A Luz que se Move Entre Nós

A Luz que se Move Entre Nós

A exposição Komorebi – Luzes no Bosque, de Maria Bonolo, apresentada na Estação Cabo Branco – Ciência, Cultura e Artes, revela o diálogo íntimo entre corpo, natureza e transcendência. Inspirada no termo japonês que descreve o momento em que a luz do sol atravessa as copas das árvores e projeta desenhos efêmeros no chão, Bonolo transforma esse fenômeno em experiência estética e espiritual. Suas obras, que incluem pinturas, instalação e vídeo, não buscam capturar o real, mas sugerir o invisível. Komorebi é, antes de tudo, uma celebração da luz como essência e presença: uma metáfora para o instante em que o olhar humano reencontra sua origem e a arte devolve sentido ao ato de existir.

Conheci Maria Bonolo não em um ateliê, mas em um estúdio de Pilates. Ali, entre o som dos aparelhos e a respiração compassada, cada um procurava ajustar o corpo às suas imperfeições e o espírito às suas faltas. Eu sonhava com novos textos; ela, com novas luzes. E havia algo de poético nesse paralelo: dois caminhos distintos que, de algum modo, se encontravam no mesmo território — o da criação como forma de cura. Nas pausas das aulas, Maria falava de luz. Mas não da luz dos refletores ou das vitrines — falava da que passa silenciosa entre as folhas, da que dança na poeira do ar, da que toca o chão e desaparece. O brilho nos olhos dela era o mesmo que agora atravessa suas telas: sereno, inquieto e, ao mesmo tempo, revelador. Ali, percebi que sua arte nasceria não da observação, mas da escuta — uma escuta do mundo, da terra e da própria vida.

Mais tarde, diante das obras reunidas na Estação Cabo Branco, compreendi o sentido profundo de Komorebi. No Japão, a palavra designa um instante, mas é também uma filosofia. É o reconhecimento da beleza que só existe porque é passageira. É o diálogo entre luz e sombra, entre o que se mostra e o que se cala. Maria Bonolo faz dessa ideia uma linguagem plástica: suas cores não competem com a natureza, dialogam com ela. Há em suas telas o sopro de algo sagrado, não no sentido religioso, mas no da comunhão — o gesto simples de se colocar diante da vida com respeito e silêncio.

Na Estação Cabo Branco, as obras respiram como se fossem parte da arquitetura. O branco, o vidro e as curvas de Niemeyer acolhem as cores vivas de Bonolo e fazem delas extensão da paisagem. O espaço torna-se corpo, e o corpo, luz. Em meio a esse diálogo, o visitante não é espectador, mas participante — alguém que se deixa atravessar pela claridade e, por instantes, sente o próprio tempo desacelerar. O mais belo em Komorebi é o que não se vê: o espaço entre as cores, o intervalo entre o gesto e o repouso. É ali que mora o espírito da obra. Maria Bonolo nos convida a reaprender a pausa, a respirar junto com as árvores, a enxergar o que sempre esteve diante de nós, mas esquecemos de notar. Há em seu trabalho uma sabedoria natural — a de que o belo não se explica, apenas se vive.

Quando saí da Estação Cabo Branco, senti que carregava um pouco dessa luz comigo. Uma luz que não ofusca, mas aquieta. Pensei, então, que talvez o verdadeiro Komorebi não esteja apenas nas copas das árvores, mas também nos olhos de quem se permite ver — e, sobretudo, sentir.

Palmarí H. de Lucena
Escritor e amigo da artista