Há uma pergunta talvez mais difícil do que imaginar o futuro: imaginar se gostaríamos de viver nele. Quando se fala em inteligência artificial, pensamos primeiro nas coisas que desaparecerão: o trabalho que já não será necessário, a tarefa que a máquina fará em nosso lugar, a decisão que um sistema tomará mais depressa do que nós. Pensamos no que a inteligência artificial poderá fazer e quase nunca perguntamos o que sobrará para o homem fazer quando ela puder fazer quase tudo.
O filósofo Nick Bostrom leva essa pergunta ainda mais longe. Em sua imaginação, uma inteligência artificial superinteligente poderia produzir algo próximo de uma utopia: mentes transformáveis, possibilidades quase ilimitadas de experiência, um universo no qual a existência pudesse ser reorganizada segundo desejos que hoje mal conseguimos formular. Mas essa possibilidade nos obriga a voltar ao essencial: uma vida em que quase tudo pode ser realizado seria necessariamente uma vida boa?
Se uma inteligência extraordinária pudesse proporcionar prazer praticamente ilimitado, seria isso suficiente? Talvez não. Uma existência dedicada inteiramente à satisfação dos desejos poderia revelar um paradoxo: quando o prazer se torna permanente, corre o risco de perder parte de seu significado. Há uma diferença entre sentir prazer e perceber a beleza. Uma paisagem pode estar diante de nós durante uma hora inteira e, ainda assim, não a vermos. Uma música pode tocar numa sala e encontrar alguém distraído demais para ouvi-la. Uma manhã pode nascer sobre a cidade e ser recebida apenas como o intervalo entre duas obrigações.
Talvez uma inteligência muito superior pudesse fazer por nós aquilo que hoje nem sempre conseguimos fazer sozinhos: devolver-nos a capacidade de perceber. Depois de séculos inventando máquinas para acelerar a vida, talvez a inteligência artificial pudesse nos conduzir justamente ao contrário: a uma existência em que finalmente houvesse tempo para olhar.
A questão muda de natureza quando imaginamos o que aconteceria se as máquinas assumissem grande parte do trabalho. Poderiam trabalhar, criar, organizar e resolver problemas em nosso lugar. Nós ganharíamos horas, dias, talvez uma parte inteira da vida. E então a pergunta deixaria de ser apenas quanto prazer podemos experimentar para se tornar outra, mais difícil: o que faremos com o tempo que já não precisaremos vender para sobreviver?
Podemos imaginar esse dia começando de uma maneira que qualquer um de nós reconheceria. O despertador não toca, mas acordamos cedo, por hábito. Procuramos o celular na mesa de cabeceira e esperamos encontrar a lista de coisas que nos aguardam. Não há nada. Nenhuma reunião, nenhum prazo, nenhuma mensagem dizendo que estamos atrasados. Levantamos, fazemos café, abrimos a janela. A rua começa a se mover: um ônibus passa, alguém varre a calçada, uma criança atravessa a esquina segurando a mão da mãe. O café esfria na xícara enquanto olhamos tudo aquilo sem precisar sair de casa.
Só que o dia continua. O filme termina. A música termina. São cinco horas. Ainda não escureceu. Há café na cozinha, livros na estante, uma poltrona junto à janela. Podemos fazer qualquer coisa, mas nada precisa ser feito. E talvez seja justamente diante dessa liberdade completa que surja a primeira inquietação: depois de tantos séculos tentando conquistar tempo, o que faremos quando ele finalmente for nosso?
Hoje, quando uma tarde fica livre, dizemos que ganhamos tempo. Podemos descansar, encontrar alguém, fazer aquilo que não coube na semana. O prazer do tempo livre nasce, em parte, porque ele é raro. Ele contrasta com a segunda-feira, com o trânsito, com o trabalho acumulado, com a hora de acordar no dia seguinte. Se todas as manhãs fossem domingos, porém, o domingo deixaria de ser domingo.
É aí que prazer e tempo livre se encontram. A inteligência artificial poderia nos oferecer experiências cada vez mais agradáveis e, ao mesmo tempo, retirar de nossos dias boa parte das obrigações que hoje os organizam. Poderia nos dar o que sempre pedimos: mais tempo. Mas tempo não é uma experiência; é o espaço em que as experiências acontecem. Uma tarde vazia pode ser descanso depois de uma semana difícil, mas pode também se alongar diante de nós como uma sala onde não sabemos o que fazer.
Durante séculos, a humanidade lutou contra a falta de tempo. Trabalhamos para sobreviver, inventamos máquinas para produzir mais depressa, criamos meios de transporte para chegar mais longe e sistemas de comunicação para falar com quem estava distante. A promessa era quase sempre a mesma: um dia teremos mais tempo. Agora imaginamos uma tecnologia capaz de cumprir parte dessa promessa. Mas o trabalho não ocupa apenas horas; ele também marca o começo da manhã, determina compromissos, cria encontros, impõe prazos e dá pequenas tarefas que empurram o dia para a frente. Quando a máquina retirar tudo isso, não teremos apenas mais descanso. Teremos de inventar outra maneira de preencher as horas.
Talvez seja nesse momento que o jogo adquira uma importância inesperada. Bostrom observa que há atividades que só fazem sentido porque aceitamos voluntariamente uma dificuldade. É o caso do golfe. Não há nenhuma razão fundamental para atravessar um campo, escolher um taco, medir uma distância e tentar acertar uma pequena bola. A pessoa poderia permanecer em casa, mas escolhe caminhar pelo campo. Poderia simplesmente olhar a paisagem, mas prefere carregar um taco, errar, tentar novamente e comemorar quando a bola finalmente encontra o buraco. A dificuldade, que antes parecia um desperdício de tempo, torna-se a própria razão de estar ali.
Quando a necessidade desaparece, podemos começar a criar objetivos. O homem inventa obstáculos para poder atravessá-los. Construímos montanhas e depois criamos equipamentos para escalá-las. Inventamos jogos, escrevemos livros, pintamos quadros e compomos música sem que essas atividades sejam indispensáveis à sobrevivência. Grande parte daquilo que dá sentido à vida nasce de dificuldades que poderíamos evitar.
Basta observar uma criança diante de um quebra-cabeça. Ela poderia pedir a resposta, mas não pede. Espalha as peças pelo chão, experimenta encaixes, erra e começa outra vez. Quando finalmente encontra a peça que procurava, há uma pequena alegria no rosto. A resposta estava disponível desde o início, mas isso teria destruído a brincadeira. O que importava não era apenas chegar ao resultado. Era chegar por conta própria.
Talvez façamos isso durante toda a vida. Há quem acorde cedo no domingo para correr quilômetros quando poderia permanecer na cama. Há quem passe horas diante de um tabuleiro pensando em movimentos que não alteram absolutamente nada no mundo. Há quem aprenda uma língua depois de adulto, plante uma árvore sabendo que talvez nunca veja sua sombra, conserte com as próprias mãos aquilo que poderia comprar pronto. Não fazemos essas coisas porque sejam necessárias. Fazemos porque queremos fazer.
O esforço, nesse caso, deixará de ser apenas o preço pago para alcançar alguma coisa e passará a fazer parte da própria experiência. Essa pode ser uma das grandes questões que a inteligência artificial colocará diante de nós: não apenas quanto trabalho poderemos deixar para as máquinas, mas quanto esforço desejaremos conservar para nós mesmos.
Isso não significa transformar toda dificuldade em virtude. Há trabalhos penosos que podem e devem ser substituídos por máquinas. Há tarefas repetitivas que consomem anos sem acrescentar nada à experiência de quem as executa. Se uma máquina puder retirar de alguém um trabalho exaustivo, perigoso ou degradante, talvez seja precisamente isso que esperamos dela. A questão está em distinguir aquilo que nos oprime daquilo que escolhemos porque queremos viver alguma coisa.
Há um cansaço que nos deixa apenas mais cansados e outro que nos faz chegar em casa com a sensação de que o dia teve alguma forma. Depois de uma caminhada longa, de uma partida disputada, de uma tarde escrevendo ou de horas cuidando de um jardim, o corpo pode doer, mas existe uma diferença entre esse cansaço e o esgotamento de quem apenas suportou mais um dia.
Talvez uma sociedade muito mais automatizada pudesse nos colocar diante de um luxo que nunca tivemos em escala tão grande: o luxo de escolher as próprias dificuldades. Uma pessoa poderá correr embora possa chegar de outra maneira, cozinhar embora uma máquina possa preparar a refeição, escrever à mão embora uma inteligência artificial possa produzir um texto em segundos, aprender piano embora possa ouvir uma interpretação perfeita. Nada disso será necessário. E talvez seja justamente essa a razão de continuar sendo valioso.
A tecnologia, portanto, não precisará nos devolver apenas tempo. Poderá devolver-nos a possibilidade de escolher como ocupá-lo. O problema de uma vida inteiramente automatizada não seria a falta de atividades, mas a abundância delas. Quando tudo estiver disponível, será preciso decidir o que merece nossa atenção.
É aí que a utopia tecnológica encontra uma questão muito antiga: o que vale a pena fazer?
Talvez passemos a trabalhar menos e brincar mais, a aprender por curiosidade e não por obrigação, a praticar esportes sem precisar vencer ninguém, a caminhar sem destino, a tocar um instrumento sem pretender ser músico e a conversar sem olhar para o relógio. Talvez também passemos a olhar novamente para coisas que sempre estiveram diante de nós.
A máquina poderá nos dizer o que podemos fazer. A pergunta sobre o que vale a pena fazer continuará sendo outra. Ainda teremos de decidir se desejamos contemplar uma paisagem ao amanhecer ou dormir mais uma hora, escrever uma carta ou enviar uma mensagem, ganhar o jogo ou simplesmente continuar jogando. A vida é feita dessas pequenas decisões, muitas vezes insignificantes quando vistas de fora e decisivas quando vistas por dentro.
Durante muito tempo, acreditamos que o progresso consistia em retirar obstáculos da existência. A máquina veio para poupar músculos; o computador, para poupar cálculos; a internet, para poupar distâncias; a inteligência artificial talvez venha para poupar uma parte enorme do esforço intelectual. Mas talvez o progresso tenha uma segunda tarefa, mais difícil: descobrir o que fazer com aquilo que deixou de ser necessário.
Quando tudo estiver disponível, talvez seja preciso aprender a escolher. Uma inteligência pode apresentar possibilidades, organizar informações e sugerir caminhos. Mas não poderá nos dizer o que fazer com uma terça-feira inteira sem compromissos, com uma manhã que não termina, com uma tarde em que ninguém nos espera. Esse tempo será nosso de uma maneira que o tempo submetido à necessidade nunca foi.
Talvez uma utopia verdadeira tenha menos a aparência de um parque de diversões infinito e mais a de uma manhã tranquila. Uma pessoa acorda sem precisar correr para o trabalho, abre a janela e encontra luz sobre os telhados. O mundo não exige nada imediatamente. Ela pode ler, caminhar, conversar, estudar, criar alguma coisa ou simplesmente permanecer alguns minutos olhando a paisagem. Depois, talvez escolha um objetivo completamente desnecessário: jogar uma partida, aprender uma música, plantar alguma coisa, escrever uma página ou tentar acertar uma bola num pequeno buraco a centenas de metros de distância.
A máquina poderá perguntar por que fazer isso, e a resposta talvez seja justamente porque não é preciso.
Talvez o verdadeiro luxo do futuro não seja ter tudo, mas ter tempo suficiente para escolher. Tempo para olhar uma árvore, ouvir uma música até o fim, conversar sem pressa, aprender algo difícil, cuidar de alguém, fazer alguma coisa com as próprias mãos. Tempo, sobretudo, para descobrir que nem toda hora precisa ser produtiva e que nem todo prazer precisa ser imediato.
No fim, a inteligência artificial talvez nos dê aquilo que a humanidade perseguiu durante séculos: tempo livre. E talvez seja justamente então que comece a pergunta mais difícil. Não como ganhar tempo, nem como gastá-lo, mas como fazer de uma hora vazia alguma coisa que valha a pena.
Porque, quando o trabalho deixar de ocupar o centro da vida, o tempo deixará de ser apenas aquilo que falta. Será aquilo que temos. E talvez a verdadeira utopia consista simplesmente em aprender a viver dentro dele.
Palmarí H. de Lucena