidade.
Há também uma razão histórica e ética nessa escolha. A tradição das cartas sempre foi um espaço privilegiado do pensamento crítico. Ao recorrer a ela, dialogo com essa linhagem e, ao mesmo tempo, tento reparar silêncios. A carta apócrifa permite interrogar o passado a partir do presente, recolocando vozes apagadas ou domesticadas em confronto com as continuidades incômodas do agora. Não se trata de reescrever a história, mas de questioná-la.
Formalmente, essa opção reforça minha recusa à pureza dos gêneros. Crônica, ensaio, narrativa e carta se misturam porque acredito que a hibridez amplia o alcance crítico do texto. Reconheço, contudo, que essa escolha pode gerar dispersão e exigir mais esforço do leitor. Nem sempre a arquitetura se revela com a nitidez que eu gostaria — outro ponto de autocrítica que não ignoro.
Se há um fio que costura tudo o que escrevo, é a recusa da indiferença. Mas reconheço também que essa recusa pode se converter em excesso de gravidade. Talvez eu devesse, em certos momentos, permitir mais silêncio, mais respiro, mais ambiguidade. A insistência ética é meu norte; não deveria se tornar um peso.
Em síntese, vejo minha obra como um trabalho em permanente construção, fiel às próprias convicções, mas consciente de seus limites. A autocrítica, para mim, não é renúncia: é método. Escolhi a carta apócrifa porque ela me permite escrever sem gritar, criticar sem desumanizar e dialogar sem simplificar. Escrevo porque sei que a obra nunca está pronta — ela apenas continua, em diálogo constante com o mundo, convosco e comigo mesmo.
Palmarí H. de Lucena
João Pessoa, 23.12.2025