A Memória dos Sons

A Memória dos Sons

Há casas em que a memória se preserva em fotografias. Outras guardam o passado em cartas, retratos ou objetos antigos. Na minha, a memória sempre viveu nos sons. Cresci em um ambiente onde a música não ocupava apenas os espaços da casa — ela organizava os afetos, preenchia os silêncios e dava sentido aos dias comuns.

Meu pai tinha o hábito de solfejar distraidamente alguma melodia enquanto caminhava pelos cômodos, usando sua voz grave e profunda para dramatizar partituras, traduzir emoções e dar vida a trechos inteiros de óperas. Entre suas favoritas estava a “Marcha dos Toreadores”, da ópera Carmen, cuja força solene e vibrante ainda hoje permanece ecoando em minha memória como um dos sons mais vivos da minha infância.

Foi ali, entre melodias dispersas e conversas sobre música, que aprendi algo fundamental: ouvir também é uma forma de educação sentimental. Antes mesmo de compreender teoria musical, eu já intuía que certas harmonias continham emoções impossíveis de traduzir em palavras. A música aproximava as pessoas, organizava lembranças e criava uma espécie de linguagem invisível dentro da família.

Outra lembrança musical profundamente viva em minha memória foi a primeira vez em que ouvi nosso primo Sivuca tocar. O ano era 1948, período especialmente alegre para nossa família pelo nascimento de minha irmã Neuzinha. Havia naquele tempo uma atmosfera de celebração contínua dentro de casa, como se a própria vida tivesse adquirido uma tonalidade mais luminosa.

Sivuca começava então a revelar seu extraordinário talento em uma estação de rádio do Recife. Ainda muito jovem, parecia carregar ao mesmo tempo o encanto e a desorientação provocados pelos primeiros sinais da fama. Lembro-me de vê-lo abrir seu instrumento com naturalidade quase tímida e começar a tocar “Vassourinhas”. Naquele instante, a rua Alberto de Brito, ainda sem calçamento, pareceu transformar-se diante dos meus olhos. O chão simples e poeirento adquiriu o brilho imaginário de diamantes.

Talvez tenha sido naquele momento que compreendi, ainda menino, o poder transformador da música. Alguns músicos apenas executam melodias; outros conseguem alterar a própria matéria da memória. Sivuca possuía esse dom raro. Onde ele tocava, o mundo parecia ganhar outra luz.

Talvez por isso eu tenha tentado, ainda jovem, aprender um instrumento. Diziam que minhas mãos tinham vocação para as cordas. Convencido dessa possibilidade, comecei aulas de violoncelo com o professor Juarez Johnson. Dediquei-me ao estudo do instrumento com entusiasmo sincero, embora sem grande talento rítmico. Depois de algum tempo, chegamos a uma conclusão cordial: eu seria melhor ouvinte do que intérprete. Faltava-me justamente um dos pilares essenciais da música — o ritmo.

A descoberta não me trouxe frustração. Pelo contrário. Fez nascer em mim um respeito ainda maior pelos músicos e pela arquitetura delicada que sustenta uma composição. Compreendi que tocar exige muito mais do que técnica; exige sensibilidade, disciplina, escuta e uma rara capacidade de transformar emoção em estrutura sonora.

Com o passar dos anos, percebi que a música em nossa família não era apenas gosto pessoal — era herança cultural. Meu irmão Poty levou adiante aquilo que meu pai cultivara silenciosamente dentro de casa. Tornou-se músico profissional, compositor, arranjador e instrumentista respeitado, dedicando a vida à busca da beleza melódica e da sofisticação harmônica. Sempre ouvi com admiração seus arranjos refinados, nos quais reconheço ecos daquela formação afetiva que compartilhamos na infância.

Poty construiu uma trajetória sólida na música nordestina e instrumental, participando de grupos, gravações e projetos culturais importantes na Paraíba. Em suas composições percebo não apenas domínio técnico, mas fidelidade a uma identidade musical profundamente brasileira, construída com sensibilidade e raízes culturais autênticas.

Mais tarde surgiu também Portyzinho, trazendo consigo a mesma chama musical herdada do pai e do avô. Há nele uma pujança criativa que me emociona. Observá-lo tocar é perceber que certas heranças não dependem de explicação: atravessam gerações naturalmente, como se a música encontrasse seus próprios caminhos para permanecer viva.

Ao acompanhar pai e filho, compreendi algo que a vida confirma repetidamente: a música não pertence apenas ao instante em que é executada. Ela atravessa o tempo. Preserva afetos. Une gerações. Mantém vivos os vínculos invisíveis que sustentam a memória familiar.

Foi também meu pai quem primeiro me fez entender a dimensão universal da música. Costumava dizer que a criação de Guido d’Arezzo havia produzido “o verdadeiro Esperanto”. Referia-se à capacidade da escrita musical de unir pessoas de culturas completamente diferentes através dos sons.

Lembro-me das histórias que ele contava sobre sua viagem à África. Falava daquela experiência com encantamento quase reverente. Em certa ocasião, regeu um coral utilizando apenas a partitura musical. Em outra, trocou melodias com um griot, tocador de korá. Nenhum compreendia a língua do outro. Ainda assim, comunicavam-se perfeitamente. Sorriam, apertavam as mãos, trocavam olhares de aprovação. Não havia necessidade de tradução. Existia apenas a música — essa linguagem silenciosa e universal capaz de aproximar mundos distantes.

Entre tantos caminhos musicais que cruzaram minha vida, o jazz ocupou lugar especial. O Modern Jazz Quartet tornou-se meu grupo favorito e, mais tarde, também o dos meus filhos. Sempre me emocionou perceber como certas músicas atravessam décadas sem perder a capacidade de tocar emocionalmente diferentes gerações.

Hoje compreendo que a apreciação musical vai muito além do simples ato de ouvir. Ela é memória, cultura, identidade e forma de amor. A música esteve presente em toda a minha existência — às vezes discreta, às vezes intensa —, mas sempre essencial na construção daquilo que sou.

Aprendi ainda cedo uma frase em latim que talvez resuma tudo isso melhor do que qualquer explicação: Musica movet mundum — a música move o mundo.

Move lembranças, aproxima pessoas, atravessa fronteiras, consola ausências e transforma o tempo em permanência. Talvez seja justamente por isso que a música se torne uma cadeia invisível de sentimentos, emoções e experiências que atravessam a vida inteira sem jamais se romper. Cada melodia ouvida, cada voz guardada na memória, cada acorde surgido inesperadamente em algum instante comum continua vivendo dentro de nós, reorganizando silenciosamente aquilo que sentimos e aquilo que somos.

Hoje entendo que certas lembranças não permanecem porque foram vistas, mas porque foram ouvidas. A música possui essa capacidade rara de transformar o efêmero em eterno. Ela devolve rostos ao passado, reacende atmosferas esquecidas e faz com que pessoas distantes no tempo caminhem novamente ao nosso lado por alguns instantes.

Talvez seja essa a sua maior beleza: criar permanência onde a vida insiste em ser passageira. Afinal, sem harmonia, melodia e ritmo, dificilmente a existência humana poderia alcançar toda a profundidade de sua emoção.

Por Palmarí H. de Lucena