Há uma estranha mania entre nós: medir a vida. Medimos o tempo que temos, o dinheiro que falta, os anos que passaram e os sonhos que ainda não realizamos. Medimos o sucesso pelo tamanho da conta bancária, a felicidade pelas fotografias e, muitas vezes, a importância de uma pessoa pela quantidade de gente que a conhece.
Então aparece Morrie e faz tudo parecer um pouco fora de medida.
Em A Última Grande Lição: O Sentido da Vida, Mitch Albom reencontra seu antigo professor em um momento muito diferente daquele vivido na universidade. Não há sala de aula, quadro-negro ou provas. Há apenas o tempo, que agora parece mais importante do que nunca, e um homem que está aprendendo a morrer sem deixar de ensinar os outros a viver.
Morrie está doente. Ele tem Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença neurológica progressiva que afeta os movimentos do corpo. Aos poucos, seus músculos deixam de responder como antes, e tarefas que pareciam simples tornam-se cada vez mais difíceis. Primeiro uma coisa, depois outra. É difícil imaginar como deve ser perceber que aquilo que sempre nos serviu pode, um dia, deixar de obedecer. Nós nos levantamos da cama sem agradecer às pernas, abrimos uma porta sem pensar nas mãos e respiramos como se o ar fosse uma certeza eterna.
Morrie perde, pouco a pouco, essas certezas. Mas, curiosamente, encontra outras. Enquanto seu corpo enfraquece por causa da ELA, sua compreensão sobre a vida parece crescer. Diante da proximidade do fim, ele passa a enxergar com mais clareza aquilo que realmente importa: o amor, a amizade, a família e a presença das pessoas.
Nós, porém, fazemos quase sempre o contrário. Corremos.
Corremos para o trabalho, para o futuro e para uma vida que imaginamos ser melhor do que a que temos agora. Trabalhamos, acumulamos coisas e fazemos planos. Muitas vezes, adiamos a felicidade porque acreditamos que ela está esperando por nós em algum momento do futuro.
Morrie não pode mais correr. A Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) obriga seu corpo a parar pouco a pouco. Talvez seja por isso que tenha aprendido a olhar com mais atenção. Há coisas que só percebemos quando diminuímos o ritmo. A doença o obriga a parar e, nesse silêncio, ele passa a ouvir o próprio corpo, os amigos e a vida que ainda existe ao seu redor.
E também passa a olhar para a morte.
Não gostamos muito dessa palavra. Preferimos não pensar no fim. Agimos como se evitar o assunto pudesse mantê-lo distante. Morrie faz diferente. Ele sabe que sua doença é progressiva e que vai morrer, mas decide não fugir dessa realidade.
Isso não o torna alguém derrotado. Pelo contrário, parece torná-lo mais consciente da vida. Quando entendemos que nosso tempo é limitado, percebemos que algumas coisas não deveriam ser adiadas. Uma conversa importante, um pedido de perdão, um abraço ou uma simples visita podem ter um valor que só reconhecemos quando já é tarde demais.
Talvez essa seja uma das maiores lições de Morrie: não somos donos do tempo. Apenas o recebemos por algum tempo. E talvez devêssemos usá-lo com mais cuidado.
Morrie também ensina que precisar dos outros não é uma fraqueza. A ELA faz com que ele dependa cada vez mais das pessoas ao seu redor. Vivemos em uma época em que todos querem parecer fortes, independentes e capazes de resolver tudo sozinhos. Temos dificuldade em pedir ajuda e, muitas vezes, escondemos nossas dores para não parecer vulneráveis.
Morrie não faz isso. Ele aceita ser cuidado. Aceita precisar das pessoas. E isso também exige coragem. Permitir que alguém cuide de nós é mostrar uma parte que normalmente escondemos: a parte que sente medo, que sofre e que não consegue resolver tudo sozinha.
Talvez seja por isso que Morrie permaneça na memória de tantas pessoas. Não apenas porque Mitch Albom escreveu sobre ele, mas porque suas perguntas continuam sendo nossas perguntas.
O que estamos fazendo com os nossos dias?
Quem estamos deixando para depois?
Quantas vezes prometemos visitar alguém e nunca encontramos tempo?
No fim, talvez a vida não seja medida pelas grandes conquistas que conseguimos mostrar aos outros. Talvez seja medida pelas pessoas que conseguimos amar e pelas relações que construímos enquanto estamos aqui.
Morrie perde progressivamente o controle sobre o próprio corpo por causa da Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), mas conserva aquilo que considera mais importante: sua capacidade de amar. Continua ouvindo, ensinando e se interessando pelas pessoas.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de permanecer.
Algumas pessoas partem e deixam silêncio. Outras deixam perguntas que continuam conosco.
Morrie continua naquele telefonema que adiamos, naquela visita que prometemos fazer e no abraço que interrompemos cedo demais. Continua, principalmente, naquela pergunta que pode surgir quando finalmente paramos de correr:
“E se a vida que estou esperando já estiver acontecendo?”
Talvez essa seja a última grande lição.
Não devemos esperar o momento perfeito para viver, amar ou demonstrar o que sentimos.
Porque o tempo passa.
E, mesmo sabendo disso, continuamos olhando para o relógio.
Palmarí H. de Lucena