A Longa Sombra das Consequências

A Longa Sombra das Consequências

Há momentos em que a política abandona as fronteiras nacionais e passa a influenciar diretamente a vida de outros povos. A recente decisão do governo americano de classificar grandes facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pode ser compreendida sob o prisma da segurança internacional. Mas seria ingenuidade ignorar que ela também se insere em um contexto político e eleitoral particularmente sensível.

A coincidência temporal entre a medida e a aproximação de integrantes da família Bolsonaro com a administração Trump alimentou interpretações segundo as quais a decisão pode produzir dividendos políticos para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Não se trata de afirmar que essa tenha sido a motivação determinante da Casa Branca. Trata-se de reconhecer que, na política, a percepção pública frequentemente se torna tão relevante quanto os fatos objetivos.

Se a medida for percebida como uma validação internacional do discurso bolsonarista sobre segurança pública, seu impacto poderá ultrapassar em muito o campo do combate ao crime organizado. Ela passará a integrar a narrativa eleitoral de um candidato que busca apresentar-se como alternativa ao governo atual.

O problema surge quando interesses eleitorais e interesses nacionais deixam de coincidir.

A história oferece numerosos exemplos de decisões geopolíticas tomadas para produzir ganhos políticos imediatos, sem que seus patrocinadores considerassem integralmente seus efeitos econômicos e sociais de longo prazo. Em democracias polarizadas, a tentação de transformar questões complexas em instrumentos de disputa eleitoral é permanente.

A classificação de organizações criminosas como grupos terroristas aciona mecanismos financeiros e regulatórios de enorme alcance. Bancos, seguradoras, investidores e empresas multinacionais tendem a reagir de forma conservadora diante de qualquer aumento percebido do risco jurídico ou reputacional. Ainda que o objetivo declarado seja atingir organizações criminosas, os efeitos indiretos podem alcançar setores inteiros da economia formal.

O capital internacional raramente distingue com precisão os contornos de uma realidade nacional. Muitas vezes, ele responde a sinais amplos. Quando um país passa a ser associado, nos grandes centros financeiros, a ameaças enquadradas sob a legislação antiterrorismo, o custo dessa percepção pode se refletir em investimentos adiados, exigências regulatórias mais severas e maior cautela por parte de parceiros comerciais.

Paradoxalmente, uma iniciativa apresentada como instrumento de combate ao crime pode acabar produzindo custos econômicos suportados por trabalhadores, empreendedores e consumidores que nada têm a ver com as organizações visadas.

Esse é o dilema central. Se a medida efetivamente contribuir para enfraquecer redes criminosas internacionais, seus benefícios poderão ser relevantes. Mas, se sua adoção estiver sendo celebrada principalmente por seus efeitos eleitorais, sem igual atenção às possíveis repercussões econômicas e diplomáticas, corre-se o risco de transformar uma questão de Estado em instrumento de campanha.

Nenhuma democracia deveria aceitar com naturalidade que interesses partidários se sobreponham ao bem-estar coletivo. O verdadeiro patriotismo não consiste em acumular vitórias eleitorais, mas em avaliar com honestidade os custos e benefícios de cada decisão para a sociedade como um todo.

A manchete pode favorecer um candidato. As consequências, porém, serão compartilhadas por mais de duzentos milhões de brasileiros. E a economia, indiferente às paixões partidárias, costuma cobrar sua fatura muito depois de encerrada a campanha eleitoral.

Palmarí H. de Lucena