MAGA, bolsonarismo e a perigosa internacionalização da política brasileira
Quando uma potência transforma sua política externa em instrumento de proteção de aliados ideológicos, a fronteira entre diplomacia e interferência começa a desaparecer.
Há uma curiosa ironia na política internacional: os países que mais reivindicam o direito de decidir o próprio destino nem sempre demonstram igual entusiasmo quando esse direito é exercido por outras nações. Os Estados Unidos, que construíram parte de sua identidade política sobre a ideia de liberdade e autodeterminação, parecem ter descoberto, sob Donald Trump, uma interpretação bastante particular desses princípios. A soberania americana é inegociável; a dos outros, aparentemente, admite condições.
O Brasil entrou nessa equação de maneira pouco discreta. A aproximação entre o movimento MAGA — “Make America Great Again” — e o bolsonarismo deixou de ser apenas afinidade entre políticos conservadores. O que começou como identificação ideológica, alimentada por discursos semelhantes e antagonismos compartilhados, adquiriu contornos de articulação internacional. Não se trata de afirmar que toda a direita brasileira esteja subordinada a Washington, nem de confundir conservadorismo com extremismo. Trata-se de reconhecer que uma parcela influente do bolsonarismo encontrou no trumpismo não apenas inspiração, mas interlocutores dispostos a converter afinidade política em influência institucional.
Eduardo Bolsonaro foi um dos principais construtores dessa ponte. Seus contatos com integrantes do universo MAGA e com figuras influentes do conservadorismo americano ajudaram a internacionalizar uma disputa que deveria permanecer submetida às instituições brasileiras. Steve Bannon, antigo estrategista de Trump e entusiasta de movimentos nacionalistas de diferentes países, ofereceu a essa aproximação uma linguagem comum: a ideia de que governos de esquerda, instituições judiciais, imprensa e organismos multilaterais integram um sistema de poder a ser enfrentado.
Nesse ambiente, a política deixa de ser apenas uma disputa por votos e passa a ser apresentada como batalha civilizacional. O adversário já não é simplesmente alguém que pensa diferente; torna-se uma ameaça à própria nação. É uma construção retórica eficiente: transforma derrotas eleitorais em suspeitas e decisões institucionais desfavoráveis em supostas provas de perseguição. O problema começa quando essa narrativa encontra os instrumentos de uma potência estrangeira.
Em 2025, Donald Trump elevou dramaticamente a temperatura das relações com Brasília. A imposição de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, as medidas contra autoridades judiciais e as sanções aplicadas ao ministro Alexandre de Moraes fizeram uma controvérsia política interna adquirir dimensão diplomática e econômica. Washington apresentou suas ações, entre outros argumentos, como defesa da liberdade de expressão e reação à atuação do Judiciário brasileiro. São temas legítimos para o debate. Nenhuma instituição democrática deve estar imune à crítica, venha ela de dentro ou de fora do país.
Mas há uma diferença considerável entre exercer o direito de criticar e utilizar o poder econômico de uma grande potência para constranger instituições de outra democracia. Uma coisa é discordar de uma decisão judicial; outra é transformar tarifas, restrições diplomáticas e sanções pessoais em instrumentos de pressão política. Essa diferença, embora elementar, parece ter sido convenientemente esquecida.
A dimensão mais perturbadora foi descrita em investigação da Reuters publicada em 24 de outubro de 2026, intitulada “Inside the Trump-administration campaign to return Brazil’s Bolsonaro clan to power”. Com base em entrevistas com dez funcionários atuais e antigos do governo americano, a reportagem atribuiu a Darren Beattie e Ricardo Pita, integrantes do Departamento de Estado, papéis centrais em iniciativas destinadas a favorecer o retorno político da família Bolsonaro. Inicialmente, os esforços teriam buscado apoiar Jair Bolsonaro; depois de sua condenação, teriam se deslocado para seu filho, Flávio Bolsonaro.
A reportagem também relacionou essas iniciativas à defesa de medidas contra Alexandre de Moraes e a propostas para classificar organizações criminosas brasileiras como organizações terroristas. O grau de autorização direta da Casa Branca, porém, não foi inteiramente esclarecido. Essa ressalva importa: não se deve atribuir a Trump uma ordem pessoal que a investigação não comprovou. Mas as informações divulgadas são suficientemente graves para justificar esclarecimentos e fiscalização institucional.
É aqui que a discussão precisa abandonar a comodidade das paixões partidárias. Se funcionários de um governo estrangeiro utilizaram seus cargos e instrumentos de política externa para favorecer uma família política brasileira, não estamos diante de simples solidariedade ideológica. Estamos diante de uma questão de soberania, transparência diplomática e responsabilidade pública. A extensão dessas iniciativas precisa ser investigada, não presumida.
O episódio ganhou dimensão simbólica com o resultado da eleição presidencial brasileira de 25 de outubro de 2026. Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito no segundo turno, derrotando Flávio Bolsonaro. A margem apertada não diminui o significado institucional do resultado: a decisão sobre os destinos do Brasil foi tomada pelos eleitores brasileiros. O bolsonarismo continua sendo uma força eleitoral expressiva, mas sua relevância política não lhe confere o direito de buscar em uma potência estrangeira instrumentos para contornar as regras da competição democrática.
A eleição brasileira terminou; a questão americana, entretanto, está apenas começando. Em 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo uma derrota expressiva a Trump e ao Partido Republicano. A partir de janeiro de 2027, quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos, o presidente enfrentará um Congresso controlado pela oposição.
Trump não perderá, por isso, os poderes constitucionais da Presidência, especialmente em diplomacia, segurança nacional e determinados instrumentos comerciais. Mas o Congresso dispõe de mecanismos relevantes: audiências, pedidos de documentos, depoimentos de autoridades, investigações sobre recursos públicos e fiscalização de decisões administrativas. Pode atuar também sobre orçamento, nomeações e legislação. Não pode simplesmente anular toda decisão executiva por discordar dela; pode, porém, tornar politicamente custosa e administrativamente difícil uma política considerada abusiva.
É nesse ponto que o caso brasileiro ganha importância para a própria democracia americana. O Congresso poderá examinar se instrumentos de política externa foram utilizados para proteger interesses nacionais legítimos ou se foram desviados para favorecer aliados políticos de uma corrente ideológica estrangeira. Poderá questionar a motivação de sanções, o uso de tarifas e a natureza dos contatos mantidos com representantes do bolsonarismo. Não se trata de pedir aos democratas que defendam o governo brasileiro por afinidade partidária. Trata-se de exigir que fiscalizem o Executivo, independentemente de quem ocupe a Casa Branca.
Há uma diferença entre defender os interesses dos Estados Unidos e confundir esses interesses com os interesses eleitorais de aliados de Donald Trump. Essa distinção será importante porque a relação entre MAGA e bolsonarismo não se limita a funcionários públicos. Existe uma rede mais ampla de interlocução, formada por estrategistas, parlamentares, organizações conservadoras, influenciadores e operadores de comunicação. Redes políticas transnacionais podem produzir efeitos relevantes mesmo sem comando centralizado: basta que atores de países diferentes encontrem vantagens na disseminação de narrativas comuns ou na deslegitimação de instituições que consideram obstáculos.
O Brasil tornou-se um caso especialmente revelador. Sempre que uma liderança nacional procura legitimação externa para pressionar instituições internas, demonstra que a disputa pelo poder deixou de confiar inteiramente nos mecanismos democráticos do próprio país. É uma espécie de terceirização da soberania: quando o resultado não parece suficientemente favorável em casa, procura-se reforço fora dela.
O problema também é geopolítico. O Brasil mantém relações econômicas estratégicas com os Estados Unidos, possui vínculos profundos com a China, integra o BRICS e procura preservar autonomia num mundo marcado pela rivalidade entre grandes potências. Essa posição não é indecisão diplomática; é uma expressão de interesse nacional. Não cabe a Washington determinar com quem o Brasil deve negociar, quais organizações deve integrar ou que orientação deve adotar. A política externa brasileira pode ser criticada e debatida, mas suas escolhas devem responder à sociedade brasileira.
Aqui aparece a contradição do nacionalismo de Trump. O MAGA construiu parte de sua identidade sobre a promessa de recuperar a soberania americana, impedir interferências externas e colocar os interesses nacionais acima de compromissos internacionais. Quando integrantes ou aliados do movimento se envolvem em iniciativas destinadas a influenciar a política de outros países, esse princípio parece perder sua universalidade. A soberania, afinal, não pode ser um artigo de luxo reservado às grandes potências.
Isso não significa isolamento. O Brasil precisa dos Estados Unidos: de comércio, investimentos, cooperação científica, tecnológica, ambiental e diplomática. Precisa também manter diálogo com o Congresso americano, com organizações da sociedade civil e com setores políticos comprometidos com o respeito institucional. A amizade entre países não exige uniformidade ideológica. Exige reciprocidade.
A democracia pode ser enfraquecida não apenas quando alguém tenta cancelar eleições ou impedir a posse de um adversário, mas também quando forças externas procuram alterar as condições em que uma sociedade escolhe seus representantes; quando a pressão econômica se converte em instrumento de disputa partidária; ou quando a legitimidade das instituições passa a depender da aprovação de governos estrangeiros.
A vitória democrata no Congresso abre uma oportunidade de fiscalização, não uma garantia de correção. A eleição brasileira reafirmou a capacidade dos eleitores de decidir, mas não encerrou a disputa em torno da legitimidade das instituições. O bolsonarismo continua existindo, o trumpismo permanece no poder e as conexões internacionais entre esses movimentos não desaparecerão por força de um resultado eleitoral.
A defesa da soberania exige mais do que discursos patrióticos. Exige instituições fortes, transparência, responsabilidade pública e uma política externa capaz de dialogar com o mundo sem se subordinar a ele. Exige, sobretudo, que os brasileiros compreendam que divergências políticas internas não autorizam a entrega de decisões nacionais a interesses estrangeiros.
No fundo, a pergunta não é se devemos ser amigos dos Estados Unidos. Devemos, naturalmente, procurar uma relação construtiva com uma das nações mais influentes do planeta. A pergunta é outra: podemos ser amigos de uma grande potência sem aceitar que ela escolha nossos aliados, pressione nossos juízes ou procure influenciar o destino de nossas eleições?
A resposta deveria ser simples, embora a política frequentemente se encarregue de complicá-la: sim à cooperação, sim ao diálogo, sim à amizade entre nações. Mas não à tutela. Um país pode ter muitos aliados, parceiros comerciais e interlocutores internacionais. O que não pode é terceirizar a própria vontade política. A democracia brasileira, com seus defeitos e contradições, não precisa de autorização de Washington para existir. E sua soberania não está à disposição de quem tenha poder suficiente para tentar pressioná-la.
Palmarí H. de Lucena