A língua como fronteira: patriotismo, imigração e o velho medo do cosmopolita

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A língua como fronteira: patriotismo, imigração e o velho medo do cosmopolita

Poucas ideias reaparecem com tanta insistência no debate público quanto a associação rígida entre língua e patriotismo. Em sua forma mais crua, ela afirma que falar muitas línguas enfraquece a lealdade nacional; em sua versão contemporânea, sustenta que quem não domina o idioma dominante não pertence plenamente à comunidade política. Embora distantes no tempo, essas formulações obedecem à mesma lógica: transformar a língua em prova moral de pertencimento.

A frase segundo a qual “o poliglota não é patriota”, frequentemente atribuída a Olavo Bilac, é exemplo clássico desse equívoco. Além de ter origem literária diversa e irônica, ela cristaliza um falso dilema: ou enraizamento, ou abertura ao mundo. A história intelectual brasileira mostra o contrário. Bilac defendeu a língua portuguesa como instrumento de coesão cívica, não como barreira contra o multilinguismo. Rui Barbosa discursou em francês na Conferência da Haia sem que isso colocasse em dúvida seu patriotismo. Machado de Assis criticou o servilismo cultural sem jamais confundir domínio de línguas com traição.

O problema não está, portanto, na defesa de um idioma comum — legítima e necessária para a vida pública —, mas no deslizamento que converte zelo cultural em suspeita identitária. Esse deslizamento reaparece hoje com força nas campanhas contra imigrantes, especialmente nos Estados Unidos. O argumento central já não é o crime nem o emprego; é a língua. “Eles não falam inglês”, repete-se, como se essa constatação encerrasse o debate sobre pertencimento.

A estratégia é eficaz porque a língua funciona como marcador social aceitável. Evita-se nomear raça, religião ou origem — e ainda assim se produz exclusão. O paradoxo é evidente: os Estados Unidos não têm idioma oficial federal e foram construídos por ondas sucessivas de falantes de alemão, italiano, iídiche, espanhol e tantas outras línguas. A integração linguística sempre ocorreu ao longo do tempo, por convivência e necessidade prática, não por exigência moral prévia. Cobrar fluência imediata é exigir o resultado antes do processo.

É nesse ponto que emerge uma camada mais incômoda do debate. A associação entre poliglotismo, cosmopolitismo e suspeita de lealdade não é nova. Na Europa do século XIX, consolidou-se o estereótipo do “judeu sem pátria”: urbano, poliglota, circulando entre países, visto não como adaptável, mas como essencialmente desenraizado. Não se tratava de uma observação neutra, mas de uma construção política destinada a negar pertencimento. O cosmopolita tornava-se bode expiatório dos medos nacionais.

No século XX, esse imaginário foi radicalizado por regimes autoritários. O cosmopolitismo passou a ser denunciado como traição; a pluralidade linguística, como disfarce; a mobilidade, como conspiração. A figura do “sem pátria” legitimou perseguições e exclusões. Como mostrou Hannah Arendt, a privação de pertencimento político — a condição de não ter uma pátria reconhecida — foi um dos fatores centrais da extrema vulnerabilidade dos judeus europeus.

Nada disso autoriza leituras automáticas ou acusações simplistas. Nem toda defesa da língua nacional é preconceituosa; nem toda crítica ao cosmopolitismo é antissemita. O alerta é outro: quando a língua deixa de ser meio de integração e passa a funcionar como critério de pureza, ela se torna compatível com velhos mecanismos de exclusão — mesmo quando não os nomeia.

A história real desmente o mito. Judeus, imigrantes e minorias sempre mantiveram vínculos profundos com as sociedades em que viveram, contribuindo decisivamente para sua cultura, ciência e vida pública. O poliglotismo não foi sinal de ausência de pátria, mas estratégia de sobrevivência em contextos que frequentemente lhes negavam direitos plenos.

O debate honesto precisa abandonar frases de efeito e absolutismos morais. Defender um idioma comum é fortalecê-lo na educação, na literatura e na esfera cívica. Não é suspeitar de quem chega, nem desconfiar de quem dialoga com o mundo. Línguas prosperam quando são convidativas, não quando são brandidas como senha.

No fim, a pergunta decisiva não é quantas línguas alguém fala — ou deixa de falar —, mas como participa da vida comum. Quando a política escolhe a língua para medir pertencimento, revela menos zelo cultural do que medo social. E o medo, travestido de gramática, nunca foi bom tradutor da convivência democrática.

Por Palmarí H. de Lucena