Encontramos nosso amigo Padre Leonel em um pequeno restaurante de La Soledad, em Bogotá. Quase três décadas haviam passado desde a nossa despedida em Nairóbi. O tempo, que costuma apagar rostos, vozes e acontecimentos, naquela tarde parecia ter feito o contrário. Bastou o primeiro olhar para que voltassem as lembranças dos projetos de alhures, das conversas de outros tempos, dos desafios enfrentados juntos e dos perigos das estradas do deserto de Chalbi, no Quênia. Há amizades que o tempo não envelhece. Permanecem guardadas em algum lugar silencioso da memória, à espera de um reencontro.
Depois de ouvir nossas recordações, Padre Leonel disse uma frase que ficou comigo: A memória é o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa. Desde então, tenho pensado muitas vezes nessas palavras. Talvez porque a memória seja uma das poucas formas de manter presentes aqueles que fizeram parte de nossa caminhada. Lembrar alguém é, de certo modo, reconhecer que essa pessoa continua pertencendo à nossa história. Talvez por isso aquela conversa em Bogotá tenha produzido a sensação de que a distância entre Nairóbi e La Soledad não era de milhares de quilômetros, nem de quase trinta anos, mas apenas o intervalo necessário para que a vida nos devolvesse uns aos outros.
Foi naquela ocasião que recebemos do padre o livro Revolución del Perdón. O título despertou nossa curiosidade. Mais do que o nome de uma obra, parecia um convite para pensar o mundo a partir de uma palavra antiga, mas cada vez mais difícil de praticar: perdão.
Padre Leonel Narváez dedicou boa parte de sua vida à construção de caminhos de reconciliação, especialmente por meio da Fundación para la Reconciliación. Seu trabalho parte de uma constatação simples e exigente: enquanto indivíduos e comunidades permanecerem presos ao rancor, ao ódio e ao desejo de vingança, será difícil construir um futuro verdadeiramente diferente. A paz, antes de ser um acordo entre instituições, precisa encontrar algum espaço dentro das pessoas.
Essa reflexão me levou naturalmente a Reconciliação, de José Mário da Silva Branco. O livro amplia a questão para além de uma simples desavença entre pessoas. A reconciliação toca uma dimensão profunda da condição humana, marcada pelo encontro e pelo desencontro, pela amizade e pela ruptura, pela compreensão e pela incompreensão. Somos seres que vivem em relação e, por isso mesmo, estamos sujeitos a ferir e a ser feridos.
Talvez uma das perguntas que a obra de José Mário nos convida a fazer seja justamente esta: o que fazemos depois que alguma coisa se quebra? Uma palavra pode destruir uma amizade; uma injustiça pode separar famílias; uma traição pode modificar para sempre a maneira como enxergamos alguém. Reconstruir não significa retornar ingenuamente ao ponto de partida. Significa reconhecer o que aconteceu e, apesar disso, procurar uma nova possibilidade de convivência. A reconciliação não apaga a história; procura impedir que a história termine na ferida.
Há nessa perspectiva uma dimensão interior que merece atenção. Muitas vezes somos implacáveis com as pessoas que fomos no passado. Carregamos erros, omissões e escolhas que gostaríamos de modificar, como se tivéssemos obrigação de possuir, ontem, a consciência que somente adquirimos com os anos. Reconciliar-se consigo mesmo não é justificar os próprios erros, mas reconhecê-los sem permitir que se transformem em condenação permanente. O passado pode ser professor, mas não precisa ser carcereiro.
É nesse ponto que a reflexão de José Mário encontra a experiência de Padre Leonel. Um nos conduz pela dimensão humana e espiritual da reconciliação; o outro procura transformar essa ideia em uma prática capaz de alcançar pessoas e comunidades. Os dois caminhos se encontram numa mesma percepção: é preciso interromper o círculo que transforma a dor em ressentimento, o ressentimento em ódio e o ódio em novas formas de violência.
Padre Leonel exprime essa possibilidade de maneira particularmente forte ao compreender o perdão como uma virtude capaz de quebrar a irreversibilidade do passado. O que aconteceu não pode ser desfeito. Não podemos devolver uma vida, apagar uma guerra, recuperar uma infância perdida ou retirar de alguém a dor de uma palavra cruel. Podemos, entretanto, modificar a relação que estabelecemos com aquilo que aconteceu. A memória pode deixar de ser apenas um depósito de dores e tornar-se também matéria de aprendizado.
A experiência colombiana tornou essa questão concreta. Durante décadas, o país viveu sob o peso de uma violência que deixou mortos, feridos, desaparecidos, famílias destruídas e memórias difíceis de conciliar. O Acordo de Paz entre o governo colombiano e as FARC representou a escolha de outro caminho, baseado na busca da paz e na difícil combinação entre verdade, justiça, reparação e compromissos de não repetição.
Nenhum processo dessa natureza é simples. Há dores que não aceitam discursos e famílias para as quais nenhuma palavra será suficiente. Por isso, reconciliação não pode significar pedir às vítimas que esqueçam. A verdade precisa ser conhecida, as responsabilidades reconhecidas e a reparação buscada. O desafio está em fazer tudo isso sem perpetuar a lógica da vingança. Uma sociedade dificilmente encontrará a paz se continuar reproduzindo, de geração em geração, os mecanismos de ódio que produziram o conflito.
Essa questão ultrapassa a experiência colombiana e alcança a própria política contemporânea. Em Stillborn God, Mark Lilla examina a longa relação entre religião e política no Ocidente e ajuda a compreender como grandes convicções sobre Deus, autoridade, justiça e destino coletivo podem adquirir uma força quase absoluta na vida pública. Quando uma convicção política se transforma em verdade incontestável, o adversário deixa de ser simplesmente alguém que pensa diferente e pode passar a ser visto como ameaça.
Esse é um dos perigos do nosso tempo. A política pode transformar divergências legítimas em batalhas morais permanentes. Quando isso acontece, já não se procura convencer o outro, mas derrotá-lo; as alianças deixam de se formar em torno de projetos comuns e passam a se organizar em torno de inimigos comuns. O espaço do diálogo diminui justamente quando ele se torna mais necessário.
As redes sociais acentuaram esse fenômeno. Multiplicaram vozes e possibilidades de encontro, mas também facilitaram a formação de trincheiras. O outro, reduzido a uma opinião, a um rótulo ou a uma caricatura, torna-se mais fácil de desprezar. Perdemos de vista a pessoa que existe por trás da posição que ela defende.
É nesse cenário que Reconciliação, de José Mário, adquire uma atualidade que ultrapassa o campo pessoal ou religioso. A reconciliação não exige que abandonemos nossas convicções. Exige que não transformemos nossas convicções em autorização para desumanizar o outro. A verdade pode ser buscada sem ódio; a justiça pode ser praticada sem vingança; a divergência pode existir sem destruir os vínculos que nos mantêm como comunidade.
As reflexões de Alexis de Tocqueville sobre a vida democrática também permanecem atuais. Uma sociedade livre precisa conviver com diferenças, interesses e paixões. Mas nenhuma democracia se sustenta quando seus cidadãos deixam de reconhecer a legitimidade daqueles que pensam de outra maneira. O adversário político pode ser vencido nas urnas; não precisa ser transformado em inimigo permanente. Quando isso acontece, a própria comunidade se enfraquece.
Talvez precisemos reaprender a arte do encontro. Não o encontro ingênuo, que desconhece diferenças e conflitos, mas aquele que reconhece no outro uma humanidade que não desaparece porque pensamos de maneira diferente. É uma tarefa difícil, sobretudo em tempos de certezas rápidas e julgamentos instantâneos.
Volto, então, àquela tarde em Bogotá. Na pequena mesa do restaurante de La Soledad, quase trinta anos depois de Nairóbi, descobrimos que algumas coisas resistem ao tempo. A amizade era uma delas. A memória, outra. Padre Leonel tinha razão: a memória pode ser o maior presente que alguém oferece a outra pessoa. Mas naquele encontro compreendi também que existe uma diferença entre lembrar para conservar uma amizade e lembrar para alimentar uma mágoa. Uma memória pode aproximar; outra pode aprisionar.
Entre uma e outra está a escolha de como queremos seguir.
Talvez essa seja a verdadeira revolução de que fala Padre Leonel: não uma revolução feita de rupturas, mas uma transformação silenciosa na maneira como lidamos com nossas feridas, nossas diferenças e nossos adversários. E talvez seja também o sentido mais profundo de Reconciliação, de José Mário da Silva Branco: não aceitar que a ruptura seja necessariamente a última palavra.
A reconciliação não promete uma vida sem conflitos. Tampouco promete que todas as relações serão restauradas ou que todas as feridas desaparecerão. Sua promessa é mais discreta e, justamente por isso, mais profunda: mesmo depois da ruptura, o ser humano pode escolher não transformar a dor em destino.
De Nairóbi a Bogotá, da memória à reconciliação, da experiência pessoal à paz entre povos, permanece uma pergunta que não envelhece: o que faremos com aquilo que o passado fez de nós?
Talvez a resposta esteja na possibilidade de transformar a memória sem destruí-la, fazer justiça sem alimentar a vingança e reconhecer o outro sem negar nossas próprias convicções. No fim, reconciliar-se não é voltar ao que éramos antes da ferida. É descobrir, apesar dela, quem ainda podemos ser.
E talvez seja esse o sentido mais profundo do encontro naquela tarde em Bogotá: não apagar o passado, mas impedir que ele roube o futuro.
Palmarí H. de Lucena