A língua secreta da política paraibana

A língua secreta da política paraibana

Há uma língua que floresce com especial vigor em ano eleitoral. É falada em português, mas obedece a uma gramática própria: ninguém briga, diverge; ninguém muda de lado, faz uma travessia; ninguém abandona um aliado, inaugura um novo momento. Na Paraíba, esse idioma adquiriu uma sofisticação particular. Uma aliança começa com abraços, fotografias e declarações sobre o futuro; depois surgem as “divergências de percurso”, os “novos projetos”, as conversas reservadas e, finalmente, o rompimento. Algum tempo passa, os antigos adversários voltam a conversar e alguém explica, com a serenidade habitual, que “a política é dinâmica”.

É uma frase extraordinariamente útil. Serve para explicar quase tudo sem explicar demais. O problema talvez não esteja na política, mas na nossa insistência em esperar dela uma coerência que a realidade eleitoral raramente oferece. Um político não disputa apenas uma eleição. Disputa simultaneamente a Presidência, o Governo do Estado, o Senado, a Câmara, as assembleias e, muitas vezes, a eleição seguinte, que começa a ser negociada enquanto a atual ainda está sendo disputada. Cada arena produz interesses diferentes. Um aliado para determinado cargo pode ser adversário para outro; um partido pode adotar uma orientação nacional e outra solução estadual; dois grupos que discordam em quase tudo podem descobrir que concordam suficientemente em uma coisa: precisam um do outro naquele momento.

É aí que a linguagem começa a trabalhar. “Composição” é uma palavra elegante para negociação; “construção” costuma designar aquilo que ainda não virou acordo, mas já convém apresentar como possibilidade; “diálogo” significa que a conversa continua; “consenso” sugere que a divergência foi temporariamente domesticada; e “unidade” pode ser convicção genuína ou fotografia tirada antes da pergunta decisiva: quem será o candidato? Já “novo projeto” é suficientemente generoso para abrigar desde uma mudança de estratégia até uma mudança de grupo. A política tem uma relação particularmente cordial com o passado: simplesmente o reorganiza.

Por isso, “amadurecimento político” também se tornou uma expressão conveniente. Quando alguém muda de posição, pode perfeitamente ter amadurecido; também pode ter mudado porque as circunstâncias mudaram. As duas hipóteses não são necessariamente incompatíveis. O cuidado jornalístico está em não transformar nenhuma delas em fato sem evidência pública. O mesmo vale para “traição”, palavra excelente para discursos inflamados, mas mais problemática para uma análise responsável. Traição pressupõe promessa, obrigação moral e intenção deliberada de violá-la. Muitas vezes, o que existe publicamente é algo mais simples: dois grupos que estavam juntos e deixaram de estar, cada qual apresentando sua explicação.

A história recente da Paraíba oferece exemplos dessa mecânica. Ricardo Coutinho e Cássio Cunha Lima, anteriormente situados em campos adversários, aproximaram-se eleitoralmente em 2010 e posteriormente voltaram a seguir caminhos distintos. O episódio é interessante não porque autorize julgamentos sobre sentimentos privados, mas porque demonstra como adversários podem tornar-se aliados circunstanciais quando encontram um objetivo comum e voltar a divergir quando esse objetivo deixa de ser suficiente para mantê-los juntos.

É nesse terreno que aparecem os odd couples da política, aquelas combinações que parecem estranhas até alguém apresentar a calculadora. A calculadora eleitoral possui poderes quase terapêuticos: não pergunta se existe afinidade ideológica; pergunta quantos votos, municípios, lideranças ou possibilidades de composição cada lado acrescenta. É uma pergunta pouco romântica, mas extraordinariamente objetiva. No Senado, essa aritmética ganha uma peculiaridade adicional: existem duas vagas. Isso permite combinações diferentes de apoio conforme o cargo e os interesses eleitorais de cada grupo. Para quem observa a política como duelo, pode parecer contradição. Para quem a observa como várias eleições simultâneas, pode ser apenas solução funcional.

Essa lógica ajuda também a compreender os vices. Eles estão perto o suficiente do poder para participar de sua construção, mas podem estar próximos demais da sucessão para permanecer indefinidamente subordinados ao titular. Enquanto a sucessão está distante, muitos projetos convivem sob o guarda-chuva da unidade. Quando chega a hora de decidir quem será o candidato, a palavra “unidade” pode adquirir uma elasticidade considerável. Não é necessário atribuir má-fé a ninguém para reconhecer a tensão: dois aliados podem simplesmente descobrir que desejam futuros diferentes.

A fotografia política merece atenção semelhante. Em período eleitoral, ela registra não apenas quem estava presente, mas quem decidiu estar presente. Um encontro pode ser apenas um encontro; também pode ser interpretado como sinalização. Por isso, convém resistir à tentação de transformar gestos em provas de intenções privadas. O que pode ser analisado com segurança são os fatos públicos: quem anunciou apoio, quem rompeu, quem se aproximou, quem mudou de posição e quais justificativas apresentou.

A política, afinal, não é apenas aquilo que acontece. É também a narrativa construída para explicar o que aconteceu. O adversário de ontem pode tornar-se “liderança importante”; a divergência, “diferença superada”; o rompimento, “amadurecimento político”; uma antiga crítica, “debate democrático”. A nova fotografia receberá quase inevitavelmente uma legenda sobre união, responsabilidade e futuro. Pode haver sinceridade nessas explicações. Pode haver estratégia. As duas coisas não precisam se excluir.

Talvez seja essa a maneira mais interessante de observar a política paraibana: não como coleção de traições, mas como sucessão de rearranjos. Não como desfile de incoerências, mas como negociação permanente entre projetos que, em certos momentos, coincidem e, em outros, deixam de coincidir. O eleitor não precisa aceitar todas as justificativas. Pode observar os fatos, comparar as declarações e conservar memória. Afinal, a política muda de opinião muito mais rapidamente do que muda de fotografia. Jornais, vídeos, entrevistas e registros permanecem quando as explicações já mudaram.

Em 2026, esse vocabulário volta ao centro da cena paraibana. As disputas presidencial, estadual, senatorial e proporcional produzem incentivos diferentes, e as alianças podem variar conforme o cargo em disputa. Isso não constitui, por si só, anomalia: faz parte da dinâmica das coalizões eleitorais. A questão é observar essa dinâmica sem confundir declaração com fato, estratégia com princípio ou suspeita com acusação.

Há, nisso tudo, uma pequena ironia. Quanto mais sofisticada fica a linguagem, mais simples pode ser a realidade que ela procura descrever. “Recomposição” pode significar uma aliança que voltou a fazer sentido. “Travessia” pode significar que alguém mudou de calçada política. “Novo momento” pode significar apenas que o calendário virou a página. E “convergência” pode ser o ponto em que interesses diferentes descobrem que, por algum tempo, caminham na mesma direção. Não há necessariamente cinismo nisso. Há, sobretudo, pragmatismo.

O eleitor, diante desse cenário, não precisa ser juiz de cada mudança. Pode ser observador atento. Pode perguntar o que foi dito antes, o que está sendo dito agora e quais fatos justificam a mudança. Pode distinguir declaração pública de interpretação, aliança de amizade e estratégia de princípio. A memória eleitoral não serve apenas para cobrar contradições; serve também para compreender como uma democracia funciona.

Essa talvez seja a melhor forma de manter a ironia sem perder a responsabilidade. A política oferece material suficiente para o humor; não precisamos inventar personagens. Um político anuncia “diálogo”, outro fala em “convergência”, um terceiro invoca “responsabilidade” e, algumas semanas depois, todos aparecem numa fotografia sob a legenda “união pela Paraíba”. O espetáculo não precisa de roteirista.

No fim, a pergunta mais interessante talvez não seja quem traiu quem. É o que aconteceu, o que foi dito, o que mudou e quais consequências políticas resultaram disso. O resto pertence à interpretação.

Uma eleição termina, outra começa, e os personagens continuam no palco. Alguns mudam de partido, outros de palanque, outros descobrem novas alianças. As fotografias se acumulam, as legendas mudam e os arquivos permanecem. Talvez não exista exatamente uma arte paraibana de trair, mas uma arte de sobreviver politicamente às próprias alianças. O adversário pode tornar-se interlocutor; o interlocutor, aliado; o aliado, concorrente; e o concorrente, se houver tempo suficiente, pode voltar a ser aliado. Não é uma regra paraibana. É uma regra da política. A Paraíba apenas a pratica com particular desenvoltura.

Por isso, quando alguém falar em “mudança de cenário”, vale perguntar qual cenário mudou. Quando anunciar um “novo projeto”, convém lembrar que existia um projeto anterior. Quando surgir uma “composição histórica”, é legítimo perguntar o que a tornou possível. E quando finalmente aparecer a fotografia de todos sorrindo juntos, não é necessário acreditar cegamente na legenda nem desconfiar automaticamente dela.

Basta guardar a imagem.

Porque a fotografia é pública, a legenda é negociável, a memória é persistente — e o próximo capítulo, como quase sempre acontece na política, já está sendo negociado enquanto este ainda está sendo escrito.

Palmarí H. de Lucena